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sábado, 29 de agosto de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato V: "Pacto Mortal - parte 3"


Logo a notícia da morte de Julieta correu toda a cidade, chegando aos ouvidos de Frei Lourenço...
— Perfeito Julieta! Agora seguirei o plano...
...E também, aos ouvidos de uma criada da casa montecchia, que fazia a feira na praça do mercado.
— Vocês não vão acreditar!!!!! Valha-me Deus! Tão moça! Pobre menina, a Julieta!
— O que tem a Julieta? — pergunta a mãe de Romeu curiosa.
— Morreu! Foi encontrada morta na cama esta manhã! — fala a criada
—Deus meu! — espantou-se o pai de Romeu. — Não era ela que iria casar-se hoje e que, por tal motivo, o orgulhoso Capuleto espalhava a nova, já que a filha iria desposar o nobre conde, parente do Príncipe?
— Sim! Sim! Mas corre pela cidade, espantem-se vós, que ela se matou para não casar-se com o tal do Conde Páris.
— Como?! Um tão alto partido como este! Qual moça não gostaria de casar-se com ele? — Chiara Montecchio não conseguia compreender.
Baltazar passava na hora e ouviu tudo.
— O quê?! Essa não! Quando o meu senhor Romeu souber... e ele tem que saber! Partirei à Mântua para avisá-lo...
E Baltazar não perdeu tempo, selou seu cavalo e partiu a todo galope.
Na cela de Frei Lourenço, ele acabara de escrever a carta e ia entregá-la a Baltazar para que levasse a Romeu, mas quando chegou na casa dos Montecchios não encontrou-o, restou pedir a um irmão de sua Ordem, de nome João, que a levasse, pois Romeu precisava ser avisado do plano.
-->— Vá até a casa de meu irmão Estevão e entregue esta carta ao jovem Romeu.
— Sim, pode deixar meu irmão...
João pegou seu burrico e saiu do convento.
Frei Lourenço, então, tratou de ir à casa de Capuleto, para consolar a família. Lá chegando, a comoção era geral, muitos ainda não acreditavam na morte da menina. O frade chegou fingindo ainda nada saber.
— E então! A noiva já está pronta? — fala a Capuleto.
— Sim, para ir à igreja, sem que nunca possa de lá voltar — fala Capuleto amargurado. — Oh, filho Páris, a morte, na véspera do dia de tuas núpcias, deitou-se com tua noiva. Morrer quero, para levar à morte o que possuo: vida, bens; tudo é dela.
— Quis tanto ver a face deste dia, para enfim, contemplar este espetáculo? — falava Páris inconformado.
— Dia infeliz, maldito, desgraçado! — praguejava a mãe de Julieta. — A hora mais triste que já viu o tempo em toda a sua peregrinação comprida e laboriosa. Uma só filha, uma só, pobre filha, e tão amada. Para gozo e consolo, um ser apenas nos foi dado e a cruel morte nos apresenta este fardo... arrancada assim da vista, em plena flor da idade!
— Oh, dia triste! Oh, dia triste! Oh, dor! O dia mais escuro e lamentável que eu vi em toda a minha vida! Nunca vi dia de tão densas trevas! —  lamentava-se o pai da morta.
— Morte odiosa, ludibriado por ti, cruel morte! Arruinado de todo! — ainda queixando-se o noivo de Julieta.
— Oh, tempo! Por que motivo vieste agora matar, matar nossa solenidade? Oh, filha mia! Alma querida! Já não vives! Morreste! Ah, minha filha já não vive e, com ela, sepultada vai ser minha alegria! — encerra Capuleto às lágrimas.
— Calma, peço-vos; a cura da desordem, vir não pode da desorientação. Tal como vós, tinha o céu parte nesta bela criança. Agora o céu tem tudo, o que é, por certo, melhor para a donzela. O céu, agora, dará sua parte, oferecendo-lhe a vida eterna. Amais de fato vossa filha que vos desesperais por sabê-la tão bem? Interrompei o pranto; sobre o belo corpo espalhai bastante rosmaninho e, tal como é de praxe, em suas vestes mais vistosas levai-o para a igreja, embora chorar mande a natureza. Consolai-vos senhores e que seja aceita a vontade de Deus...
— Tudo o que havia para o festival usado ora vai ser no funeral — lastima-se o pai.
— Vamos, que todos se preparem para o belo corpo levar à tumba. Porventura o céu vos pune por qualquer maldade; não o irriteis, pois essa é a sua vontade.
Todos obedecem os conselhos do padre e retiram-se para prepararem os funerais.
Continua...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato V: "Pacto Mortal - parte 2"


Julieta, enfim, viu-se sozinha. O coração, acelerando ansioso em seu peito. Pegou o pequeno frasco, meio desajeitada e apertou-o firme entre os dedos.
— pelas veias me passeia um medo frio e lânguido, que quase deixa o calor da vida a abandoná-las, mas precisarei representar, sozinha, meu terrível papel. Vamos, frasquinho amigo! E... se esta droga não fizer efeito? Terei de casar-me amanhã cedo... Não. Onde está o punhal que separei para a ocasião?
Julieta deu um pulo da cama e começou a revirar as gavetas de seu toucador, até reluzir a lâmina convidativa, tentando-a contra a sua própria vida.
— Ei-lo. Sim, isto impedirá as núpcias indesejadas, fica aqui perto.
Julieta pegou o frasco que havia deixado sobre a cama e abriu-o. Ainda por um tempo, hesitou.
—E se for veneno que esse frade com astúcia me deu para matar-me, temendo o opróbrio que podia vir-lhe do casamento, por me haver casado com Romeu antes disso? Não! Oh, Julieta! Como podeis pensar assim de um santo homem como ele? Não. Ele não o faria! Pois como santo ele é tido há muito tempo, por isso, não devo ter tão baixo pensamento. E se... depois de estar na sepultura, eu vier a despertar, sem que Romeu chegue para salvar-me? Oh, que coisa terrível! Não ficarei asfixiada dentro da sepultura, cuja boca imunda não expira ar sadio e, assim, morrendo sufocada sem rever o meu Romeu? Ou se eu viver, não será mui plausível que aquela imagem de negror, podridão e morte, onde há centenas de restos de meus antepassados e onde, assim dizem, determinadas horas da noite espíritos vagueiam, causar-me tamanho pavor, que leve-me à demência, caso desperte antes do tempo?! Aquele cheiro repugnante, os gritos de além túmulo e onde jaz Teobaldo mutilado, envolto em seu lençol de sangue... Ai! Não! Pára! Julieta! Pára! Não é hora para sentir medo! Romeu, meu amado... bebo isto por sua causa!
Julieta pega o frasco e bebe tudo de um só gole. Não demora muito a sentir-se tonta e conforme dissera o frade, começa o calor do corpo a ser substituído pela sensação do frio da morte, caindo desmaiada no leito, deixando o frasco escorregar e partir-se no chão junto à cama.
Na manhã seguinte, os senhores levantaram-se bem cedo e preparavam-se para receber Páris.
— Ama, toma estas chaves e nos traze mais temperos e cheiros.
— Os pasteleiros querem marmelo e tâmara.
Lorenzo Capuleto entra em polvorosa.
— Depressa! Mexam-se! Vamos! O segundo galo já cantou e o sinal de apagar o fogo há muito já foi dado. São cinco horas!
— Ide! Ide embora metediço! O lençol está chamando. Por minha fé! Assim ficarás doente, por haverdes velado a noite toda! — reclama sua esposa.
— Nem um pouquinho, ora essa! Muitas noites já passei acordado por motivos bem menores, sem ter ficado doente!
— É certo, em vossa mocidade, mas agora já não sois tão moço!
Entram uns criados.
— Ei! Ei! Amigo que levais aí dentro?
— Coisas que o cozinheiro reclamou, meu senhor. Não sei bem o que seja.
— Pressa! Pressa! E tu, maroto! Traze lenha seca, Pedro pode indicar onde é o depósito.
— Tenho cabeça para achar a lenha, não vou incomodar para isso o Pedro.
— Raios! Boa resposta! O sem-vergonha tem gênio alegre, há, há ! Dará bom cepo...
— Senhor Capuleto! Senhor Capuleto! — chama Pedro.
— Que é?
— Páris está chegando!
— Por minha fé, já é dia! Ama!!!!
— Que foi?
— Vai acordar Julieta e prepará-la! O noivo chegou! Faça isso logo, enquanto converso com ele. Anda!!!! Mais pressa nisso!
A Ama sobe correndo e abre as cortinas do quarto.
— Senhora! Olá! Julieta é quase certo que ainda esteja a dormir. Eh, ovelhinha! Então, menina? Ei! Acorda!!!
A Ama toca em Julieta e sente o seu corpo totalmente frio. Dando um passo atrás, pisa em alguma coisa no chão e olha. Aproximando a luz da vela, vê um frasco suspeito partido no chão.
Um grito dilacerante corta a casa.
— O que está havendo, por Deus?!!!! Que barulheira é essa?— exclama a mãe de Julieta se assustando.
— Não é a Ama? — pergunta Páris.
Ela desce desesperada e aos prantos.
— Oh, morreu!!!! A minha bambina morreu!!!!
— O quê?! — grita Capuleto apavorado e sobe as escadas, Bettina sobe em seguida, enquanto Páris permanecia estático com a notícia inesperada.
— Está sem vida! Sem vida! Dia desgraçado! — chorava a Ama conduzindo-os ao quarto.
— Mas não pode ser! Ela estava bem ontem, como pode ter acontecido isso? — falava Bettina.
— Ela se matou! Se matou!— exclama Filippa
— O que está dizendo, sua velha mexeriqueira?! — Capuleto fica indignado.
— Pois olhe o chão perto da cama! Há um frasco lá! — soluçava a Ama inconformada.
Eles param e olham para o leito. Julieta não respirava. Estava mesmo morta? Sua mãe se aproxima e toca-lhe a mão, enquanto Capuleto pegava o que restava dos cacos, do vidro de um suposto veneno e, ainda não compreendendo o que se passara, começou a chorar. Bettina constata que, de fato, a filha estava morta e entra em total desespero.
— Oh, que dia! MORREU! MORREU! MORREU! — lastima-se Bettina
— Não! Não é verdade! — Capuleto lança-se sobre o corpo inerte da filha. — Julieta, acorda! ACORDAAAA!!!!!! Oh, minha filha! Minha única filha! Reanima-te e olha para mim, ou deixa-me morrer contigo! Aqui! Socoooorroooo!!!! Chamem alguém!!!! JULIETA!!!!
Páris segurou-o por trás e tentava acalmá-lo.
— Senhor Capuleto! Calma! Oh, Julieta... — pedia-lhe Páris, mas já começando e desesperar-se também.
Ele se ajoelhou aos pés da cama, beijou a mão fria da amada e não segurou mais as lágrimas.
Continua...

domingo, 12 de julho de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato V:"Pacto Mortal-parte 1"


