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domingo, 22 de novembro de 2009

Fim de uma longa e adorável história

foto: estátua de Julieta no jardim dos Capuletos e acima, o balcão onde, supostamente, os amantes trocaram suas juras de amor eterno.

Enfim, com este capítulo, encerro Romeu e Julieta em prosa e versos. Creio que muitas vezes mais em prosa do que em versos, pois ainda me falta uma certa veia poética. Porém, escrevo esta mensagem para agradecer e compartilhar com todos a satisfação que senti ao reescrever este conto eterno e que até hoje, encanta gerações.
Foi uma experiência muito interessante e uma alegria imensa ao abrir o blog, a cada dia, e ver que o número de leitores só aumentava. Leitores não só do Brasil, mas do mundo todo.
Muitos sei que vão terminar de ler, ao mesmo tempo em que encerrei o conto, outros, ainda estão lendo e tenho certeza que muitos mais irão ainda ler. Assim, deixo registrado aqui o meu agradecimento aos leitores que me acompanharam, me acompanham e que ainda me acompanharão, e sem o incentivo de vocês, que estavam sempre presentes e me prestigiando, isto não teria sido possível. Um forte abraço a todos e espero, em breve, trazer mais histórias como essa para compartilhar com vocês, meus grandes amigos.
att:
Paula Dunguel

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato V: "Sepultados no Amor"- final"


Em cidade pequena, as notícias voam, e em Verona não foi diferente, logo, uma multidão de curiosos acorreram ao cemitério, e se empurravam e se acotovelavam, para conseguir um lugar de melhor visão, para saber o que tinha acontecido de tão grave. O dia já havia amanhecido há pouco.
Os Capuletos e os Montecchios já haviam sido comunicados e se dirigiam para lá. O primeiro a chegar foi o príncipe Escalo, regente de Verona.
— Que horror é este que nos fere a vista? — assusta-se o regente da cidade.
Os cadáveres estavam expostos à porta do mausoléu.
— Príncipe, aqui está morto o Conde Páris, Romeu e a que antes falecera, Julieta, e outra vez morta — explica-lhe um dos guardas.
— Por Deus! Como se deu este horroroso morticínio? — exclama o regente horrorizado e inconformado por perder mais um parente, o seu sobrinho.
Nessa hora, enquanto lamentava-se pela perda, chegaram os Capuletos e logo depois os Montecchios.
— Por que estes gritos por toda parte? Que houve? — pergunta o Senhor Capuleto.
— Pelas praças, o nome de Romeu, o povo grita; outros, o de Julieta; outros, o de Páris, correndo toda a gente para o lado do nosso monumento — fala Bettina confusa.
O Senhor Capuleto estaca e não crê no que vê.
— Ò Céus, mulher! Vê nossa filha: sangra! Um punhal em seu peito... Que se passa?!
— Ai de mim! — Bettina cai com os joelhos em terra e desespera-se. — Esse quadro só de mortes é como um toque fúnebre que me chama à sepultura!
Chegam o Senhor Montecchio acompanhado de outros parentes.
— Ah! Chegaste Montecchio? — desdenha o príncipe de Verona. —Vem cá, homem; cedo te levantas, para mais cedo ver baixar teu filho.
— Oh, meu senhor! Que mais conspira contra minha idade? Minha senhora, doente se acha, por saber que o amado filho estava exilado e agora, isso? Oh, Deus! Será morte certa para Chiara, saber tamanha desgraça!
— Eis o resultado de tanto ódio — afirma Escalo.
—Oh, néscio! Néscio! Que costume é este de antes do pai, entrar na sepultura? — lastima-se o velho Montecchio.
— Sela a boca de ultraje por um pouco, até que este mistério esclareçamos e fiquemos sabendo sua origem e verdadeiro curso. Apresentai-nos os suspeitos — ordena o príncipe.
Um guarda aproxima-se com Frei Lourenço e Baltazar.
— Aqui está um frade e também o criado de Romeu; instrumentos carregavam para arrombar o túmulo.
— Dos presentes, sou eu o mais suspeito, muito embora seja o que menos pode fazer algo, visto acusarem-me o lugar e a hora. Eis-me a acusar-me, a um tempo, e a defender-me, num só momento condenado e absolto.
— Então dizes logo o que sobre isto sabes — ordena Escalo.
— Serei breve... Romeu, aqui sem vida, era marido desta Julieta, assim como ela, era a fiel consorte deste Romeu.
— O quê?! — exclama a mãe de Julieta, não acreditando em tamanha asneira sem sentido. — Isto é mentira! Nunca ouvi tamanho absurdo como esse...
— Cala-te, mulher! Deixai que o padre continue a história! — grita o príncipe.
Um burburinho imenso foi ouvido no meio da multidão e Escalo teve que controlar a inquietação crescente, para que o frade continuasse.
— Fui eu que os desposei. Estas núpcias clandestinas deram-se na manhã do dia em que Teobaldo perdeu a vida, cuja morte baniu de nosso burgo o recente marido. Era por causa dele e não por Teobaldo, que Julieta se vinha definhando. Mas vós... — acusa os pais de Julieta — ... com o fito de expulsar-lhe do peito essa tristeza, ao conde a prometestes, tencionando casá-la a contra-gosto. A coitada, então, procurou-me desvairada e pediu-me que inventasse qualquer recurso que a livrasse desse segundo casamento, ou então lá mesmo, em minha cela, armada com um punhal, poria termo à vida. Dei-lhe então um estupefaciente que sobre ela o efeito produziu a aparência da morte. A Romeu escrevi nesse entrementes, para que ele aqui viesse nesta noite de horrores, ajudar-me a retirá-la de seu falso sepulcro, pois o efeito da droga nessa hora cessaria. Mas a pessoa que levou a carta, detida foi por acidente e Romeu não a recebeu. Então, sozinho, na hora prefixada para ela despertar, vim retirá-la do túmulo dos seus, para escondê-la na minha pobre cela, até chamar Romeu outra vez. Aqui chegando, porém, encontrei mortos o conde e o fiel Romeu. Nisso, Julieta despertou. Roguei-lhe que fugisse e que aceitasse com paciência o que o céu lhe destinara. Um barulho me afastou de Julieta, sem que, em seu desespero, ela comigo se retirasse, tendo ao que parece, posto termo à existência. A Ama estava à par do casamento, assim como o bom criado de Romeu, Baltazar. Se algo nisso falhou por minha culpa, que em minha velha vida, algumas horas antes do tempo, expie em sacrifício, sob o rigor da mais severa pena. Porém, o único desejo dos dois jovens, quando decidiram se casar, era tentar fazer brotar a paz entre suas famílias.
— A Ama está presente? Ela confirma esta história? Quero o parecer dela — exige o príncipe.
A Ama, aos prantos, aproxima-se.
— Sim, meu senhor. Eu fui testemunha do casamento deles.
E antes que o príncipe Escalo lhe perguntasse, Baltazar antecipou-se.
— Eu também confirmo.
— E tu, rapaz, como criado de Romeu, o que nos informa?
— Fui portador a meu senhor da nova da morte de Julieta. Ele, apressado, veio de Mântua para cá, para este mesmo túmulo, tendo-me ordenado que esta carta, a seu pai, desse bem cedo. Ao penetrar no túmulo, ameaçou-me de morte se eu não fosse embora logo e não o deixasse aqui.
— Dá-me esta carta, quero ver o que diz. E o pajem de Páris? O que chamou a guarda? Onde ele está?
— Aqui senhor.
— Que fazia teu amo aqui?
— Veio com flores para a sepultura da noiva, tendo-me ordenado que ficasse à parte. Depois, com luz, chegou um homem para violar a sepultura; tendo logo sacado meu senhor contra ele a espada, ao ver a cena, corri e fui chamar a guarda.
Escalo abriu a carta de Romeu e leu.
—Confirma a carta o que nos disse o monge: Aqui Romeu nos conta que, sabendo da morte da esposa, veneno ele comprou de um boticário e que vinha morrer neste sepulcro, para ficar ao lado de Julieta. Termina pedindo perdão pelo seu ato aos pais e encerra dizendo que os ama muito... — Escalo suspira desolado. — Muito bem... onde se encontram agora estes inimigos? Capuleto! Montecchio! — o príncipe chama e encara-os com grande desaprovação.
Eles se aproximam sem jeito e também decepcionados.
— Vede como sobre vosso ódio a maldição caiu e como o céu vos mata as alegrias valendo-se do amor? Por minha parte, por ter condescendido com todos os vossos ódios, dois parentes perdi! Fomos punidos! Ouviram: TODOS FOMOS PUNIDOS!!!
As famílias choravam e sentiam remorsos por toda raiva cultivada por anos a fio. Raiva esta, sem nenhum sentido aparente que a desencadeasse. Ódio cultivado apenas por status social, por uma família desejar ser ainda mais influente na cidade do que a outra.
Capuleto, emocionado, dirige-se a Montecchio, que estava inconsolável.
— Dá-me tua mão, irmão Montecchio, é o dote de minha filha. Mais, pedir não posso.
— Mas eu posso dar mais, pois hei de a estátua dela mandar fazer do mais puro ouro. E enquanto for Verona conhecida, nenhuma imagem terá tanto preço como a da fiel e apaixonada Julieta — promete-lhe Montecchio.
— Romeu fama também dará à cidade; vítimas são de nossa inimizade.
Por um milagre, daquele dia em diante, os Capuletos e Montecchios prometeram a não mais levantar armas, uns contra os outros. Juraram diante do príncipe e dos corpos ali expostos que viveriam em paz. Escalo soltou um longo suspiro e declarou solenemente:
— Esta manhã nos trouxe paz sombria: esconde o Sol, de pesar, o rosto. Ide; falai dos fatos deste dia; pois há de viver em todos, na memória, de Romeu e Julieta a triste história.
Assim, arrumaram os corpos e fizeram um sepultamento solene dos dois jovens. Foram enterrados juntos, o local, não se sabe ao certo, pois faz muitos séculos, todavia, sabe-se que até os nossos dias, a estátua de Julieta, erguida pelo Senhor Montecchio, reina absoluta no jardim da antiga casa dos Capuletos e todos os que visitam Verona, ainda podem vê-la.
FIM