Julieta chega em casa e percebe que todos já estavam envolvidos com os preparativos de quinta-feira e o pai dela, era o mais animado de todos. Nem parecia que tinha acabado de sepultar um sobrinho, a morte de Teobaldo havia caído totalmente no esquecimento. Ele distribuía tarefas entre os criados...
— Convidai as pessoas desta lista. E tu, maroto aí!Vai contratar-me vinte hábeis cozinheiros.
Julieta morde os lábios e aperta o pequeno frasco guardado em seu regaço. Tentou passar despercebida, mas a mãe surpreendeu-a quando subia para o quarto.
—Ora! Até que enfim! Ela chegou, meu senhor! — avisa ao marido.
— Então, cabeçudinha? Onde estiveste saracoteando?!
— Onde aprendi, realmente, a arrepender-me do pecado grave de desobedecer às vossas ordens — disfarça ela. — Tendo-me, Frei Lourenço, esse santo homem, ordenado que viesse a vós prostrar-me para pedir-vos perdão. De hoje em diante, serás meu guia em tudo.
— Oh, abençoado frade! Mama mia! Enfim, ele colocou um pouco de juízo em vossa cabecinha. Ei! Aqui Pedro! Ide chamar o Conde; contai-lhe isso. Será firmado o enlace para quinta-feira!
— Não é necessário meu pai! Vi o Conde na cela de Frei Lourenço, tendo-lhe dado tudo o que é possível conceder dentro da área da modéstia, comuniquei-lhe o fato e já estamos acertados.
—Isso me alegra muito! Assim vai tudo bem! Deus louvado! Esse frade reverendo, toda a cidade o tem em grande estima.
— Vamos ama. Quero descansar um pouco. Posso meu pai?
— Mas claro! Descanse para que quinta esteja bela, como uma manhã de primavera.
Filippa sorriu e concordou. As duas subiram, enquanto os pais continuavam discutindo o patético acontecimento.
— Tudo sairá a contento, mulher, deixa estar. Ah, o coração por demais leve sinto, desde que esta menina criou juízo!
Aos poucos, as palavras foram se tornando sussurros distantes, até Julieta entrar em seu quarto. Aproveitando uma distração da Ama, escondeu muito bem o frasco.
— Oh, ovelhinha! Que bom que aceitaste bem! Valeu a pena esperar a tua confissão! Serás feliz com este segundo esposo! Rezei muito por isto!
—Ama, me ajude a separar as roupas que levarei comigo — desconversa ela.
—Ah, sim! Sim! Agora mesmo!
A ama abriu o armário e separou várias peças e vestidos. Alegre, ajudava-a a arrumar seus pertences, para a nova vida ao lado do Conde Páris. A Ama não parava de tagarelar, um minuto sequer. Julieta já estava cansada com aquela ladainha toda.
Enfim chegou a véspera do casamento e Julieta e sua Ama, providenciaram o belo vestido.
— Quero o vestido mais belo e as jóias mais preciosas... — comentava com a Ama. —“ Não para Páris...” — pensa a jovem. — “mas para o meu Romeu... Quero estar linda, quando partirmos à Mântua...”
Filippa mostrou-lhe vários vestidos que havia separado, cada um mais belo que o outro, até Julieta decidir-se por aquele que lhe pareceu o mais soberbo. Um vestido carmesim, ricamente bordado à mão.
No salão principal, Bettina não conseguia esconder sua preocupação.
— Estamos atrasados! Vão faltar provisões e é quase noite!
— Oh, diabos! Vou mexer-me e tudo será feito! Vá ajudar Julieta nos enfeites e deixe-me só; hoje, se preciso, nem vou deitar-me.
No quarto, a Ama de Julieta elogiava-lhe pelo bom gosto.
— Oh, minha bambina! Ficarás linda e vede, vede! Com esta mantilha, estarás ainda mais bela!
Julieta não sabia, ainda, como convencer sua Ama a deixá-la só naquela noite. Porém, o sucesso do plano de Frei Lourenço dependia disso.
— Sim, estas são as peças mais bonitas. Mas gentil Ama, deixa-me esta noite. Desejo ficar só, pois necessito de rezar muito, para que consiga fazer sorrir o Céu para mim, pois bem sabeis; tenho a alma atormentada e cheia de pecados.
— Mas...
A mãe de Julieta bate à porta e entra.
— Ocupada bastante, não? Necessitais de mim?
— Não, senhora. Já escolhemos o que nos pareceu necessário para a cerimônia de amanhã — fala-lhe a filha com doçura. — Só vos peço que levais minha Ama consigo, para que durma em vosso quarto, pois sei que vos achais assoberbada de ocupações para esta festa súbita.
— Sim, de fato, estamos muito atarefados. Ama, venha comigo, precisamos de seus serviços.
— Sim, minha senhora! Julieta, não durma muito tarde e feche bem as janelas! — recomendou-lhe a Ama.
— Eu ficarei bem, não se preocupe, Ama.
Julieta fica sozinha finalmente, só que ao mesmo tempo, além da alegria de ter uma chance de escapar daquilo tudo, invade-lhe uma imensa tristeza. Era a última vez que estivera com elas.
— Adeus minha mãe e minha Ama. Deus sabe quando nos veremos outra vez... — murmura ela.
continua...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato IV:"A resolução de Capuleto-parte 4"

FINALMENTE
foto: estátua de Julieta no jardim dos Capuletos. Diz a lenda que essa estátua de Julieta foi esculpida, por ordem do pai de Romeu, para enfeitar o túmulo e perpetuar a memória dos dois amantes infelizes.


Julieta não dormiu nenhum minuto naquela noite, matutando sobre o que faria para impedir tal casamento, embora procurasse fingir que dormia, para não acordar sua ama.
Na manhã seguinte, saiu com ela para falar com Frei Lourenço. Quando lá chegou, encontrou o conde a conversar com o religioso, provavelmente, já marcando a cerimônia. O frade estava pálido e fora pego de surpresa.
— Quinta–feira, senhor? O prazo é curto.
— Foi o senhor Capuleto que assim quis.
— Mas disseste que não sabeis nada ainda do que a donzela sobre isso resolveu. Esse caminho não o considero certo; não me agrada.
— Ela chora sem pausa a morte de Teobaldo. Por isso pouco falamos de amor. Vênus não sorri numa casa de lágrimas. Agora, senhor, ficai sabendo que o pai dela considera nocivo ela entregar-se desse modo à tristeza... Ah! Julieta! — exclama Páris ao vê-la e cumprimenta-a apaixonado.
Julieta chegara ofegante e ao ver Páris, sentiu o sangue ferver de ódio.
— Feliz encontro, minha esposa e dona!
—Assim será, senhor, quando esposa eu for.
— Será na quinta próxima.
— O que tiver de ser, será.
— Aqui vieste para vos confessar com este monge? — pergunta curioso.
— Dar-vos uma resposta, seria confessar-me convosco — retruca-lhe friamente e amargamente incomodada.
— Pobre alma! O rosto as lágrimas te ofendem! — disfarça ele.
— É vitória pequena para as lágrimas, pois antes já era feio.
— Mais o ofendeste agora, assim falando...
— Calúnia não foi, só disse a verdade.
— Teu rosto é meu; com isso o caluniaste.
Páris estende a mão para tocar-lhe a face, mas Julieta esquiva-se.
— Padre, tens tempo para confessar-me?
— Sim, minha filha! Senhor será preciso que nos deixeis sozinhos. E vós também ama.
— Deus não queira que eu possa perturbar a devoção! Julieta, quinta-feira bem cedinho, irei despertá-la.
Páris beija-a na testa e Julieta entra correndo na cela de Frei Lourenço. Filippa foi sentar-se em um dos bancos para rezar, enquanto Julieta se confessava. Na cela de Frei Lourenço, Julieta desabou e começou a chorar.
— Oh, Julieta! —fala o religioso de forma piedosa. —Já soube do teu infortúnio! Que desgraça!
— Oh, frei! — soluçava ela aos pés do frade. — Não há esperança, nem remédio e não há socorro algum que possa adiar isso!
— Ele ultrapassa de muito meu espírito e surpreso também estou.
— Não me fales, padre! Porém, se algum meio não disseres de evitá-lo; se em toda a tua ciência não achares nenhum recurso! Ao menos chamai sábia a minha decisão, pois uma adaga me ensejará remédio pronto!
— Oh não, Julieta! Tenha calma! Não tome nenhuma atitude precipitada! Pára filha!
— O meu coração e o de Romeu, unidos foram por Deus, por intermédio de vossas santas mãos. Por tudo isso, com tua experiência, dá-me um conselho!
Frei Lourenço pensou, pensou e dirigiu-se à sua mesa de experimentos, de onde tirou, de um cesto de ervas, uma pequenina flor.
— Vislumbro uma esperança, mas a tal ponto desesperadora, como é desesperado o que queremos impedir que aconteça. Se energia tens suficiente para suicidar-te, faremos algo que suicídio lembre para afastar este opróbrio. Se ousares isto, arranjarei o meio.
— Sim! Mandai que eu me jogue de uma torre! Mandai-me entrar num túmulo recente para esconder-me! Sem a menor vacilação, sem medo, tudo farei, contanto que prossiga como esposa sem mancha de quem amo!
— Só um instantinho.
Frei Lourenço pegou aquela flor, triturou-a, misturou a pasta com outros líquidos estranhos, coou e virou num frasco pequeno. Enquanto fazia isso, ia passando certas coordenadas.
— Escuta, então: vai pra casa e mostra-te alegre e dize que disposta te achas a desposar o conde...
— Oh, não frei...
— Calma! quarta-feira é amanhã, então, à noite, deita-te cedo, antes que a ama suba ao quarto e toma este frasco — o frade estende-lhe o elixir. — Beba-o todo e assim que tomares a última gota, logo há de correr-te pelas veias humor frio, de efeito entorpecente, diminuindo as batidas de seu pulso, até parecer parado de todo e teu corpo assumirá uma aparência de morte. Calor nenhum e nem hálito sua vida poderão atestar. Vinte e quatro horas permanecerás nesta aparência de semi-morte, para acordar deste doce sonho e vossa família, julgando-vos morta, a cobrirão com vossas mais ricas vestes e irão sepultar-vos. Nesse meio, Romeu saberá por intermédio de minha carta, sobre o nosso plano e virá para cá. Aguardaremos eu e ele, que despertes, conduzindo-te Romeu, na mesma noite para Mântua.
— Oh, frei!!!! Frei! Não acredito! Romeu virá buscar-me!!! Oh, Dê-me! Dê-me, e verás se não tenho coragem! — grita animada.
— Toma. Esconda-o bem e parti logo. Conservai-vos nesta resolução, filha, tudo dará certo, acredite! Vou mandar prestes à Mântua, um portador com uma carta de minha parte para teu marido.
— TRIUNFE O AMOR!!!!! — exclama ela, segurando firme o frasco. — Eis tudo resolvido! Adeus, meu caro padre!
Julieta despede-se feliz e sai.
— Deus vos abençoe, querida — suspira ele.
— Nossa! Como demoraste?! — comenta a ama irritada. — Quase rezei um rosário! Tinha tanto pecado assim?
— Vamos logo, estou com pressa — fala Julieta não entrando em detalhes.


continua...

domingo, 7 de junho de 2009

Devo e não nego


Sei que estou em falta com vcs, mas sabe como é, né? Recém casada... ainda em lua-de-mel, a gente esquece os compromissos. Mas podem deixar, estou concluindo Romeu e Julieta e em breve postarei aqui. E já estou preparando uma surpresa, após Romeu e Julieta: estou escrevendo o conto "A Maldição do Dragão", cujo papel de parede, exposto acima, se encontra em votação no blog fapdunguel. Por isso, depois de Romeu e Julieta, acompanhem também esta história à la conto-de-fadas, de minha própria autoria.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato IV: "A resolução de Capuleto-parte 3"


O senhor Capuleto ficara vermelho de cólera e quase erguera a mão para bater-lhe pela ousadia, mas Bettina Capuleto impede-lhe, em consideração pela avançada idade da ama. Ainda assim, ele humilhou-a ainda mais
— Não me repliques coisa nenhuma! BASTA! A culpa é vossa por ela ser tão desobediente, velha insolente, sempre a mimaste demais! Pensávamos, mulher... — fala à esposa. — que nossa dita era pequena, pois Deus só nos dera uma menina; mas vejo agora que esta já nos sobra e que com ela a maldição nos veio. RAMEIRA, À TOA!!!— Valha-nos Deus! Deus do céu que a ampare!!! — exclama a ama horrorizada. —Procedeis mal, senhor, por insultá-la deste modo!!!Julieta chorava humilhada e desesperada e sem saber o que dizer, e o que fazer para evitar aquilo tudo. Os pais estavam contra ela, apenas a ama a defendia.
— Por que, Dona Prudência?! Guardai na boca a língua sabe-tudo! Ide ensinar vossas comadres!
— Não se pode falar?
— Velha tonta! Guardai vossas sentenças para vossos iguais, pois não precisamos delas aqui!— Marido, estás muito excitado! — comenta Bettina.
— Sacramento de Dio!!! É de deixar-me louco de todo. Dias e mais dias, a toda hora, de noite, no trabalho, o ano inteirinho, tinha apenas uma preocupação: sabê-la, enfim, casada. E agora que arranjei um bom moço, de nobre parentesco, jovem, rico, de fina educação, de qualidades excepicionais, lá vem uma coisinha choramingas, uma boneca cheia de lamúrias, ao lhe sorrir a sorte, declarar-me: “sou muito nova e amar não me é possível”, “não desejo casar-me”, “desculpai-me, mas agradeço”. POIS NÃO VOU DESCULPAR-VOS! Se não quereis casar, procurai pasto em outro lugar, pois aqui em casa, não ficareis comigo!
— Oh, não! Pai meu! Piedade!!!! — desespera-se Julieta, agarrada às pernas dele.
Ele a empurrou de forma violenta.
— Olha aqui, mocinha... Refleti, vede bem, gracejar não é meu hábito. Quinta-feira está perto; aconselhai-vos com o coração. Se fordes minha filha, por mim a meu amigo sereis dada. Mas se não o fordes, enforcai-vos, ide pedir esmola, perecer de fome, morrer na rua, pois — pela alma o juro! — jamais hei de reconhecer-te e nunca quanto for meu te poderá ser útil. Reflete bem, pois não serei perjuro!
O pai sai resoluto, dando-lhe as costas. A mãe ia saindo atrás e Julieta a puxou, numa última tentativa de sensibilizar o coração dela e pedir-lhe piedade e ajuda.
— Oh, não me repilais, bondosa mãe! Adiai esse casório pelo prazo de um mês, uma semana, ou se possível vos for tal coisa, preparai o leito nupcial no monumento em que Teobaldo jaz sepultado!— Não me fales... — diz sua mãe entredentes. — Não direi nada; faze o que bem entenderes, pois para mim, nada mais representas.
Sua mãe sai friamente e fecha a porta. Julieta corre para a ama e a abraça.
— Oh, minha ama!!! Oh, Deus! Como evitar isso? Conforta-me, aconselha-me! Oh, tristeza!— Calma, filha! Shhh!!! Sê forte!
— Não me dizes uma palavra ao menos? Como pensas, ama?— Talvez não aprecies o que direi, mas não vejo outro modo! Romeu está banido...
— Não me lembre isso!!! — chora ela.
— O mundo todo contra os dois e como ele não poderá retornar agora para reclamar-te, e mesmo que retorne terá que ser muito às ocultas; estando as coisas nesse pé, mais razoável me parece desposares o conde.
— O quê?!— Julieta surpreende-se.— Filha, entenda... De muito o outro ele vence, Romeu ao lado dele não é mais que um pano de cozinha. Além do mais, é como se estivesses viúva, por viveres aqui e não fazer uso do primeiro esposo.
— Não acredito... — Julieta enxuga as lágrimas. — Falas de coração?
— E também de alma e quero que maldito fique o meu coração, se venturosa não vos fizer este segundo esposo.
— Amém... — Julieta levanta-se.
— Como?!
— É; soubeste consolar-me maravilhosamente... — fala ela em tom irônico.
— Oh, que bom que compreendeste-me!
A ama tenta acariciá-la, mas Julieta afasta-se.
— Vai... e dize a minha mãe que por haver deixado meu pai aborrecido, irei cedo à cela de Frei Lourenço confessar-me, para ser absolvida.
—Dir-lhe-ei isto e creio, que procedeis bem.
A ama sai para dar-lhe o recado.
— Oh, velha amaldiçoada! Oh, demônio perverso! Que pecado será maior: querer me ver perjura, ou insultar o meu senhor com a mesma boca que o exaltou sobre tudo neste mundo, quando o conhecera. Conselheira vil, podes ir. De agora em diante, separados tu e meu peito estarão. Vou ver o monge. Com seu conhecimento de ervas e flores, dar-me-á remédio para livrar-me deste mal. Vindo a falhar tudo, porei na morte o meu intuito — jurou ela.

continua...

terça-feira, 5 de maio de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato IV: "A resolução de Capuleto-parte 2"


Os senhores da casa subiram ao quarto e Bettina percebe que pela fresta rasteira da porta do quarto da filha, a luz da lamparina ainda estava acesa.
— Parece que nossa filha ainda não dormiu... Acho que poderia falar com ela agora...
— Bem, se preferir assim... Isso compete a vós comunicar-lhe nossa decisão, minha senhora.
Julieta não conseguia dormir. Na sacada, ainda a chorar, lembrava-se de seus últimos momentos com Romeu. A dor aguda da despedida ainda rasgava-lhe a alma. A ama tentava consolá-la quando a mãe de Julieta bate à porta. A ama atende.
— Onde está Julieta? Já dormiu?
— Ainda não, senhora. A morte do primo a abalou muito...
— Mãe?! — fala Julieta surpresa ao ouvir-lha a voz.
— Pensei que já houvesse se recolhido, como estás Julieta?
— Senhora, não estou boa.
A mãe percebe-lhe os olhos úmidos e delicadamente, com a ponta dos dedos, ergue o rosto da filha.
— Ah, minha pequena Julieta... Reanima-te!
— Não posso evitar.
— Vim para trazer-vos notícias mais alegres.
—Que sejam bem-vindas! Pois vieram em boa hora! Vem a tempo a alegria em tal tristeza!
— Bem... escuta com atenção... Tens um pai zeloso, que para livrar-te desta tristeza cogitou um dia de alegria como nem tu esperavas, nem eu própria poderia pensar!
— E que dia é esse?
A senhora Capuleto senta com a filha na cama.
— Filha, vê só? Na quinta-feira próxima, na Igreja de São Pedro, o Conde Páris, valente moço e nobre gentil-homem; para sua ventura, alegre noiva te fará finalmente!
Julieta arregala os olhos assustada e entra em choque; a ama levanta-se da sua cama, ao ver a jovem transtornada.
— O- Oquê?! — gagueja a moça ainda não acreditando.
Rapidamente ela puxa as mãos das mãos de sua mãe e levanta-se.
— S-Sem me consultarem?! — fala ela revoltada. — PRO INFERNO VOCÊS TODOS!!! Por esta Igreja de São Pedro e por PEDRO também! De mim não fará ele uma noiva alegre!!!— Ai, Deus! — exclama a ama. — Julieta, calma...
— Como é?! Recusa-se a desposá-lo? — espanta-se Bettina.
— Dizei senhora, ao meu pai, que não quero casar; é muito cedo e quando o fizer, prefiro escolher a Romeu, a quem odeio como bem sabeis, do que o tal Conde Páris — desafia ela petulante.
— Como te atreves a preferir um assassino, como este renegado para esposo, do que o bom Conde Páris?! — exalta-se a mãe.
— Senhora, calma! — falava a ama tentando contornar a situação. — Julieta não sabe o que diz, a morte do primo a perturbou muito!
— Sim, só pode ser isso! A morte de Teobaldo afetou-a em demasia! Vais à Igreja na quinta e te casarás com o moço!— NUNCA!!! PREFIRO A MORTE!!!! — desafia Julieta.
O senhor Capuleto já estava deitado, mas ao ouvir as vozes alteradas, foi até o quarto da filha.
— O que há agora? Que gritos são esses?— Eis vosso pai. Dizei a ele o que me disseste há pouco e vede as conseqüências! — falava Bettina às lágrimas.
— Mas o que foi? — pergunta o pai surpreso. — Por que te achas a chorar, agora? Então, mulher: falaste a ela sobre a proposta?
— Sim, conversamos. Ela porém, com isso não concorda. Essa tola devia casar-se com seu túmulo!
— Calma mulher! Que destempério é esse? Como assim não quer casar?!
O pai olhou-a com severidade, o que fez Julieta encolher-se na cama e estremecer. Este olhar do pai era o que ela mais temia. Mesmo assim, Julieta ainda tentou argumentar...
— Senhor, meu pai, muito vos agradeço mas, casar agora, não está em meus intentos.
— Agradece e não quer casar?! Não se sente orgulhosa? Não se julga feliz, mostrando-se como és, indigna, por lhe termos obtido um noivo desses, tão digno gentil-homem?
— Orgulhosa não estou, porém, vos sou agradecida. Não posso ter orgulho por casar-me com um homem que odeio.
— QUÊ?! Odeias Páris? Que quer dizer tudo isso? Ouça bem, rapariguinha à toa! Querendo ou não, tratai de aprontar vossas juntinhas galantes para, quinta-feira próxima, à Igreja de São Pedro ires com Páris. Caso contrário, para lá te levo numa carroça e amarrada, e se mesmo assim relutares, FORA CARNIÇA DOENTE!!! Pois minha filha jamais sereis!— Ora essa! Estás maluco?! — assusta-se Bettina.
— Oh, não!!! — grita Julieta desesperada, atirando-se aos pés do pai. — Bondoso pai, de joelhos vos suplico, ouça-me paciente, uma palavrinha...— Vai te enforcar, TIPO DESOBEDIENTE!!! — insulta-lhe o velho Capuleto. — Já te mostro!!!O pai pegou-a violentamente pelo braço, deu-lhe um tapa na face e lançou-a ao chão.
— Vai quinta-feira à igreja, ou não me encares nunca mais!
— Senhor, por favor meu senhor! Tenha piedade... — fala Filippa acudindo a menina e coloca-se entre eles.
— SAI DA FRENTE, VELHA MEXERIQUEIRA!!!— NÃO SAIO! TERÁS QUE BATER EM MIM PRIMEIRO, POIS DAQUI NÃO ARREDO UM PASSO!
continua...