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato V: "Sepultados no Amor"- parte3"


Frei Lourenço, chorando silenciosamente, tira o corpo inerte do jovem e pousa-o no chão, fazendo sobre ele o sinal da cruz. Estava inconformado; gostava muito do rapaz, pois o conhecia desde o batizado. Sabia que era e sempre fora um bom menino e um homem íntegro, talvez o melhor filho da cidade de Verona. E agora, por culpa dele, Frei Lourenço, e de seu plano arriscado, o rapaz perdera a vida. Contudo, como ele poderia imaginar que uma vez sabendo da falsa morte de Julieta, Romeu agiria daquela forma? Se soubesse, nunca teria dado o frasco do remédio à jovem. Mas queria tanto ajudá-los...
— Oh, meu menino... Por quê? Por que fizeste isto? — murmurou o frade.
Frei Lourenço teve que interromper o choro e enxugar as lágrimas, pois Julieta começava a acordar.
— Romeu? És tu, meu amor? — chama ela despertando.
Frei Lourenço adianta-se e pega em suas mãos.
— Oh, meu bom frade! Onde está meu senhor? Sei muito bem onde eu devia estar, onde me encontro, mas não o vejo... Onde está Romeu? — pergunta confusa, ainda sob o efeito da droga.
— Venha Julieta, saí senhora, deste ninho de morte. De contágio e sono contrário à natureza. Uma potência por demais forte para que a vençamos frustrou nossos intentos.
— Como assim? Não compreendo...
Julieta engolira a frase. Pensou que estivesse ainda sonhando, ao imaginar ter visto Romeu caído ao chão do túmulo.
— Romeu?!
O frade perde as cores, tentou tanto poupá-la da visão dantesca da morte do amado, mas não pôde evitar.
— O que ele faz ali? — confunde-se a jovem.
— Oh, céus! Julieta querida venha, teu marido se acha morto.
— O quê?! Não... — fala ela caindo em si.
— Vem logo, vou levar-te para um convento de piedosas freiras que hão de cuidar de ti... Não perca tempo com perguntas!
— Não!!! — Julieta desespera-se ao saber da notícia. — Romeu!
Frei Lourenço tentou arrastá-la, mas a força de um ancião jamais se compararia a de uma ágil e apaixonada jovem. Julieta facilmente desvencilhou-se e jogou-se aos pés de Romeu.
— Julieta, a guarda já deve estar chegando. Páris também está morto e com certeza, não veio aqui sozinho. A essa altura, o príncipe já foi avisado e não me atrevo a esperar mais!
— Vai, que eu daqui não sairei jamais! — fala ela aos prantos.
— Menina, por favor...
Ouve-se de fora, uma barulho de muitas vozes e relinchar de cavalos.
— São eles! Ouço bulha! Venha Julieta, vamos nos esconder!
— Me larga!!! Me deixe!
— Não posso fazer isso!
— Por favor, Frei Lourenço, só quero um minuto para me despedir... — pede ela. —Antes que os guardas aqui cheguem, estarei ao lado do senhor... — mente a jovem, para convencê-lo a deixá-la.
— Oh, Deus! Está bem! Estarei ao fundo do mausoléu, escondido na escuridão, mas não se demore.
O frade sai.
— Oh, Romeu, por que me deixaste?! Que será de minha vida? Como conseguirei viver, sem teu calor, tuas carícias, tuas palavras doces? Sou nada sem ti! Serei uma sombra a vagar e lamentar-me por toda eternidade!
Julieta toma-lhe as mãos para beijar e percebe algo na mão dele.
— Que vejo aqui? Um frasco na mão de meu senhor? Veneno?! Oh, só pode ser! Veneno foi seu fim prematuro, na verdade...
Ela verifica o frasco e estava totalmente vazio.
— Oh, sovinas! Bebeste tudo, sem que me deixasses uma só gota amiga para alívio! Os lábios... Vou beijar-te os lábios, talvez ainda reste algum vestígio neles, já que é um veneno tão forte... — imagina esperançosa e beija-o. — Teus lábios ainda estão quentes... morreste há pouco, mas nada restou da peçonha em tua boca para dar-me alento e a morte...
Julieta ouve vozes. Alguém caminhava-se para lá.
— Vamos, guia-me, rapaz; qual é o caminho? — fala um guarda.
— Logo à frente está o corpo do meu senhor. Romeu o matou — explica o pajem — Eu vi.
— Oh, Deus meu! Vem vindo gente! Deve ter outra coisa que possa servir-me... um punhal talvez. Romeu não viria para cá, jurado de morte, sem alguma arma para proteger-se...
No chão, próximo ao corpo, Julieta vê a bolsa de viagem de Romeu e começa tatear dentro. Seus olhos iluminam-se quando toca um objeto frio.
—Sim! Como pensei! Preciso andar depressa... Oh, sê bem-vindo punhal!
— Meu Deus, quanto sangue! — exclama o guarda assustado —Oh, Senhor do Céu! O Príncipe Escalo terá de ser avisado da morte do sobrinho estimado! Pobre Páris!
— O assassino deve estar lá dentro — fala o pajem. — Deve estar saqueando os mortos!
— Duvido! Ele já deve ter fugido!
— Não fugiu; ele não sabe que eu o vi...
— Não, Julieta! Não faça isso!!! — gritou Frei Lourenço.