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato IV: "A resolução de Capuleto-parte 1"

foto: dor e solidão
Julieta, sentada no chão frio da sacada, continuava a chorar.
— Já foste, meu senhor! Amor! Amigo de minha alma! Só o Rei dos céus sabe quando o verei novamente...
— Julieta... — a ama chega para consolá-la.
— Oh, ama querida! Como dói! Parece que arrancaram uma parte de mim...
— Eu sei, ovelhinha... eu sei... mas guardai a esperança em vosso coração. Romeu em breve poderá voltar para levá-la consigo.
— Um minuto encerra muitos dias, fazendo as contas assim, ficarei velha antes de ver o meu Romeu — comenta pesarosa.
— Oh, filha! Mas que exagero!!! Claro que não! — a ama não conteve o riso.
— Por Deus! Ainda não estão prontas?! — entra a mãe de Julieta de repente, assustando-as. — O cortejo fúnebre sairá em meia-hora...
— Minha senhora!!!! Oh, mil desculpas! É que eu estava a consolar a pobrezinha pela perda do primo! Está inconsolável, coitada! — disfarça a ama.
— Ainda a chorar te achas pelo teu primo? — fala a mãe dela amargurada e fazendo um esforço para controlar o choro. — Acaso queres, com lágrimas, tirá-lo do sepulcro?!
— Por que não posso chorar tão grande perda, minha mãe? — argumenta a filha.
— Porque muito choro indica pouco espírito e deverias chorar, não pela perda, mas porque continua vivo o miserável que ceifou-lhe a vida! Esse vilão Romeu...
“Vilão e ele estejam separados por milhares de léguas... — pensa a menina. — Que seja por Deus perdoado, como por mim já o foi...”
— Deixa estar... — fala a mãe em tom ameaçador; os olhos luzentes de ódio. — Ainda haveremos de vingá-lo, por isso, não te aflijas. À Mântua, lugar onde se encontra o renegado... — continuou ela, como se ignorasse a presença das duas e falasse consigo mesma. — Mandarei quem lhe dê uma bebida tão fora do comum, que ele logo fará companhia a Teobaldo.
Julieta e a ama ficam pálidas.
— Muito que bem! Aprontem-se logo para seguirmos com o enterro — fala Bettina tornando a si e sai.
— Oh, Deus! Minha mãe quer matá-lo!
— Calma Julieta. Palavras de uma mente perturbada pelo luto, não leve em consideração...
— Mas se ela de fato o fizer?!
— Não fará! Mas se suspeitarmos de algo, é só escreveres a Romeu em Mântua, recomendando-o a não aceitar nada de estranhos. Acalma-te e finja que chora a morte de Teobaldo.
— Hipócrita serei eu, por todos pensarem que choro por meu parente, quando, na verdade, choro por meu esposo ausente.
— Ninguém precisa saber disso! Vamos! Precisamos nos arrumar...
Julieta veste um vestido pesado e negro e junto da ama, dirige-se para o salão principal. O corpo de Teobaldo ainda estava exposto e trajado com suas vestes mais ricas. Bettina, que mostrara-se um poço de fortaleza no quarto da filha, agora chorava pelo morto. Era impossível não chorar com o corpo presente e todos emocionados. Até Julieta chorou.
Páris estava presente e achegou-se para cumprimentá-la e desejar-lhes os pêsames. Julieta agradeceu sem jeito e ficara muda o restante da cerimônia, enquanto Páris não saía de perto dela. Frei Lourenço já estava encomendando o corpo. Um silêncio mortal caíra sobre o recinto, entrecortado ás vezes por soluços e lamentações . Outras vezes, ouvia-se algumas maldições proferidas ao assassino.
Julieta estava sentindo-se sufocada, ouvir tudo que diziam de Romeu e nada poder dizer em defesa dele, muito a incomodava. No fundo, queria que aquilo tudo terminasse para recolher-se ao aconchego do seu quarto e chorar sua saudade.
Por fim, depois de Teobaldo ter sido devidamente sepultado no mausoléu da família, todos regressaram à casa. Páris continuou ao lado deles, principalmente de Julieta. Ele estava cada vez mais apaixonado e como estava para regressar às suas terras, queria voltar acompanhado de uma esposa.
— As coisas, meu bom Páris, tomaram rumo tão infeliz, que tempo não tivemos de advertir nossa filha. Vede bem: dedicava afeição sincera ao primo Teobaldo.
— Sim, percebi por suas constantes lágrimas.
— Bem... só nascemos para morrer. Já é muito tarde e creio que Julieta não mais descerá. Posso afiançar-vos que, se não fosse vossa agradável companhia, há uma hora já estaria me recolhido.
— Este tempo de dor não é propício para a côrte fazermos. Bem, despeço-me. Senhora passai bem e a vossa filha recomendai-me.
— Farei isso mesmo. Saberei cedo o pensamento dela. Hoje está na dor enclausurada.
— Só peço-vos que meditais, senhores, sobre minha proposta e logo me dêem alguma resposta, pois logo estarei de partida para Veneza...
O senhor Capuleto pensou um pouco e olhou para sua esposa e esta, sugestivamente, lançou-lhe um olhar come se dissesse: “Um casamento tão promissor, por que fazê-lo esperar sem dar-lhe logo uma resposta?”
— Senhor Páris, por favor.
— Sim, senhor Capuleto...
— É, bem... já que estás de viagem próxima, atrevo-me a afiançar-vos o amor de minha filha. Ela se deixa dirigir por mim em tudo. Sim! Estou certo disso! Não sairás de Verona sem vossa esposa a acompanhar-vos. Que dia é hoje?
— Segunda, meu senhor — responde-lhe Páris radiante.
— Ah, sim, segunda! Quarta-feira é muito cedo... será na quinta! Amanhã, bem, cedinho, subi ao quarto de Julieta, mulher, e dizei à nossa filha que, na quinta-feira próxima, desposará o nobre Conde. Não faremos muito barulho; uns dois ou três amigos, nada mais, porque tendo sido morto Teobaldo, há pouco tempo, poderemos dar razão às más línguas que pensem não lhe dedicarmos estima. Por isso, reuniremos uma dúzia de amigos. Então? Que dizeis de quinta-feira? Estareis pronto? Aprovai tanta pressa?
— Oh, senhor! Quisera que esta quinta-feira fosse amanhã!
— Então, estamos acertados. Quinta-feira por mim, minha filha vos será dada. Faça-a muito feliz.
— Por minha alma! É claro que sim!

Páris despede-se dos pais de Julieta. Bettina ficou feliz, era o seu maior sonho: casar Julieta com um homem influente e nobre de berço.
— Adeus, senhor Páris.
— Boas noites, senhor Capuleto. Senhora... — ele faz uma reverência respeitosa à futura sogra e sai.
continua...

domingo, 11 de janeiro de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Segundo Ato: "Juras de amor - parte 4"

*uma ilustração minha de Romeu e Julieta na sacada
— Não posso crer? — Julieta surpreende-se. — Ninguém irá casar-nos, todos temem a inimizade de nossos pais!
— Pois tenho um amigo que poderá casar-nos.
— Quem?!
— Frei Lourenço.
— Oh, eu o conheço! É o meu confessor e assistente do pároco de São Pedro!
— E meu também.
Julieta abraça-o feliz.
— É maravilhoso!!!! Oh, Romeu, se este pendor for sério e honesto, envia-me uma palavra pela pessoa que eu te mandar.
— Julieta, essa pessoa deve guardar o segredo. Achas que podeis confiar?
— Sim. Minha ama Filippa é de minha total confiança! Ela anseia em ver-me casada e tenho certeza que ela ficará feliz e encantada! Dize a ela em que lugar e quando pretendes realizar a cerimônia, que a teus pés porei minha ventura, para seguir-te pelo mundo todo como a senhor e esposo!
— Senhorita!!!! Ainda aí?!!! — grita a ama.
— Já vou! Já vou! Porém, se não for puro teu pensamento, peço-te...
— Bambina!!!!!
— Já estou indo!!! Que não sigas com tuas insistências e deixai-me entregue à minha dor.
— Que eu perca a minha alma, se sinceridade não houver em meu intento!
— Boa noite, vezes mil!
— Não sem tua luz gentil!
— Vai. Preciso entrar...
Romeu desce e feliz, comemora.
— Oh, noite abençoada! Tenho medo que seja um sonho e lisonjeiro em demasia para ser realidade!
Ela volta.
— Romeu! Só três palavrinhas...
— Diga!
— A que horas devo mandar alguém para falar-te?
— Às 9 horas.
— Até lá parece que são vinte anos... AH, Romeu!
— Minha querida...
— Oh, não! Esqueci-me do que ia falar!
—Deixai que eu fique parado aqui, até que te recordes...
— Esquecê-lo-ia, só para que ficasses parado aí, recordando-me de como adoro tua companhia...
— E eu ficaria, para que esquecesses, deixando de lembrar-me de outra casa que não fosse esta aqui.
Julieta colhe uma das rosas do balcão, beija-a e joga-lhe a flor.
— Para que te lembres de mim...
— Sempre.
— É quase dia; desejara que já tivesses ido. Adeus amor! Calca-me a dor com tanto afã, que boa noite eu diria até amanhã...
— Que aos teus olhos o sono baixe e ao peito. Ah, quem dera fosse eu o sono e dormisse deste jeito.
— Boa noite, doce Montecchio...
Ela manda-lhe um beijo e sai de vez da janela, deixando-o a sós.
— Vou agora mesmo a Frei Lourenço, meu pai espiritual, para um conselho lhe pedir leal.
continua...