Os homens ouvem um grito e se assustam.
— Julieta? Que diabos é isso?! — espanta-se o guarda, pois sabia-a morta — Ei!!!
O pajem fugiu de medo, deixando o guarda protestando sozinho.
— Seu covarde!!! Rato imundo, volte aqui! Diabos, seguirei só...
O guarda apressa-se e depara-se com Frei Lourenço, segurando Julieta, a que pensava estar morta e agora, a sangrar recente. O sangue rubro e quente, correndo-lhe do peito.
— Mas o que significa isso? Romeu morto e Julieta ferida?!
— Por Deus, seu guarda! Eu posso explicar... — adianta-se o frade.
— O senhor feriu o cadáver? Mas o que pretendia com isto?!
— Não, eu não a feri. Ela se matou.
— Mas ela já não estava morta?
— Senhor guarda, é uma longa história...
— Acho bom começar a explicá-la agora, estás preso — fala o guarda.
— Sim, eu sou o maior culpado...
Frei Lourenço ofereceu as mãos sem resistência e o guarda levou-o para fora. O guarda, tão logo saíra do túmulo, deu ordens aos outros companheiros que estavam lá fora.
—Tu, rapaz! Vá chamar o Príncipe e depois, os Capuletos e os Montecchios. Os outros passai revista em todo cemitério, e se encontrarem alguém, prendei-o. Há muitos crimes praticados esta noite, que precisam ser devidamente explicados. Eu tomarei conta do frade, que é o principal suspeito. Vemos o terreno de tantas desventuras; mas o terreno verdadeiro destas desgraças lastimáveis, só podemos ficar sabendo após maior estudo.
Voltam os guardas.
— Senhor! Encontramos outro suspeito! É o criado de Romeu, fomos achá-lo dentro do cemitério. — comunica um dos guardas.
— Segurai-o com bem cautela, até que chegue o príncipe. Na busca prossegui vós outros.
— Baltazar! — exclama o frade feliz ao vê-lo, afinal, era uma testemunha em favor dele.
— Frei Lourenço, o que houve?
— Uma desgraça, Baltazar... — o frade começou a chorar.


continua...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato V: "Sepultados no Amor"- parte 2"


Romeu aproximou-se dos dois corpos e o primeiro a ver foi o de Teobaldo. Ele contemplou-o por uns instantes e sentiu novamente o remorso a oprimir-lhe o coração.

— Teobaldo... agora jazes em um lençol de sangue. Oh, que maior favor fazer-te posso? Do que com esta mesma mão que a tua mocidade cortou, destruir, agora, a do que foi teu inimigo? Primo perdoa-me...

Romeu permite-se chorar um pouco por Teobaldo, antes de aproximar-se de Julieta.

— Ah, querida esposa... a insígnia da beleza em teus lábios e nas faces ainda está carmesim, não tendo feito progresso o pálido pendão da morte — emociona-se ao ver o corpo tão adorado, agora inerte. Leva a mão à face de Julieta e faz-lhe uma carícia. As lágrimas correm-lhe na face. — Ó, meu amor. Querida esposa. A morte que sugou todo o mel de teu hálito poder não teve sobre tua formosura. Oh, Julieta! Por que ainda és tão formosa?

Romeu desaba de vez e abraçando-a, enterra o rosto nos cabelos negros e sedosos. Soluços de lamento ecoam pela câmara deserta.

— Permitirei eu, que esse monstro magro e horrível, a que chamamos de morte, como amante nas trevas a conserve? — continua ele. —Não, meu amor... jamais... Com medo disso, ficarei contigo, sem nunca mais deixar os aposentos da tenebrosa noite; aqui desejo permanecer, com os vermes, teus serventes! — suspira ele contendo um pouco o choro. — Aqui sim, aqui mesmo, fixar quero meu repouso eterno.

Romeu leva a mão à pequena bolsa que trazia na cintura e retira o veneno. Contempla o líquido mortal por um instante.

— Vem, condutor amargo! Vem meu guia de gosto repugnante! Olhos... vede vossa esposa mais uma vez; será a última. Braços, permiti-vos um último abraço...

Romeu abraça Julieta.

— E lábios, que sois a porta do hálito, com um beijo legítimo selai este contrato.

Beija-a. O último e derradeiro beijo de despedida, antes de beber o veneno.

— Eis para meu amor...

Romeu bebe de um só gole e logo sente o líquido descer e queimar sua garganta. O gosto era horrível. Poucos instantes depois, já sofre os efeitos da peçonha. O corpo ficou trêmulo e o ar, começou a faltar-lhe e por fim, sentiu que perderia os sentidos. A Morte estava cada vez mais próxima.

— Ó, boticário veraz e honesto! Tua droga é rápida... Julieta...

Romeu beija-lhe as mãos e cai sobre a amada. O coração dele deu um salto e parou, seus olhos escureceram e sua vida o deixara.

Na mesma hora, Frei Lourenço chegava no cemitério. Vinha munido de lanterna, alavanca e uma pá.

— São Francisco me ajude! Quantas vezes esta noite, meus pés enfraquecidos tropeçaram em túmulos? — reclamava ele.

— Oh, Frei Lourenço! — uma voz o chama.

O frade se assusta.

— Ai Jesus!!! O que...

— Sou eu frei, Baltazar!

— Baltazar?! Oh, Deus do céu, não me assuste assim! Mas o que faz aqui?

— Vim com Romeu.

— Romeu?! Mas como... — o frade se espanta

— Oh, Frei Lourenço! Que bom vê-lo! Convença o louco a sair de lá!

— De lá onde?

— Do túmulo dos Capuletos. Ficou tão desvairado com a morte da esposa, que temo que esteja disposto a fazer algo muito ruim.

— Ai, não! Há quanto tempo ele está lá?

— Há cerca de meia hora.

— Santo Deus! Já começo a sentir medo! Receio algum caso desastrado! Vem comigo até o túmulo.

— Não ouso, senhor! Ele soprou-me ameaças sem conta, caso o interrompesse! Ameaçou-me até de morte!

— Então irei só. Oh, Romeu, não faça nada precipitado!

Frei Lourenço entra no túmulo e depara-se com o primeiro corpo. Ao sentir que tropeçara em algo, aproxima a lanterna e descobre o Conde Páris assassinado, trespassado por uma espada.

— Eu não acredito! É o Conde Páris!!!

O frade ficou sem ação, não esperava que o acontecimento fosse trazer desgraça de tamanha proporção.

— Oh, dor! Romeu!!! — chama-o desesperado. — Você está aí, Romeu? É Frei Lourenço quem chama! Olá!!!

Frei Lourenço entra na câmara funesta e depara-se com Romeu debruçado sobre Julieta, como se chorasse...

— Oh, meu filho... que bom que...

O religioso engole as palavras; Romeu parecia imóvel demais para alguém que estivesse em prantos.

— Oh, não! Romeu fale comigo! — o frade se desespera.

Frei Lourenço tenta reanimá-lo, mas em vão.

— Está morto!!!! Jesus, Maria e José! Julieta irá acordar a qualquer instante...

continua...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato V: "Sepultados no Amor - parte1"


Já era noite, quando duas figuras misteriosas atravessam os portões do cemitério.
— Dá-me a tocha, rapaz, e fica à parte. Não, apaga-a; não quero que me vejam. Aguardai-me abaixo do cipestre e fica atento. Assim, se notares a presença de alguém chegando, sem que o perceba, deves assobiar-me.
— Senhor Páris, por que estás fazendo isso? Não me agrada ficar aqui fora sozinho... — fala o criado temeroso.
— Oras, covarde! Deixai de lamúrias, dê-me as flores e faze o que te disse!
O criado sai a resmungar.
— Sinto um pouco de medo, por me ver no cemitério, mas que seja! Hunf!
Páris se aproxima da porta do mausoléu.
— Minha querida flor, espalharei flores em teu leito. De pedras frias é o dossel, mas à noite, com água, trarei irrigadores ou o pranto amargo de meu fado cruel e prometo-vos, querida Julieta, que flores hão de nascer em tua sepultura...
O pajem à parte ouve passos e assobia.
— Vem gente! Que pé maldito pisa estes caminhos durante a noite, para perturbar-me nos funerais e ritos do amor puro?
Páris se esconde atrás da lápide do túmulo mais próximo, desembainha a espada e fica de tocaia.
— Romeu! Vede o que vai fazer! — criticava-lhe Baltazar.
"Romeu?! Não foi este que matou o primo de Julieta?"— lembra-se Páris.
— Dá-me o ferro e o enxadão e toma esta carta. Logo que amanhecer tens de entregá-la ao meu senhor e pai. Agora, a tocha! Por tua vida, te exorto: embora vejas e ouças seja o que for, fica à parte. Se ora desço a este leito de morte, em parte é apenas para o rosto ainda ver de minha esposa Julieta... — mente Romeu para tranqüilizar o criado. —Logo sairei...
"Esposa?! — espanta-se Páris. — Mas o que este infame está dizendo?"
— Mas se acaso... — continua Romeu. — só por curiosidade retornares para espiar o que pretendo fazer: Pelo Céu o juro! Quebrar-te-ei os ossos! — ameaça ele. — Meus intuitos a esta hora são selvagens, mais violentos e inexoráveis ainda do que o tigre faminto e o mar revolto!
Baltazar engole em seco.
— Vou-me embora, senhor, sem vos atrapalhar em nada.
Romeu sorri para o criado e pega o restante de dinheiro que ainda tinha.
— Assim, me provarás tua amizade. Toma isto para ti; vive e prospera. E agora, bom amigo, passa bem.
Baltazar não conseguiu entender aquela atitude e queria recusar o dinheiro, mas Romeu insistiu e ele fez de conta que aceitou a oferta. Baltazar afastou-se.
— Mas apesar de tudo, vou esconder-me por aqui mesmo. Não confio nele e temo o seu olhar.
— Matriz da morte... — fala Romeu ao abrir o túmulo e suspira pesaroso. — Detestável maxila, assim te forço os maxilares podres e te obrigo a aceitar mais alimento.
Romeu entra no mausoléu e nem percebera que não estava só. Páris seguiu atrás dele.
"Este é o Montecchio altivo, que banido foi, por ter morto o primo de Julieta, por cuja dor a morrer veio aquela criatura incomparável..."—pensava Páris indignado enquanto o seguia. — "Vou prendê-lo..."
Romeu chegou à câmara dos cadáveres depois de descer uma longa escada. Estreitou os olhos pela escuridão e tentava encontrar o corpo de Julieta. Ao levantar um pouco a tocha, viu que dois cadáveres estavam ainda com as mortalhas novas e limpas; logo, Romeu reconhecera que um deles deveria ser Teobaldo e o outro, provavelmente seria Julieta. Quando ele ia dar o primeiro passo na direção deles, Páris o surpreendeu.
—Interrompe teu maldito trabalho, vil Montecchio! Estás preso, banido desprezível! Obedece e me segue; morrer deves!
Romeu assusta-se e vira-se, mas passado o susto, tenta argumentar com o homem que o interpelava.
—Devo morrer é fato, foi por isso que vim. Mancebo generoso, tentar não queiras um desesperado. Foge daqui e deixa-me; reflete nestes mortos e que eles te amedrontem. Suplico-te, senhor, não me faças arcar com o peso de mais um pecado, pois aqui vim contra mim próprio armado...
—Importância não dou ao teu pedido — Páris empunha a espada. — e prendo-te por seres criminoso!
— Queres me provocar? Então defenda-te!
Romeu saca sua espada e bate-se com Páris, matando-o em curto espaço de tempo. Páris cai encharcado de sangue e só teve tempo de proferir algumas maldições antes de morrer. Romeu aproximou a tocha para ver a quem tinha ferido.
— Conde Páris?! Deus do Céu! Não era com ele que Julieta iria casar-se? Oh, pobre mortal, que tanto quanto eu, o nome foi inscrito no livro do infortúnio!
Romeu sentiu pena do homem, não tinha a intenção de matar mais ninguém, só queria levantar a mão contra ele próprio, mas infelizmente, disposto a tudo como estava, ele não teve outra escolha. Ou matava, ou seria preso e o seu intuito estaria ameaçado.
Redimido pelos próprios pensamentos, seguiu em frente.
O servo de Páris, preocupado, seguiu o amo e vira toda a cena. Romeu não percebera-lhe a presença e ele, muito assustado com o que testemunhara, foi procurar socorro.
Continua...

domingo, 27 de setembro de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato V: "Pacto Mortal - parte4"