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Segundo Ato: "Juras de amor - parte 3"

* fragmento de uma HQ de Romeu e Julieta, feita por mim.
— Oh, meu gentil Romeu! Se me amas, proclama-o com sinceridade... — fala emocionada.
Romeu, por um impulso apaixonado, sobe apressado pela corbelha, com o coração aos saltos. Ele queria abraçá-la, beijá-la outra vez. Aliviar o calor que subiu-lhe ao peito, contudo, não acostumada a esses rompantes, Julieta se assusta e afasta-se dele.
— Se pensas acaso, que foi fácil minha conquista, vou tornar-me ríspida e desprezar tua côrte!
— Por Deus, bela menina, não pense que...
— Belo Montecchio, é certo! Estou perdida e louca de amor, daí poder pensares que meu comportamento é assaz leviano. Mas podeis crer-me, cavalheiro, que hei de mais fiel mostrar-me, do que quantas têm astúcia para serem castas!
Julieta debruça-se na sacada e ri de forma tímida, ajeitando o cabelo.
— Poderia ter sido mais prudente, se não fosse teres ouvido, sem que eu percebesse minha veraz paixão, sendo assim... perdoa-me! Não imputes à leviandade, meus sentimentos, tão facilmente descobertos pela noite escura.
Romeu meneia a cabeça, negativamente, apontando para a lua.
— Senhora, juro por esta santa lua que...
— NÃO! Não jures pela lua, essa inconstante esfera, que todos os meses altera seu contorno circular, para que teu amor não pareça assim mutável.
— Pelo que devo jurar, então?
— Não jures nada, ou se o quiseres, jurai por ti mesmo, que é o objeto de minha idolatria. Assim te creio.
— Eu juro! O amor do meu coração é sincero! Oh, Julieta...
Romeu a abraça e beija-a com ardor; Julieta corresponde com a mesma intensidade.
Enquanto se beijavam, ela murmurava feliz...
— Minha bondade é como o mar, sem fim, e meu amor, tão profundo quanto ele! Posso dar-te sem medida, porque muito mais me sobra, pois ambos são infinitos!
O desejo anuviou-lhes o pensamento e apaixonados, entregavam-se àquele turbilhão de sentimentos, até que Julieta voltara a si e repeliu-o.
— Pára! Não me alegra a aliança desta noite.
— Como? O que foi?
— Precipitada foi por demais! Súbita! Tal qual o relâmpago que deixa de existir, antes que dizer possamos: Ei-lo! Brilhou! Adeus querido! Adeus! Sê fiel doce Montecchio e que o hálito do verão amadureça este botão de amor!
— Espera! Vais deixar-me sair mal satisfeito?
— Que alegria querias esta noite?
— Trocar contigo o voto fiel de amor.
— Antes de me pedires, já era teu, mas desejava ter de dá-lo ainda... — fala ela pegando a mão dele e beijando-a. — Não posso dá-lo agora...
— Desejas retirá-lo?! Com que intuito, querido amor? — murmura ele decepcionado.
— Para que mais generosa e em ocasião mais propícia, novamente te ofertasse.
— Em nossas bodas?! — insinua ele. — Desejo que sejas minha esposa...
Julieta surpreende-se...
Ela toca no rosto ansioso dele; os olhos de Romeu cintilavam como estrelas.
A ama a chama, com voz sonolenta.
— Julieta, onde estás?
— Já vou ama! Adeus amor! Adeus! Estou sem sono!
— Deitai que o sono vem, querida ovelhinha!
Ela sente os passos da ama.
— Romeu, esconda-te depressa.
Ele desce afoito e esconde-se sob a sacada, procurando conter sua respiração ofegante. A ama abre a porta.
— Algum problema, querida?
— Não ama! É que a noite está tão linda!
— Sim, mas já são 4 horas da manhã.
— Eu vou logo ama, prometo! Deixai-me apenas mais uns minutos aqui...
— Oh, está bem! Mas não se demore muito, podes resfriar-te — fala ela. — Ai que sono! — a ama boceja e entra. Julieta chama Romeu outra vez.
— Romeu, ainda estás aí?
— Sim.
Mais rápido do que poderia supor, Romeu já estava junto dela.
— Falaste sério sobre a proposta que fizeste?
— De todo o meu coração.
— Mas não vês que é impossível?
— Para o amor nada é impossível. Se desejamos ficar juntos para sempre, não temos escolha, minha amada... nossos pais jamais aceitarão nossas juras apaixonadas. Estão presos pelo ódio do sangue que corre em nossas veias... — ele faz uma pausa.
Julieta entristecera-se. Romeu tinha razão.
— Mas se nunca aceitarão como...
— Creia-me, querida Julieta. Por ti sou capaz de tudo. Não sou mercador, mas se te encontrasses tão longe quanto a praia mais extensa, que o mar longínquo banha, aventurar-me-ia para buscar tão preciosa mercancia.
Julieta lembrou-se de Páris naquele instante e estremecera. Sabia que seus pais faziam gosto em casá-la com ele, mas ela não o amava. Um pouco temerosa, fez a Romeu uma pergunta decisiva.
— Pretendes tomar-me como esposa, de verdade? Não compreendo como, se nossos pais alimentam tamanho ódio...
— Sim. Casemos às ocultas em ato bem simplório — fala o jovem sonhador. — Ninguém precisa saber!
continua...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Segundo Ato: "Juras de amor - parte 2"

pintura: Philip H. Calderon
A portinha delicada abriu-se, escoando a luz da lamparina e ele nota uma figura apoiar-se na mureta. Lá estava ela, a bela Capuleto. A virgem dos seus sonhos de amor.
— Oh, que luz radiante, escoa-se daquela janela! É Julieta! Oh,sim! Eis minha dama; o meu amor... — murmura encantado. — Ah, se ela soubesse disso! Vede com ela apóia o rosto à mão? Quem me dera ser tua luva, para poder tocar naquela face! Ela fala, contudo, não diz nada... que importa?! Com o olhar está falando... Duas estrelas, as mais formosas do firmamento, tendo tido qualquer ocupação, pediram aos olhos dela que brilhassem em suas esferas, até que elas voltassem. O que aconteceria se ficassem lá no alto, os olhos dela? Suas faces fulgentes varreriam as estrelas, como o dia faz com as trevas da noite, e seus olhos, tamanha luz no céu espalhariam, que os pássaros, despertos, cantariam...
—
Ai de mim! — suspira ela queixosa.
— Falou?Oh, fala de novo anjo brilhante! Por que tão inacessível aos vis mortais, aos pecadores como nós? Oh, emissário alado das alturas! Abençoa-me com o doce som de tua voz!
—
Oh, Romeu! Romeu! Por que tinhas que ser tu, Romeu?! — falava amargurada. — Querido Montecchio... renega o pai, despoja-te do nome, ou se não puderes, jura ao menos que amor me tens, que uma Capuleto deixarei de ser logo! Meu inimigo é apenas o teu nome e continuaria sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses — ela ri encabulada. — Que é Montecchio? Que há num simples nome? A flor a que chamamos de rosa, com outro nome teria igual perfume — fala sonhadora. — Assim Romeu, se não tivesses o nome de Romeu Montecchio, conservaria a mesma perfeição, que é dele sem título... — ela faz uma breve pausa. — Oh, meu querido Romeu! — exclama eufórica. — Risca teu nome e em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira!
Romeu não conseguiu mais ficar calado, depois de ouvir isso.
— SIM! Aceito tua palavra! — grita ele. — DÁ-ME APENAS O NOME DE AMOR QUE SEREI REBATIZADO!
Julieta se assusta, não esperava por isso e com a surpresa, não reconhecera a voz.
— DEUS MEU! QUEM ÉS TU, QUE ENCOBERTO PELA NOITE, ENTRAS EM MEUS SEGREDOS? — protesta a jovem envergonhada e revoltada.
— Por um nome, não sei como dizer-te quem eu seja. Meu nome, cara santa, me é tão odioso porque sou teu inimigo e se o tivesse escrito, diante de mim, eu o rasgaria!
“Santa?!...” — lembra Julieta, recordando-se da forma como Romeu a chamara na festa.
— Romeu? És tu, Romeu?
Julieta finalmente liga as frases soltas e o reconhece.
— Meus ouvidos ainda não beberam cem palavras de tua boca, mas reconheço o tom. És Romeu, o filho de Giuseppe Montecchio.
— Nem um nem outro, se ambos te desgostam.
— Dize-me por que vieste? Muito alto é o muro do jardim e difícil de escalar! Sendo o risco a própria morte, se acaso fores encontrado por um de meus parentes!
— As leste asas do amor me fizeram transpor estes muros, pois barreira alguma conseguirá deter do amor o curso — responde-lhe empolgado. — Sendo assim, teus parentes não poderiam desviar-me do propósito!
—
Shhh!!!!! Fala baixo! No caso de seres visto poderão matar-vos!
— Em teus olhos há maior perigo, do que em vinte punhais de teus parentes! Olha-me com doçura e serei imunizado contra o ódio dos teus!
— Por nada deste mundo, desejaria que foste visto aqui! Vá embora... não te arrisques!
— A capa tenho da noite para deles ocultar-me. Basta que me ames e eles que me vejam... não importa. Prefiro ter a vida arrancada pelo ódio deles, a ter morte longa faltando o teu amor!
Lágrimas de alegria vieram aos olhos de Julieta. Foi a jura mais bela, que alguém poderia ter feito à uma dama. Nem o dito Conde Páris, que se dizia tão apaixonado...
continua...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Segundo Ato: "Juras de amor - parte1"

* fragmento de uma HQ de Romeu e Julieta feita por mim há muito tempo.