O cavalo levanta a poeira da estrada, assusta um rebanho de ovelhas que por ali pastoreavam. Quantos quilômetros ainda restavam? Cinco, dez? Baltazar não sabia dizer, só o que conseguia pensar era como dar a notícia a Romeu e no estrago que aquela fúnebre nova faria ao seu coração. Desde que o vira pela última vez, quando partira para Mântua, Romeu estava cheio de planos e com novas esperanças. A tristeza da véspera, após a derradeira luta com Teobaldo, havia se dissipado após receber o perdão de Julieta e ele conseguira se acalmar.
“Pobre amo!” — era só o que Baltazar conseguia pensar.
Enquanto isso, onde morava o irmão de Frei Lourenço, Romeu ocupava o quarto de hóspedes nos fundos da casa.
Estevão o recebera muito bem, como um pai receberia seu próprio filho. Romeu não tinha do que reclamar; estava seguro, tinha onde repousar e onde alimentar-se. A única coisa que o incomodava era o ócio de esperar para voltar à sua cidade. “Deus permita que o Príncipe Escalo logo tenha compaixão de mim e permita o meu regresso. Frei Lourenço prometeu-me que intercederia por mim, alegando ao príncipe que levasse em consideração que eu era arrimo de família, e que meus pais, já de idade avançada, precisavam de mim. Espero que ele logo considere o meu caso e me permita voltar à Verona...” — pedia Romeu em suas orações.
O dia de Romeu resumia-se a sentar-se em frente à porta, aguardando notícias.
“Os sonhos me dizem que está iminente alguma alegre nova...” — pensava esperançoso. — “Sonhei que meu amor havia chegado e me encontrara morto, mas com beijos, tal vida me insuflava, que eu revivia e Imperador me tornava...”
Assim, com risonhas imagens, um espírito desconhecido o erguia do chão duro.
Romeu houve um cavalo relinchar e despertando do devaneio, como se desperta de um sonho, reconhece Baltazar.
— Baltazar!!! Meu amigo! Notícias de Verona? Frei Lourenço mandou carta? — dizia-lhe Romeu, bombardeando-lhe de perguntas. — Meus pais estão bem? E Julieta? Minha Julieta, como a deixaste? Nada irá mal, se bem ela estiver...
— Em sua casa todos estão bem, quanto à Julieta... — ele faz uma pausa e respira fundo. — Creio que ela está bem, nada está mal. Talvez ela esteja melhor do que nós, que ainda vivemos a penar por este mundo.
Romeu não compreendera. Baltazar não estava dizendo coisa com coisa, as palavras não faziam sentido. O fato é que Baltazar não sabia como começar...
— Como assim? Ou ela está bem ou não está! Que quereis dizer-me com palavras sem nexo e tão confusas?
— Ela... — Baltazar não conseguiu mais conter as lágrimas. — Seu corpo em breve estará dormindo no sepulcro dos Capuletos e a imortal essência, vive agora entre os anjos.
— Q-QUÊ?! Ficaste louco?
— Antes fosse, meu senhor. Mas é a verdade...
Romeu perde as cores.
— O-O que dizeis?! Isto é um absurdo!!!! — Romeu revolta-se. — Não é verdade! Por favor, Baltazar! Diga que está mentindo!!! — fala às lágrimas.
— Eu jamais mentiria para vós em um assunto tão sério desses! Não se fala em outra coisa na cidade e ainda estão dizendo, pior! Corre em toda Verona que ela se matou, para não casar-se com Páris!
— Páris?!
— Sim, os pais queriam forçá-la a casar-se...
— Basta Baltazar! Chega! Não quero ouvir mais nada! Agora tudo faz sentido... Oh, Julieta, por quê?
Romeu era só amarguras e suas lágrimas, caem copiosas sobre o seu peito partido. Baltazar queria acalmá-lo, mas nada do que dissesse o teria consolado. Em questão de dois dias, seus sonhos desmoronaram.
— Perdoe-me, senhor, por trazer-vos tais notícias, mas deste-me esta incumbência...
— Está tudo acabado... Vai buscar-me papel e tinta com Dom Estevão, preciso escrever...
— O que vai fazer?
— Vou voltar.
— Mas não podeis, senhor! Serias preso e morto...
— Nada mais importa!
— Senhor revesti-vos de paciência, vos peço!
Romeu empurrou-o revoltado.
— Isso é uma ordem! E depois que me trouxeres o que pedi, saia e alugue-me um cavalo!
— Tendes pálidas as feições e desvairadas, pressagiando desgraça!
— Enganai-vos! Nunca estive mais lúcido em toda a minha vida!
— Mas senhor...
Romeu aponta-lhe o dedo ameaçador...
— Ouça bem! Nem as estrelas, nem o firmamento e nem mesmo o próprio Deus me impedirá de vê-la a última vez, então, nem mesmo você!
Romeu agarra Baltazar, entrega-lhe umas moedas e força-o a tomar o rumo da casa de Estevão.
— Traga-me papel e tinta e em seguida, saia para providenciar-me o cavalo que pedi, enquanto isso, resolverei outras coisas por aqui. Quero voltar à Verona ainda hoje e chegarei lá à noite.
Muito a contragosto, Baltazar faz o que o amo lhe pede.
“Sei que existe um boticário aqui perto...”— recorda-se Romeu.
Depois que Romeu escreveu a carta, aproveitou-se da ausência do servo, enquanto este foi cumprir sua segunda ordem dada e saiu. Não demorou muito, ele estava diante da porta do Boticário que vivia nas redondezas.
“Bem, Julieta... deitar-me-ei ao teu lado ainda esta noite. Procuremos os meios...” — pensa o jovem batendo à porta do recinto, que estava fechada por ser feriado.
— Boticário! — chama ele.
“Está proibido o comércio de venenos em Mântua, mas vivendo este sujeito, na grande miséria em que vive, acabará por vender-me um frasco por uma boa oferta...” — idealizara Romeu e chamou-o outra vez.
O homem por fim atendeu-o, após tanta insistência. Logo surgiu à porta um velho de avançada idade, o rosto esquálido, bem maltrapilho, cujo corpo havia sido ruído até os ossos pela miséria.
— Quem me chama com tanta força?
— Bons dias amigo. Vejo que és pobre; então toma estes quarenta ducados, mas arranja-me uma dracma de veneno, mas droga tão violenta que tão veloz se espalhe pelas veias e que a pessoa, cansada desta vida, bebendo-a, caia morta.
O homem olhou espantado para o montante, era muito dinheiro. Nem com um ano de vendas, chegaria a juntar tudo aquilo.
— Possuo esse veneno perigoso; porém as leis de Mântua, morte certa cominam, para quantos o venderem...
— Esse mundo é tão cheio de misérias, e a morte ainda receias? — comenta Romeu amargurado. — Tens a fome nas faces, as angústias e o infortúnio dos pesares. Em todo o mundo não há uma lei para deixar-te rico. Não sejas receoso, então; passa por cima da lei e toma isso. Nosso trato jamais será revelado...
O velho abriu um sorriso podre e enviesado, ao mesmo tempo que um brilho de ganância lampejou em seus olhos.
— Minha pobreza aceita o que me dás, mas não a vontade.
— Não estou pagando a sua vontade, mas a sua pobreza.
— Muito bem... entre.
O homem foi até um armário do seu comércio e retirou um frasco escondido, onde haviam outros iguais.
— Tome. Ponde isto em qualquer líquido que tomando-o, embora a resistência possuirdes de vinte homens, caireis de pronto morto.
— Obrigado, senhor — agradece Romeu ao pegar o frasco que o homem lhe oferecia. — Com o dinheiro pago, compre alimentos e engorda um pouco mais. — brinca ele saindo logo em seguida.

Em Verona, Julieta já estava sepultada e a família carpindo a tristeza. Ao cair da tarde, Frei João regressou de Mântua e procurava por Frei Lourenço desesperado.
— Santo irmão franciscano!!! Olá irmão Lourenço!!!
Frei Lourenço interrompeu suas orações e foi até ele.
— Ó tu, que vens de Mântua! Sê bem-vindo irmão João! Romeu que disse?
— Como não conhecia bem a cidade, fui procurar um frade de nossa ordem que conhece as ruas de Mântua e que visita os doentes de lá, para que fosse comigo, mas os guardas da cidade, pensando que tivéssemos saído de uma casa onde a infecciosa peste domina, nos obrigaram a entrar na casa e as portas logo fecharam, não deixando que saíssemos, com isso, minha pressa de ir ter com Romeu, foi adiada.
— E quem levou a carta para Romeu?
— Não pude remetê-la, ei-la aqui outra vez. Tentei achar um portador para levá-la, mas tanto medo têm as pessoas da infecção...
— Quanta falta de sorte, meu Deus! — preocupa-se Lourenço. — Por São Francisco, essa carta não é sem importância, mas de peso e conteúdo muito grave. O atraso pode ter conseqüências muito sérias. Frei João, vai bem depressa buscar algo que me sirva de alavanca, um pé-de-cabra; o aguardarei na cela.
—Pois não, irmão.
O frade sai, deixando Frei Lourenço a sós com seus pensamentos.
— Agora tenho de ir sozinho ao túmulo. Dentro de três horas, vai a bela Julieta despertar e vai maldizer-me porque Romeu ficou sem ter notícias dela. Mas para Mântua escreverei de novo e a deixarei escondida em minha cela, até que possa Romeu chegar aqui.
Continua...

sábado, 29 de agosto de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato V: "Pacto Mortal - parte 3"


Logo a notícia da morte de Julieta correu toda a cidade, chegando aos ouvidos de Frei Lourenço...
— Perfeito Julieta! Agora seguirei o plano...
...E também, aos ouvidos de uma criada da casa montecchia, que fazia a feira na praça do mercado.
— Vocês não vão acreditar!!!!! Valha-me Deus! Tão moça! Pobre menina, a Julieta!
— O que tem a Julieta? — pergunta a mãe de Romeu curiosa.
— Morreu! Foi encontrada morta na cama esta manhã! — fala a criada
—Deus meu! — espantou-se o pai de Romeu. — Não era ela que iria casar-se hoje e que, por tal motivo, o orgulhoso Capuleto espalhava a nova, já que a filha iria desposar o nobre conde, parente do Príncipe?
— Sim! Sim! Mas corre pela cidade, espantem-se vós, que ela se matou para não casar-se com o tal do Conde Páris.
— Como?! Um tão alto partido como este! Qual moça não gostaria de casar-se com ele? — Chiara Montecchio não conseguia compreender.
Baltazar passava na hora e ouviu tudo.
— O quê?! Essa não! Quando o meu senhor Romeu souber... e ele tem que saber! Partirei à Mântua para avisá-lo...
E Baltazar não perdeu tempo, selou seu cavalo e partiu a todo galope.
Na cela de Frei Lourenço, ele acabara de escrever a carta e ia entregá-la a Baltazar para que levasse a Romeu, mas quando chegou na casa dos Montecchios não encontrou-o, restou pedir a um irmão de sua Ordem, de nome João, que a levasse, pois Romeu precisava ser avisado do plano.
-->— Vá até a casa de meu irmão Estevão e entregue esta carta ao jovem Romeu.
— Sim, pode deixar meu irmão...
João pegou seu burrico e saiu do convento.
Frei Lourenço, então, tratou de ir à casa de Capuleto, para consolar a família. Lá chegando, a comoção era geral, muitos ainda não acreditavam na morte da menina. O frade chegou fingindo ainda nada saber.
— E então! A noiva já está pronta? — fala a Capuleto.
— Sim, para ir à igreja, sem que nunca possa de lá voltar — fala Capuleto amargurado. — Oh, filho Páris, a morte, na véspera do dia de tuas núpcias, deitou-se com tua noiva. Morrer quero, para levar à morte o que possuo: vida, bens; tudo é dela.
— Quis tanto ver a face deste dia, para enfim, contemplar este espetáculo? — falava Páris inconformado.
— Dia infeliz, maldito, desgraçado! — praguejava a mãe de Julieta. — A hora mais triste que já viu o tempo em toda a sua peregrinação comprida e laboriosa. Uma só filha, uma só, pobre filha, e tão amada. Para gozo e consolo, um ser apenas nos foi dado e a cruel morte nos apresenta este fardo... arrancada assim da vista, em plena flor da idade!
— Oh, dia triste! Oh, dia triste! Oh, dor! O dia mais escuro e lamentável que eu vi em toda a minha vida! Nunca vi dia de tão densas trevas! —  lamentava-se o pai da morta.
— Morte odiosa, ludibriado por ti, cruel morte! Arruinado de todo! — ainda queixando-se o noivo de Julieta.
— Oh, tempo! Por que motivo vieste agora matar, matar nossa solenidade? Oh, filha mia! Alma querida! Já não vives! Morreste! Ah, minha filha já não vive e, com ela, sepultada vai ser minha alegria! — encerra Capuleto às lágrimas.
— Calma, peço-vos; a cura da desordem, vir não pode da desorientação. Tal como vós, tinha o céu parte nesta bela criança. Agora o céu tem tudo, o que é, por certo, melhor para a donzela. O céu, agora, dará sua parte, oferecendo-lhe a vida eterna. Amais de fato vossa filha que vos desesperais por sabê-la tão bem? Interrompei o pranto; sobre o belo corpo espalhai bastante rosmaninho e, tal como é de praxe, em suas vestes mais vistosas levai-o para a igreja, embora chorar mande a natureza. Consolai-vos senhores e que seja aceita a vontade de Deus...
— Tudo o que havia para o festival usado ora vai ser no funeral — lastima-se o pai.
— Vamos, que todos se preparem para o belo corpo levar à tumba. Porventura o céu vos pune por qualquer maldade; não o irriteis, pois essa é a sua vontade.
Todos obedecem os conselhos do padre e retiram-se para prepararem os funerais.
Continua...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato V: "Pacto Mortal - parte 2"