Julieta deitou-se no leito e chorava baixinho. A ama Filippa, muito preocupada, foi falar com ela.
— O que foi minha ovelhinha? O que se passa?
Julieta enxuga as lágrimas para disfarçar. Ela havia estado com o homem que sempre sonhara para si. Um homem com coração de poeta, mas por quê? Por que ele tinha que ser filho do inimigo de seu pai? Julieta desejava desabafar, porém, perguntava se sua ama entenderia, por isso achou melhor não arriscar e tenta desconversar de alguma forma.
— Não é nada, ama. Uma indisposição...
— Como nada? Saíste daquele jeito...
— Eu já estou melhor.
A ama olha-a incrédula. Julieta logo percebera que não seria fácil enganá-la, porque sua ama a conhecia muito bem, mais até do que ela própria.
— Quando vier a coragem, eu contarei, pois estou envergonhada pelo que fiz e não quero falar sobre isso.
— Estás bem?
— Estou.
— Bom, isso que importa. Fico mais tranqüila...
— Durma ama querida, deves estar cansada pelo agitado dia — fala a menina com doçura.
— Oh, sim! E como? Já não tenho mais idade para certas coisas!
Filippa não insistiu com suas perguntas, preferiu deixar Julieta com seus pensamentos, pois no fundo ela sabia que uma hora ela iria falar, pois somente com ela, Julieta confessava suas frustrações e problemas, buscando conselhos e acabou por interpretar o fato como um arroubo de juventude. Filippa puxou sua cama de rodas, debaixo da cama de Julieta e arrumou o leito. Dormiu rápido, pois estava muito cansada.
Julieta ainda continuou acordada. Uma inquietude apoderou-se de sua alma e a cada momento que tocava seus lábios, lembrava-se do beijo doce do amado.
“Oh, Deus do Céu! Por que Romeu? Logo ele a quem deveria odiar...
" — indagava-se.
Romeu perguntava-se a mesma coisa e a mesma sensação inquietante, apoderava-se dele.
— O que foi, Romeu? — pergunta-lhe Benvólio, quando viu-o empacar o passo. — Por que paraste, primo?
— Tenho que voltar! — fala aflito. — Como afastar-me, se daqui não pode sair meu coração?
—
Como?! Ei! Volta!!!
Romeu já ia longe; nem ouviu-lhe o grito. Disparou novamente na direção da casa capuleta. Benvólio, confuso, puxa Mercuccio.
—
Que foi? Calma!
— Romeu voltou para a casa de Capuleto!
—
Hein?! — fala Mercuccio tonto.
— Vamos atrás dele!
— E será que vamos acertar o caminho?! — gargalha Mercuccio, debochado. — Vejo duas vias, onde antes só tinha uma!
—
Não é hora para brincadeiras! Vem!
—
Calma! Que furor!!! Bons rapazes — diz ele ao grupo. — sigam sem nós...
—
Vem logo!
Todos do grupo riram, ao vê-los se afastarem. Estavam totalmente ébrios, pois não há nada mais cômico no mundo, do que bêbados que pensam estarem sóbrios, correndo cambaleantes naquele trocar de pernas bem típico. Ainda mais com um segurando o outro, por julgar o parceiro mais bêbado do que ele próprio. Caíram até algumas vezes, até sumirem na curva da viela.
Apesar da dificuldade, conseguiram chegar ao muro da casa de Capuleto e viram Romeu pular pro jardim.
—
Romeu! Primo Romeu?!
— Ele é prudente, por minha fé! E soube achar a estrada para o leito macio! — comenta Mercuccio malicioso.
—
Cala-te, língua infame! Em disparada veio até aqui e pulou o muro que dá para o jardim! Faça alguma coisa! Chame-o, pois já o chamei e ele não me responde!
— Vou conjurá-lo! — pigarreia Mercuccio. —
Romeu! Capricho! Paixão! Sujeito louco! Enamorado!
— Não responde! — fala Benvólio aflito. — Chama de novo! Insiste!
Romeu estava oculto pelos galhos da árvore rente ao muro, mas via os amigos nitidamente. Observava-os sem dar um “Ai”.
— Acho que precisará de uma invocação mais forte... — comenta Mercuccio aprumando-se, ou pelo menos, tentando.— Vou fazer-lhe um conjuro mais forte...
Ele tonteia e enche o peito. Romeu queria rir, mas se segurava...
— EU TE CONJURO PELOS OLHOS SEM-PAR DE ROSALINA! POR SUA FRONTE! SEUS LÁBIOS ESCARLATES! OS DELICADOS PÉS! AS BELAS PERNAS! AS TREMULANTES COXAS...
— PÁRA COM ISSO! — critica-lhe Benvólio, antes que ele falasse algo indevido e obsceno. — Por certo irás magoá-lo!
— Não, isso não o magoa. Minha invocação é bela e honesta! O nome digo de sua amada, para que possa reanimar-se!
—
Ora qual? Não falais coisa com coisa! Estás bêbado!
—
E tu? Estás sóbrio por acaso?!
— Vamos embora! Ele ocultou-se entre as ramagens. Seu cego amor diz bem com a escuridão. É canseira inútil procurar, quem não quer ser encontrado...
Os amigos se afastam. Romeu sente-se indignado.
— Só ri das cicatrizes, quem ferida nunca sentiu no corpo...
O galho quebra-se.
—
Ai não!
Ele tenta se segurar em outro, mas estava tão escorregadio por conta do sereno, que sua mão não teve firmeza. Por sorte, Romeu cai sobre um arbusto que amortece-lhe a queda.
— Ui! Essa doeu!
Romeu levanta-se e começa a avançar. O ambiente era amplo. Ao redor dele, existiam várias árvores e arbustos coloridos, que repousavam vigilantes pelo jardim, como se desejassem ocultar algo de olhos curiosos.
Romeu estava incomodado e temeroso. Seu coração batia forte e a imagem da bela Capuleto, teimava em não sair da sua mente. Ele precisava vê-la, nem que fosse uma última vez.
À medida que se aproximava da casa, ia afastando as plantas, até vislumbrar entre os ramos, o singelo balcão de uma janela. Ao lado da sacada, uma armação de madeira caiada bem alta, servia de apoio à uma trepadeira florida. Uma corbelha de flores, cujos cachos de rosas silvestres caíam, dando uma aparência de castelo de conto-de-fadas. Mas onde estaria a princesa? A armação parecia bem firme, para servir de escada improvisada, na falta de coisa melhor. Além das rosáceas, uma hera abusada misturava-se às ramagens, desde o muro lateral até a janela. Enquanto ele examinava a armação, ouve um barulho vindo de cima; o delicado abrir de uma porta. Assustado, esconde-se entre os arbustos.


continua...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "O Baile" - 3

foto: cena do filme de Franco Zefirelli "1968" (Julieta e Páris)
Ao virar-se, Romeu teve um sobressalto e contemplou a mais bela aparição, mais bela ainda do que Rosalina, a ingrata que magoara-lhe o coração.
— Andaste por demais ao sol, jovem senhor — brinca ela. — Balbuciando palavras sozinho e sem sentido aparente, ou se acaso engano-me, não estás contente?
Romeu fica sem palavras para responder à bela moça. Tinha diante de si, uma jovenzinha radiante como a aurora matutina. Pele clara como a neve e cabelos negros como o ébano; olhos de uma cor que Romeu não pode definir; ora pareciam verdes e ora azuis, dependendo da luz a banhar-lhe o jovem rosto; faces róseas, demonstrando o frescor da tenra idade e seus lábios? Ah, os lábios! Bem delineados pela natureza e tão carmesins, que pareciam uma uva moscatel madura e doce, convidando a ser provada. E o sorriso? Que lindo sorriso ornamentava-lhe a face! Dentes alvos e brilhantes!
O coração de Romeu disparou, mas antes que pudesse saber-lhe o nome, a dama virou-se e dirigiu-se à uma senhora que gesticulava-lhe de forma frenética. O rosto dele havia corado e sentiu um calor percorrer-lhe todo o corpo e agradeceu aos céus, por ter a face oculta.
— O que foi, ama? — pergunta Julieta.
— O conde Páris deseja despedir-se.
Julieta se segurou para não abrir um largo sorriso e acompanhada da ama entrou em casa.
— Quem será ela? — indaga-se Romeu encantado. — Oh, que simpleza! Nunca soube até agora o que era a verdadeira beleza!
Romeu estranha as suas palavras proferidas espontaneamente.
— Será que agora, de fato, saberei o que é o amor? Seguirei atrás.
Ele volta para o salão iluminado e começa a procurar pela jovem. Viu-a conversando com um cavalheiro e nesta hora, passou um criado servindo.
—
Ei! Amigo! Que dama é aquela que fala com aquele cavalheiro?
Já cansado e mau-humorado, o criado responde de qualquer maneira.
— Desconheço-a, meu senhor.
Depois que o servo afastou-se, Romeu levanta a máscara e continuou em sua contemplação apaixonada.
— Ela ensina a tocha a ser luzente! Dir-se-ia que a face está pendente da noite, qual jóia mui preciosa, na orelha de uma etíope mimosa! Bela demais para o uso, muito cara para a vida terrena! Como clara pomba ao lado de gralhas tagarelas, anda no meio das demais donzelas!
Teobaldo, primo de Julieta por parte de sua mãe, passava na hora e viu-lhe o rosto antes de Romeu baixar novamente a máscara, e o reconhece.
— Como esse vilão se atreve a com máscara grotesca, vir aqui para de nossa festividade rir e fazer pouco? — fala indignado. — Pela honra de meu sangue e nobre estado, dar-lhe a morte não julgo ser pecado!
Teobaldo corre em direção aos tios. Romeu, alheio, nem percebera que Teobaldo o vira.
Páris foi embora e Julieta voltou para a roda de dança, para divertir-se com as amigas. Estava feliz e aliviada.
— Vou procurá-la, após a dança, para que esta mão possa tocar nela e assim ficar bendita!
— Tio! — chama-o Teobaldo.
— Que é, sobrinho meu? Que se dá contigo?
— Aquele é um Montecchio, nosso inimigo? — fala apontando-o.
— Como tu o sabes?
— Vi-lhe por uns instantes o rosto, enquanto tinha a máscara levantada.
— Mas quem é ele?
— É Romeu Montecchio! O biltre Romeu! — fala Teobaldo com raiva. — Ele entrou aqui, por zombaria, para estragar nossa alegria!
— Caro sobrinho, aquieta-te! Deixai-o tranqüilo! Ele não fez nenhum chiste com nossa festa, tem-se mostrado um perfeito gentil-homem. Para ser-te franco; Verona tem orgulho dele, como rapaz virtuoso, pacífico e mui polido. Não quero que ele seja, em minha casa, ofendido. Acalma-te, portanto e fica alegre! Essa é a minha vontade!
Bettina Capuleto surpreendeu-se com a tolerância do marido.
— Acatai sua presença, fica alegre e desfaça esta carranca que não vai bem com nossa festividade! — diz-lhe Capuleto.
Teobaldo não conseguia acreditar no que ouvira. Ver o tio defendendo o inimigo, muito o revoltou.
—
Vai sim, quando um vilão se mete nela! — retruca-lhe. — Tio, eu não o suporto! Por favor... é vergonhoso!
Capuleto segura-lhe firme pelo braço e joga-o em uma cadeira.
— Terás de suportá-lo! Estou mandando: deixa-o em paz!
Quem manda aqui, acaso, vós ou eu? Ora! Não o suportais, então; quereis fazer barulho entre meus hóspedes?! Provocar Briga?! Quereis ser o primeiro a ser enforcado pelo Príncipe Escalo? Sois um petulante! Arrependi-me de tê-lo convidado!
— Mas... — ele ainda tentou argumentar.
— SILÊNCIO!
Ide acalmar-vos, seu fedelho impetuoso e desequilibrado!
Capuleto afasta-se e Bettina achega-se a Teobaldo.
— Faça o que ele disse — ordena ela. — Resolva isto mais tarde, pois Lorenzo disse: “em minha casa”. Na rua, porém, podeis agir como quiserdes. Mate-o por esta afronta e depois, fuja da cidade e retorne mais tarde, quando todos já houverem esquecido o caso — idealiza a cruel mulher.
—A paciência e o furor equilibrados, inativos me deixam com seus brados. Vou embora, mas o intruso que hoje é mel, será amanhã o mais amargo fel.
— Isso! — concorda ela.
Teobaldo abandonou a festa. Recusou-se a permanecer no mesmo antro que um inimigo Montecchio, pois talvez, até o final do baile, desobedecesse ao tio.
continua...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "O Baile" - 2

foto: Estátua de Julieta no jardim dos Capuletos

Quando Romeu e os companheiros chegaram, a festa corria animada e a cada chegada de novos convidados, o Senhor Capuleto, acompanhado da esposa, vinha recebê-los à porta.
— Senhores, bem-vindos! As senhoras que não sofrerem no dedão de calos, hão de dançar convosco! — cumprimentava-os o anfitrião.
— Vamos agora — fala Mercuccio.
— O Capuleto está na porta... — hesita Romeu tentando dar meia-volta, no que Mercuccio puxou-o.
— Nada disso, meu bom rapaz! O que esperavas? Ele é o dono da casa e deve fazer as honras!
— Eu me arrependi de ter vindo!
— Agora é tarde, caro amigo! Esqueças quem sois e entre sorrindo!
—
Ora! Estou de máscara! — recrimina ele.
— Mais um motivo para não ter medo — Mercuccio empurra-o. — Olá, Senhor Capuleto? — cumprimenta-o Mercuccio, fazendo um meneio. — Mercuccio, vosso criado!
— Oh! Como vai, bom Mercuccio? Quem são esses?
— Meus companheiros de música.
— Ah, é mesmo! Esqueci-me de que adoras animar as festas! Isso é ótimo, porque meus músicos cansando, podeis assumir as serestas!
Romeu suava frio e, embora mascarado, seus pés vacilavam.
— Me parece que este rapaz não está bem...
— Ah, coitado! É um enjeitado pela família, o qual a minha dispôs-se a cuidar, pobrezinho! Ele é estrangeiro!
Romeu vira-se incrédulo para Mercuccio.
— É?! — pergunta Capuleto. — De onde?
— Da França! — mente Mercuccio.
— Adoro a França! Suas maneiras, seus costumes... De onde sois meu jovem? De que província francesa?
Romeu mordeu os lábios. Se ele falasse, Capuleto reconheceria-lhe a voz. A vontade dele era voar no pescoço do amigo.
— Imagina! Não vos contei?! — torna Mercuccio calmo. — Ele é mudo, não fala nada!
— Oh, mas que pena! — apieda-se a Senhora Capuleto.
Benvólio estava se segurando ao máximo, para não cair na gargalhada.
— Ele não fala nada mesmo? — pergunta Capuleto incrédulo.
— Nem um gemidinho...
Mercuccio pisa com força no pé de Romeu e ele sente uma dor terrível, mas não podia gritar, teve que segurar-se. Seus olhos lacrimejaram por trás da máscara.
— Viu?!
— Oh, que lástima! Coitado... Entrem. Sede aqui bem-vindos! Já se foi o tempo em que punha uma máscara e sabia cochichar algumas palavrinhas nuns ouvidos bonitos, mas a mocidade é fugaz... tudo passa! Ide senhores!
Os amigos arrastaram Romeu para dentro.
— Por que fez aquilo? — pergunta a Mercuccio revoltado.
— Me vinguei! — ri Mercuccio.
—
Seu desgraçado! — xinga Romeu. — Eu te mato seu asno!
Mercuccio corre para o meio do salão, cheio de gente, antes que Romeu arrancasse-lhe o couro.
Enfim, todos os amigos misturaram-se aos convidados e Romeu retomou o seu intento. O pior já havia passado. Começou a procurar por Rosalina, porém, de fato não a vira junto da família. À festa ela não fora, mau sinal.
O Senhor Capuleto e sua senhora já haviam voltado para o salão e agora, conversavam com os pais de Rosalina. Sorrateiramente, Romeu se aproxima para ouvir o que comentavam.
— Então, é mesmo verdade, Benvenuta? Rosalina decidiu ser freira... — falava Bettina.
— Sim. Minha filha sempre foi uma santa, já era esperado que agisse desta maneira.
— Não estão decepcionados? — pergunta Capuleto.
— Nem um pouco, irmão Lorenzo! — disse-lhe Iacopo, o pai de Rosalina. — Sentimo-nos lisonjeados! É até melhor, menos um dote a ser pago!
— Quanto a mim, nem posso pensar em colocar minha filha no convento, senão, minha família termina; por isso, estou empenhado em arrumar-lhe bom casamento — fala Capuleto.
— E já tem alguém em mente, caro cunhado? — pergunta a mãe de Rosalina.
— Estamos pensando em casá-la com o Conde Páris — explica a mãe de Julieta. — Só que, por enquanto, nada foi arranjado até o momento presente.
— Nossa! Conde Páris é um bom-partido! — admira-se Benvenuta.
— Sim! Muito rico! Escolheste bem, Lorenzo! Agora, quanto ao fato de Rosalina estar no convento e com homem algum casar-se, tenho outros filhos, por isso, não devo preocupar-me.
— Isto é fato! — concorda Capuleto.
“Então era verdade... Ela de fato tornou-se casta...” — pensa Romeu decepcionado e afasta-se inconsolável. —“Benvólio não mentira...”
Romeu foi procurá-lo e por fim encontrou-o.
— Eu não disse? — fala ele.
— Sim, disseste primo meu. E eu cheguei a duvidar da tua palavra!
— É natural, primo. A decepção certas vezes nos bate à porta e por medo de sofrer, não abrimos para ela. Mas, caro Romeu, atente! Logo acharás uma linda donzela e esta, o fará esquecer-se de Rosalina e logo, estarás outra vez contente!
— A ferida está recém aberta, não sei se desejo aventurar-me nesta estrada tão cedo!
— Encontre nova paixão, não tenha medo! — incentivou-o Benvólio.
— Preciso de ar...
Romeu afasta-se e dirige-se para o jardim da casa e senta-se no chafariz. Ele queria chorar e estava por um triz, contudo, sentia-se envergonhado de fazê-lo, embora a máscara lhe favorecesse e pudesse vazar a tristeza sem temor, e martirizar-se pelo perdido amor.
No salão, Julieta já estava cansada de dançar e dar atenção a Páris. Queria afastar-se dele um pouco, ela não estava agüentando mais; seus pés doíam e seu pretendente era por demais esnobe. Por fim, conseguira uma boa desculpa e conseguiu fugir, escolhendo o jardim para esconder-se.
Casais estavam a conversar animadamente e pareciam apaixonados e absortos em si mesmos. Julieta não pode deixar de admirá-los; eles não se preocupavam com nada em redor, apenas contemplavam-se mutuamente. Ela suspirou profundamente, desejando um amor semelhante para si e algum tempo depois, reparou numa figura imóvel e solitária, sentada no chafariz. Era o único que estava sozinho.
“O que aquele homem só, faz no refúgio dos casais apaixonados?” — indaga-se. "— Bom, deve estar esperando alguém... de certo marcou algum encontro...”
Ela ia retirar-se, mas decidiu continuar a observá-lo; pelo menos era melhor ali, do que ao lado de Páris. Após um tempo bem longo, ela constatou que ninguém dele se acercara. Curiosa, resolveu aproximar-se e ouviu ele balbuciar palavras amarguradas.
—Ah, que aparência tens amor tão branda, mas na verdade, sois áspero e tirano!
Assim falava o jovem quando foi surpreendido por uma risada meiga e cristalina...
continua...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato " O Baile" - 1

foto: máscara veronesa
O grande salão já estava iluminado, as guirlandas suspensas e espalhando o seu perfume suave; uma mesa com várias iguarias, já tinha sido servida com luxo e beleza.
Os convidados chegavam aos poucos e iam enchendo o salão, com seus risos, suas conversas e suas roupas bordadas e riquíssimas em detalhes; era um verdadeiro show de cores, mas as cores que mais predominavam era o vermelho e o dourado, a cor do brasão da família Capuleto.
Julieta já estava arrumada, aguardando sua ama Filippa vir buscá-la para o baile. Seu vestido era vermelho vivo, num tom bem forte, bordado com rosas singelas em tom branco, contornadas em dourado, pois a cor predominante da família tinha que sobressair-se em sua roupa. Seu cabelo bem longo e negro, protegido com uma espécie de touca do mesmo tecido da roupa, estava impecável, preso em uma trança enfeitada com uma rede de pérolas, sinal da moça disponível para o casamento.
Ela estava deslumbrante! Mas para o Conde Páris, não para alguém que ela, de fato, quisesse enfeitar-se. Olhava-se no espelho e sentia-se estranha. Só conhecia o amor através dos contos que ela criava e narrava às amigas. “Será que o amor existe como nos contos-de-fada?” — indagava-se.
— Julieta! — chama-lhe a ama, despertando-a dos devaneios.
— O baile já começou, vamos! O conde a espera.
Ela soltou um suspiro entediado e queixoso.
— O que foi, ovelhinha? Estás triste?
— Não, ama...
— Não simpatizas com Páris, não é?
Julieta ficou lívida. Sua ama acertara na mosca. E como se entendesse o silêncio dela comentou...
— Eu te conheço bem, Julu...
— Nada posso esconder de ti, não é ama?
— Filha, não fica assim...é natural que tu não gostes dele, afinal, pouco o conheceis, porém, quem sabe se com a côrte e a convivência, não venhas apegar-te ao moço?
— Talvez... é que... é tão estranho... — balbucia Julieta tentando entender.
— Claro, minha bambina! Nunca ouviste falar de amor! Há pouco saíste da infância, então, tal temor é natural para a tua idade... — explica-lhe a boa ama. — Bom, acho que teremos que conversar sobre isso, preciso explicar-te sobre algumas coisas, pois já estás na idade.
Julieta sorriu.
— Acho que tens razão. Como sempre, querida ama!
— Venha! Vamos descer!
Neste mesmo tempo, por uma alameda estreita e escura, munidos de archotes, vinham Mercuccio e sua trupe de músicos mascarados, na direção da casa dos Capuleto. Romeu e Benvólio estavam com eles.
— Por escusas faremos algum discurso, ou entramos sem nenhuma apologia? — pergunta Romeu ao primo.
— Muito falar destoa deste dia. Que nos tomem por quem melhor acharem; mediremos com todos alguns passos e, após, sairemos —explica-lhe Benvólio.
— Dai-me uma das tochas; não me acho disposto para pinotes hoje.
— Não! Tereis de dançar, caro Romeu! —caçoa Mercuccio.
— Nervoso da forma como estou, pesa-me o corpo feito chumbo e meus pés, não conseguem dar um passo.
— É tão fácil! É só acompanhar o compasso!
Mercuccio segura Romeu e para escarnecê-lo, tenta valsar com ele.
—
Ei! Ei! Me solta!!! — protesta ele.
Os amigos começaram a rir. Indignado, Romeu pisa no pé de Mercuccio.
—
Ai! Essa doeu! — reclama ele.
— Já disse que não vou dançar hoje!
Mercuccio soltou uma longa gargalhada.
— Ora! Sois um apaixonado! Por empréstimo, tomai as lépidas asas de Cupido! — brinca ele.
— Hum... ROSALINA!!!!! — ri um dos homens e os demais começaram a caçoar dele também, até Benvólio.
—
Querem parar com isso! — irrita-se Romeu. — Tão transpassado estou por suas setas que nenhuma de suas asas, conseguirá levar-me para o alto! Pois sinto-me pesado, que não posso deixar a dor obscura, esta, nem pelo fardo do amor, gemendo se cura!
— Mas para estar sob ele, é necessário que carregueis o amor, embora um peso excessivo para coisa tão terna — filosofa Mercuccio.
— Coisa terna julgais que seja o amor?! Não; muito dura. Dura e brutal e fere como espinho... — desabafa ele.
— Se o amor convosco é duro, sede duro com ele! Revidando todas as pancadas que der — aconselha-o. — Ponde-o no chão!
Giácomo! Dê-me uma cobertura para o rosto! Em cima de uma máscara, ponho outra! Que me importa que o olhar possa perceber a feiúra?
Dizia Mercuccio, escarnecendo de si mesmo e de sua aparência, que não era tão bela, embora muito feio também não fosse; mas ele se julgava fora dos padrões de beleza e não adiantava dizer-lhe o contrário. Os amigos já estavam acostumados com seu complexo.
— Vamos bater e entrar, e uma vez dentro, que bom uso das pernas todos façam! — combina Benvólio animado.
— Insisto! Dê-me uma tocha! Já meu avô dizia sentencioso: seguro a luz e fico a observar tudo. Fora, muita algazarra; eu, quieto e mudo — pede Romeu outra vez.
— Por que tanto temor, agora? Não querias ver e falar com Rosalina, a ninfa por quem lamenta e chora?! — repreende-lhe o primo.
— É que eu tive um sonho esta noite...
— Oh, mas que coincidência! — intromete-se Mercuccio. — Eu também!
— Sobre o quê? — pergunta Romeu curioso.
— Que os sonhadores sempre mentem e sonho algum, verdade tem! Vamos rapazes! “andiamo”! Já estamos atrasados! — adianta-se Mercuccio, conduzindo os seus bardos.
O grupo seguiu em frente e Romeu ficou pra trás.
—
Anda primo! Deste jeito, não pegaremos nem a ceia! — grita-lhe Benvólio.
— Eu devo estar mesmo louco. Ir à festa em casa inimiga... Embora mascarado, ainda assim é um absurdo!
O sino do campanário da Catedral de São Zeno, soaram dez badaladas. Romeu ouve o som e vira-se para a igreja e faz uma ligeira prece.
— Apreende o meu espírito algo que ainda pende das estrelas e que vai iniciar seu fatal curso, na festa desta noite, pondo termo à vida desprezível que eu carrego no peito, num açoite. Mas Aquele que se acha no leme da minha viagem, dirija-me a vela!
Ao virar-se para a alameda, percebera que os amigos já iam longe e teve que correr para alcançá-los.
—
Ei! Esperem!!! — grita ele.