Julieta, enfim, viu-se sozinha. O coração, acelerando ansioso em seu peito. Pegou o pequeno frasco, meio desajeitada e apertou-o firme entre os dedos.
— pelas veias me passeia um medo frio e lânguido, que quase deixa o calor da vida a abandoná-las, mas precisarei representar, sozinha, meu terrível papel. Vamos, frasquinho amigo! E... se esta droga não fizer efeito? Terei de casar-me amanhã cedo... Não. Onde está o punhal que separei para a ocasião?
Julieta deu um pulo da cama e começou a revirar as gavetas de seu toucador, até reluzir a lâmina convidativa, tentando-a contra a sua própria vida.
— Ei-lo. Sim, isto impedirá as núpcias indesejadas, fica aqui perto.
Julieta pegou o frasco que havia deixado sobre a cama e abriu-o. Ainda por um tempo, hesitou.
—E se for veneno que esse frade com astúcia me deu para matar-me, temendo o opróbrio que podia vir-lhe do casamento, por me haver casado com Romeu antes disso? Não! Oh, Julieta! Como podeis pensar assim de um santo homem como ele? Não. Ele não o faria! Pois como santo ele é tido há muito tempo, por isso, não devo ter tão baixo pensamento. E se... depois de estar na sepultura, eu vier a despertar, sem que Romeu chegue para salvar-me? Oh, que coisa terrível! Não ficarei asfixiada dentro da sepultura, cuja boca imunda não expira ar sadio e, assim, morrendo sufocada sem rever o meu Romeu? Ou se eu viver, não será mui plausível que aquela imagem de negror, podridão e morte, onde há centenas de restos de meus antepassados e onde, assim dizem, determinadas horas da noite espíritos vagueiam, causar-me tamanho pavor, que leve-me à demência, caso desperte antes do tempo?! Aquele cheiro repugnante, os gritos de além túmulo e onde jaz Teobaldo mutilado, envolto em seu lençol de sangue... Ai! Não! Pára! Julieta! Pára! Não é hora para sentir medo! Romeu, meu amado... bebo isto por sua causa!
Julieta pega o frasco e bebe tudo de um só gole. Não demora muito a sentir-se tonta e conforme dissera o frade, começa o calor do corpo a ser substituído pela sensação do frio da morte, caindo desmaiada no leito, deixando o frasco escorregar e partir-se no chão junto à cama.
Na manhã seguinte, os senhores levantaram-se bem cedo e preparavam-se para receber Páris.
— Ama, toma estas chaves e nos traze mais temperos e cheiros.
— Os pasteleiros querem marmelo e tâmara.
Lorenzo Capuleto entra em polvorosa.
— Depressa! Mexam-se! Vamos! O segundo galo já cantou e o sinal de apagar o fogo há muito já foi dado. São cinco horas!
— Ide! Ide embora metediço! O lençol está chamando. Por minha fé! Assim ficarás doente, por haverdes velado a noite toda! — reclama sua esposa.
— Nem um pouquinho, ora essa! Muitas noites já passei acordado por motivos bem menores, sem ter ficado doente!
— É certo, em vossa mocidade, mas agora já não sois tão moço!
Entram uns criados.
— Ei! Ei! Amigo que levais aí dentro?
— Coisas que o cozinheiro reclamou, meu senhor. Não sei bem o que seja.
— Pressa! Pressa! E tu, maroto! Traze lenha seca, Pedro pode indicar onde é o depósito.
— Tenho cabeça para achar a lenha, não vou incomodar para isso o Pedro.
— Raios! Boa resposta! O sem-vergonha tem gênio alegre, há, há ! Dará bom cepo...
— Senhor Capuleto! Senhor Capuleto! — chama Pedro.
— Que é?
— Páris está chegando!
— Por minha fé, já é dia! Ama!!!!
— Que foi?
— Vai acordar Julieta e prepará-la! O noivo chegou! Faça isso logo, enquanto converso com ele. Anda!!!! Mais pressa nisso!
A Ama sobe correndo e abre as cortinas do quarto.
— Senhora! Olá! Julieta é quase certo que ainda esteja a dormir. Eh, ovelhinha! Então, menina? Ei! Acorda!!!
A Ama toca em Julieta e sente o seu corpo totalmente frio. Dando um passo atrás, pisa em alguma coisa no chão e olha. Aproximando a luz da vela, vê um frasco suspeito partido no chão.
Um grito dilacerante corta a casa.
— O que está havendo, por Deus?!!!! Que barulheira é essa?— exclama a mãe de Julieta se assustando.
— Não é a Ama? — pergunta Páris.
Ela desce desesperada e aos prantos.
— Oh, morreu!!!! A minha bambina morreu!!!!
— O quê?! — grita Capuleto apavorado e sobe as escadas, Bettina sobe em seguida, enquanto Páris permanecia estático com a notícia inesperada.
— Está sem vida! Sem vida! Dia desgraçado! — chorava a Ama conduzindo-os ao quarto.
— Mas não pode ser! Ela estava bem ontem, como pode ter acontecido isso? — falava Bettina.
— Ela se matou! Se matou!— exclama Filippa
— O que está dizendo, sua velha mexeriqueira?! — Capuleto fica indignado.
— Pois olhe o chão perto da cama! Há um frasco lá! — soluçava a Ama inconformada.
Eles param e olham para o leito. Julieta não respirava. Estava mesmo morta? Sua mãe se aproxima e toca-lhe a mão, enquanto Capuleto pegava o que restava dos cacos, do vidro de um suposto veneno e, ainda não compreendendo o que se passara, começou a chorar. Bettina constata que, de fato, a filha estava morta e entra em total desespero.
— Oh, que dia! MORREU! MORREU! MORREU! — lastima-se Bettina
— Não! Não é verdade! — Capuleto lança-se sobre o corpo inerte da filha. — Julieta, acorda! ACORDAAAA!!!!!! Oh, minha filha! Minha única filha! Reanima-te e olha para mim, ou deixa-me morrer contigo! Aqui! Socoooorroooo!!!! Chamem alguém!!!! JULIETA!!!!
Páris segurou-o por trás e tentava acalmá-lo.
— Senhor Capuleto! Calma! Oh, Julieta... — pedia-lhe Páris, mas já começando e desesperar-se também.
Ele se ajoelhou aos pés da cama, beijou a mão fria da amada e não segurou mais as lágrimas.
Continua...

domingo, 12 de julho de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato V:"Pacto Mortal-parte 1"


Julieta chega em casa e percebe que todos já estavam envolvidos com os preparativos de quinta-feira e o pai dela, era o mais animado de todos. Nem parecia que tinha acabado de sepultar um sobrinho, a morte de Teobaldo havia caído totalmente no esquecimento. Ele distribuía tarefas entre os criados...
— Convidai as pessoas desta lista. E tu, maroto aí!Vai contratar-me vinte hábeis cozinheiros.
Julieta morde os lábios e aperta o pequeno frasco guardado em seu regaço. Tentou passar despercebida, mas a mãe surpreendeu-a quando subia para o quarto.
—Ora! Até que enfim! Ela chegou, meu senhor! — avisa ao marido.
— Então, cabeçudinha? Onde estiveste saracoteando?!
— Onde aprendi, realmente, a arrepender-me do pecado grave de desobedecer às vossas ordens — disfarça ela. — Tendo-me, Frei Lourenço, esse santo homem, ordenado que viesse a vós prostrar-me para pedir-vos perdão. De hoje em diante, serás meu guia em tudo.
— Oh, abençoado frade! Mama mia! Enfim, ele colocou um pouco de juízo em vossa cabecinha. Ei! Aqui Pedro! Ide chamar o Conde; contai-lhe isso. Será firmado o enlace para quinta-feira!
— Não é necessário meu pai! Vi o Conde na cela de Frei Lourenço, tendo-lhe dado tudo o que é possível conceder dentro da área da modéstia, comuniquei-lhe o fato e já estamos acertados.
—Isso me alegra muito! Assim vai tudo bem! Deus louvado! Esse frade reverendo, toda a cidade o tem em grande estima.
— Vamos ama. Quero descansar um pouco. Posso meu pai?
— Mas claro! Descanse para que quinta esteja bela, como uma manhã de primavera.
Filippa sorriu e concordou. As duas subiram, enquanto os pais continuavam discutindo o patético acontecimento.
— Tudo sairá a contento, mulher, deixa estar. Ah, o coração por demais leve sinto, desde que esta menina criou juízo!
Aos poucos, as palavras foram se tornando sussurros distantes, até Julieta entrar em seu quarto. Aproveitando uma distração da Ama, escondeu muito bem o frasco.
— Oh, ovelhinha! Que bom que aceitaste bem! Valeu a pena esperar a tua confissão! Serás feliz com este segundo esposo! Rezei muito por isto!
—Ama, me ajude a separar as roupas que levarei comigo — desconversa ela.
—Ah, sim! Sim! Agora mesmo!
A ama abriu o armário e separou várias peças e vestidos. Alegre, ajudava-a a arrumar seus pertences, para a nova vida ao lado do Conde Páris. A Ama não parava de tagarelar, um minuto sequer. Julieta já estava cansada com aquela ladainha toda.
Enfim chegou a véspera do casamento e Julieta e sua Ama, providenciaram o belo vestido.
— Quero o vestido mais belo e as jóias mais preciosas... — comentava com a Ama. —“ Não para Páris...” — pensa a jovem. — “mas para o meu Romeu... Quero estar linda, quando partirmos à Mântua...”
Filippa mostrou-lhe vários vestidos que havia separado, cada um mais belo que o outro, até Julieta decidir-se por aquele que lhe pareceu o mais soberbo. Um vestido carmesim, ricamente bordado à mão.
No salão principal, Bettina não conseguia esconder sua preocupação.
— Estamos atrasados! Vão faltar provisões e é quase noite!
— Oh, diabos! Vou mexer-me e tudo será feito! Vá ajudar Julieta nos enfeites e deixe-me só; hoje, se preciso, nem vou deitar-me.
No quarto, a Ama de Julieta elogiava-lhe pelo bom gosto.
— Oh, minha bambina! Ficarás linda e vede, vede! Com esta mantilha, estarás ainda mais bela!
Julieta não sabia, ainda, como convencer sua Ama a deixá-la só naquela noite. Porém, o sucesso do plano de Frei Lourenço dependia disso.
— Sim, estas são as peças mais bonitas. Mas gentil Ama, deixa-me esta noite. Desejo ficar só, pois necessito de rezar muito, para que consiga fazer sorrir o Céu para mim, pois bem sabeis; tenho a alma atormentada e cheia de pecados.
— Mas...
A mãe de Julieta bate à porta e entra.
— Ocupada bastante, não? Necessitais de mim?
— Não, senhora. Já escolhemos o que nos pareceu necessário para a cerimônia de amanhã — fala-lhe a filha com doçura. — Só vos peço que levais minha Ama consigo, para que durma em vosso quarto, pois sei que vos achais assoberbada de ocupações para esta festa súbita.
— Sim, de fato, estamos muito atarefados. Ama, venha comigo, precisamos de seus serviços.
— Sim, minha senhora! Julieta, não durma muito tarde e feche bem as janelas! — recomendou-lhe a Ama.
— Eu ficarei bem, não se preocupe, Ama.
Julieta fica sozinha finalmente, só que ao mesmo tempo, além da alegria de ter uma chance de escapar daquilo tudo, invade-lhe uma imensa tristeza. Era a última vez que estivera com elas.
— Adeus minha mãe e minha Ama. Deus sabe quando nos veremos outra vez... — murmura ela.
continua...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato IV:"A resolução de Capuleto-parte 4"