continua...

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "Em busca do verdadeiro amor"- 4


foto: cena do filme Romeu e Julieta de Franco Zefirelli
No jardim da mansão de Capuleto, Julieta já havia recebido algumas amigas e primas para a festa. Sentadas no pátio em círculo, próximas ao gargarejar preguiçoso do chafariz central, teciam as guirlandas que enfeitariam a noite. Era primavera e muitas flores puderam ser usadas, desde rosas a miosótis.
As moças ouviam Julieta contar mais uma de suas estórias de príncipes e princesas, enquanto trabalhavam. Isso ajudava a matar o tempo e controlar a ansiedade para a festa.
— E então, após matar o dragão... — contava ela. — o valente príncipe tomou-a nos braços e levou-a para o seu castelo, onde viveram felizes para sempre.
— Que linda estória, prima Julieta!
— Sem dúvida! Uma bela história de amor! Acho que nossa prima mais jovem deseja apaixonar-se... — brinca Benedetta.
Julieta sente-se corar e joga um ramo de flores em cima da prima maliciosa. Todas as moças riram com isso.
—
Não é isso! — fala Julieta encabulada.
— Imagina se não... — insistiu a prima.
—
E se for? Qual o problema? — fala Lívia, amiga de infância de Julieta. — Já é hora de interessar-se por um jovem.
—
Lívia, pára! — retruca Julieta voltando a corar.
A ama de Julieta começa a berrar por ela.
— JULIETA!!!!! Onde está a menina? JULIIIIIIIEEEEEETAAAAA!!!!!!

— Sua ama a está chamando! — fala Stefana.
No quarto de Julieta, a senhora Capuleto estava nervosa e impaciente.
— Onde ela está, ama? — perguntava ela.
— Por minha virgindade! Desde quando eu tinha 12 anos já a chamei! — exagera ela. — JUUUUULIIIIIEEETAAAAAAAA!!!!!!Julieta entra em casa correndo e atropelando os que estavam arrumando a festa. Sobe as escadas para o segundo pavimento e vê sua ama Filippa bem agitada.
—
Menina! Onde estavas?
— No jardim, ama!
— Rápido! Sua mãe deseja falar-vos!
— Minha mãe? — Julieta estranhou; sua mãe nunca foi de lhe dar muita atenção. Era fria como o gelo e elas pouco se falavam.
— Sim, minha ovelhinha! Anda! Se avie!
— Onde ela está?
— No vosso quarto.
Julieta entra e vê sua mãe sentada na penteadeira, tentando ajeitar uma mecha rebelde, que cismara de mostrar-se pelo véu. Estava linda! Já vestida para receber os convidados; um vestido com bordados ricos, o chapéu com véu, típico de uma mulher já casada da época. Em nada aquela mecha que caía, atrapalharia todo o conjunto de beleza, entretanto, sua mãe já parecia irritada com aquilo.
— Senhora, aqui estou — fala Julieta aproximando-se. — Que desejais?
— Ah, que bom! Filha precisamos conversar... é...
Ela olha para Filippa.
— Ama deixa-nos sozinha, pois é assunto particular...
— Sim, senhora.
A ama sai meio contrariada; quando sai, não pôde evitar a curiosidade, enfiou o ouvido na porta. Ouviu que a senhora Capuleto tentava começar a falar, mas empacou por sentir-se tímida e dirigiu-se à porta para pedir que Filippa voltasse. Filippa ouviu-lhe os passos e afastou-se correndo, procurando disfarçar. Bettina Capuleto abre o quarto.
— Ama, por favor! Volta!
A ama sorriu animada e obedeceu, embora não entendendo nada. O fato é que o Senhor Capuleto já havia falado à esposa das intenções do Conde Páris e ordenou-lhe que já preparasse o terreno para umas possíveis bodas. Julieta estava confusa. O que haveria de tão grave para a mãe portar-se daquele modo? Bettina, para justificar-se e pedir-lhe desculpas pela grosseria, sem humilhar-se perante uma criada começa a falar:
— Lembrei-me agora que é preciso que ouças nossa conversa, pois há muito tempo conheces minha filha.
— É certo, posso dizer que idade tem, hora por hora!
— tem 14 anos incompletos — corta a Senhora Capuleto.
— Jogo 14 dos meus dentes fora, embora para minha aflição só tenha 4, em como não fez ainda 14 anos!
— Isso pouco importa... — fala Bettina.
A ama nem deixou a Senhora Capuleto iniciar. Começou a tagarelar e a falar da infância de Julieta.
— No dia 1 de agosto, ela completa 14 anos, ela e Susana, minha filha, que morreu bebê ainda. Eram da mesma idade, bem, Susana está com Deus, mas como ia dizendo: na noite de 1º da agosto ela completa 14 anos. Desde o tremor de terra, que abalou Verona, onze anos se passaram quando ela desmamou e depois, de pé, sozinha, a ovelhinha já cambaleava pela casa e, pela
Santa Cruz! Depois do aniversário, ela caiu e machucou a testa!
Julieta estava segurando o riso, para não rir da cara impaciente da mãe. Ela estava desfigurada. E a ama continuava...
— Meu marido, que Deus o tenha, levantou a menina e disse:
“Isso, Julu! Caia agora de frente, porque mais tarde cairás de costas, quando tiveres mais espírito!” E parando de chorar, na mesma hora, a pirralhinha disse SIM, sem saber do que ele falava — disse a ama soltando uma gargalhada sonora.
—
Ama! Já chega!!! — repreende-lhe a patroa corando-se. — Bem... retomemos o assunto...
—
Ah, minha bambina!!!— interrompe a ama de novo. — Foste a criança mais linda que criei! Deus vos conserve em graça!
Julieta corre e abraça sua ama-de-leite. A senhora Capuleto, voltou a apertar as têmporas com força.
— Eu já sei disso! — fala a mulher entre-dentes. — Enfim... — suspira fundo e tenta retomar o assunto.
— Se um dia puder ver-te casada... — falava Filippa acariciando o rosto de Julieta.
—
Pois foi para falar de casamento que a chamei! — falou logo sua mãe, antes que a tagarela da ama a interrompesse de novo. — Julieta: em que disposição te achas para isso?
A menina se surpreendeu, nunca havia pensado nisso. Até a ama ficou surpresa...
— É uma honra, com a qual jamais sonhei — reconhece de forma tímida e inocente.
— Pois estamos na época de pensar em casamento. Mais jovens do que vós, aqui em Verona, senhoras de respeito já são mães. Para ser breve: o valoroso Páris requesta vosso amor.
Julieta abaixa a cabeça e disfarçadamente, torce o nariz bem feito. “Logo ele?” — pensa ela contrariada. —“Ele é um chato! Só sabe falar de dinheiro, do poder que tem, de lutas, mas nunca de amor...”
—
Que homem menina! — grita a ama eufórica. — Um homem desses, só feito de encomenda!
— A primavera de Verona não tem mais bela flor! — elogia-lhe também a Senhora Capuleto.
— Sim, uma verdadeira flor! Que traços! Que modos! — concorda sua ama.
“Para mim ele se parece mais com uma erva-daninha...” — pensa Julieta com desdém.
— Que dizeis? — fala sua mãe, interrompendo-lhe o pensamento. — Sois capaz de amar o jovem? Hoje à noite vê-lo-eis em nossa festa. Folheai o livro de seu jovem rosto, que nele encontrareis doces encantos, escritos pela pena de beleza. Enfim, que me dizeis do amor de Páris?
— Vou ver se prendo nele os meus olhares. Mas a vista não chegará além, do que me consentir vossa vontade — fala Julieta sem jeito.
— Ótimo! Ama, arrumai Julieta! Quero-a divina esta noite, para que aos olhos de Páris, não pareça um açoite! — despede-se Bettina saindo.
— Sim, minha senhora! Vem, minha ovelhinha! Vamos escolher o mais belo vestido!
Julieta deu um sorriso torto, sem graça e suspirou amargurada, enquanto para o armário a ama lhe puxara.



continua...