FINALMENTE
foto: estátua de Julieta no jardim dos Capuletos. Diz a lenda que essa estátua de Julieta foi esculpida, por ordem do pai de Romeu, para enfeitar o túmulo e perpetuar a memória dos dois amantes infelizes.


Julieta não dormiu nenhum minuto naquela noite, matutando sobre o que faria para impedir tal casamento, embora procurasse fingir que dormia, para não acordar sua ama.
Na manhã seguinte, saiu com ela para falar com Frei Lourenço. Quando lá chegou, encontrou o conde a conversar com o religioso, provavelmente, já marcando a cerimônia. O frade estava pálido e fora pego de surpresa.
— Quinta–feira, senhor? O prazo é curto.
— Foi o senhor Capuleto que assim quis.
— Mas disseste que não sabeis nada ainda do que a donzela sobre isso resolveu. Esse caminho não o considero certo; não me agrada.
— Ela chora sem pausa a morte de Teobaldo. Por isso pouco falamos de amor. Vênus não sorri numa casa de lágrimas. Agora, senhor, ficai sabendo que o pai dela considera nocivo ela entregar-se desse modo à tristeza... Ah! Julieta! — exclama Páris ao vê-la e cumprimenta-a apaixonado.
Julieta chegara ofegante e ao ver Páris, sentiu o sangue ferver de ódio.
— Feliz encontro, minha esposa e dona!
—Assim será, senhor, quando esposa eu for.
— Será na quinta próxima.
— O que tiver de ser, será.
— Aqui vieste para vos confessar com este monge? — pergunta curioso.
— Dar-vos uma resposta, seria confessar-me convosco — retruca-lhe friamente e amargamente incomodada.
— Pobre alma! O rosto as lágrimas te ofendem! — disfarça ele.
— É vitória pequena para as lágrimas, pois antes já era feio.
— Mais o ofendeste agora, assim falando...
— Calúnia não foi, só disse a verdade.
— Teu rosto é meu; com isso o caluniaste.
Páris estende a mão para tocar-lhe a face, mas Julieta esquiva-se.
— Padre, tens tempo para confessar-me?
— Sim, minha filha! Senhor será preciso que nos deixeis sozinhos. E vós também ama.
— Deus não queira que eu possa perturbar a devoção! Julieta, quinta-feira bem cedinho, irei despertá-la.
Páris beija-a na testa e Julieta entra correndo na cela de Frei Lourenço. Filippa foi sentar-se em um dos bancos para rezar, enquanto Julieta se confessava. Na cela de Frei Lourenço, Julieta desabou e começou a chorar.
— Oh, Julieta! —fala o religioso de forma piedosa. —Já soube do teu infortúnio! Que desgraça!
— Oh, frei! — soluçava ela aos pés do frade. — Não há esperança, nem remédio e não há socorro algum que possa adiar isso!
— Ele ultrapassa de muito meu espírito e surpreso também estou.
— Não me fales, padre! Porém, se algum meio não disseres de evitá-lo; se em toda a tua ciência não achares nenhum recurso! Ao menos chamai sábia a minha decisão, pois uma adaga me ensejará remédio pronto!
— Oh não, Julieta! Tenha calma! Não tome nenhuma atitude precipitada! Pára filha!
— O meu coração e o de Romeu, unidos foram por Deus, por intermédio de vossas santas mãos. Por tudo isso, com tua experiência, dá-me um conselho!
Frei Lourenço pensou, pensou e dirigiu-se à sua mesa de experimentos, de onde tirou, de um cesto de ervas, uma pequenina flor.
— Vislumbro uma esperança, mas a tal ponto desesperadora, como é desesperado o que queremos impedir que aconteça. Se energia tens suficiente para suicidar-te, faremos algo que suicídio lembre para afastar este opróbrio. Se ousares isto, arranjarei o meio.
— Sim! Mandai que eu me jogue de uma torre! Mandai-me entrar num túmulo recente para esconder-me! Sem a menor vacilação, sem medo, tudo farei, contanto que prossiga como esposa sem mancha de quem amo!
— Só um instantinho.
Frei Lourenço pegou aquela flor, triturou-a, misturou a pasta com outros líquidos estranhos, coou e virou num frasco pequeno. Enquanto fazia isso, ia passando certas coordenadas.
— Escuta, então: vai pra casa e mostra-te alegre e dize que disposta te achas a desposar o conde...
— Oh, não frei...
— Calma! quarta-feira é amanhã, então, à noite, deita-te cedo, antes que a ama suba ao quarto e toma este frasco — o frade estende-lhe o elixir. — Beba-o todo e assim que tomares a última gota, logo há de correr-te pelas veias humor frio, de efeito entorpecente, diminuindo as batidas de seu pulso, até parecer parado de todo e teu corpo assumirá uma aparência de morte. Calor nenhum e nem hálito sua vida poderão atestar. Vinte e quatro horas permanecerás nesta aparência de semi-morte, para acordar deste doce sonho e vossa família, julgando-vos morta, a cobrirão com vossas mais ricas vestes e irão sepultar-vos. Nesse meio, Romeu saberá por intermédio de minha carta, sobre o nosso plano e virá para cá. Aguardaremos eu e ele, que despertes, conduzindo-te Romeu, na mesma noite para Mântua.
— Oh, frei!!!! Frei! Não acredito! Romeu virá buscar-me!!! Oh, Dê-me! Dê-me, e verás se não tenho coragem! — grita animada.
— Toma. Esconda-o bem e parti logo. Conservai-vos nesta resolução, filha, tudo dará certo, acredite! Vou mandar prestes à Mântua, um portador com uma carta de minha parte para teu marido.
— TRIUNFE O AMOR!!!!! — exclama ela, segurando firme o frasco. — Eis tudo resolvido! Adeus, meu caro padre!
Julieta despede-se feliz e sai.
— Deus vos abençoe, querida — suspira ele.
— Nossa! Como demoraste?! — comenta a ama irritada. — Quase rezei um rosário! Tinha tanto pecado assim?
— Vamos logo, estou com pressa — fala Julieta não entrando em detalhes.


continua...