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Pelo mundo

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Pigmalião e Galatéia capítulo II

Ele sai. Pigmalião, numa atitude de revolta, joga seu cinzel contra a porta. Sentou-se em seguida e ainda muito transtornado, tentava em vão se acalmar. Depois, dirigiu-se à estátua.
— Talvez não tenhas vida, minha bela, mas pelo menos, nunca poderás trair-me. Ficarás comigo para sempre. Oh, Afrodite! Piedade de minha triste solidão... — desabafou ele, tornando a chorar.
Decidiu então, deitar a mulher no leito e cobriu-a, como se fosse para dormir um pouco. Apaixonado, beijou-lhe os lábios e disse-lhe que iria ao Templo de Afrodite.
— Voltarei em breve. Não se preocupe.
Orestes, por demais preocupado, espalhou entre seus amigos em comum, que Pigmalião, coitado, estava louco.
— Nossa! Ele precisa de um médico! — disse um deles.
— Algum de vós conheceis um?
— Sim, eu conheço um — falou um outro.
— Leve-me até ele então, por favor.
Nesse interím, Pigmalião já se encontrava no Templo. Queimou o incenso e prostrou-se em atitude de súplica, desabafando com sua deusa, às lágrimas.
— Oh, grande Afrodite! Deusa da beleza e do amor! Sede-me propícia! Creio que de fato estou louco, porque estou sofrendo de amores pela mulher a qual as minhas mãos deram forma. Nunca criei escultura tão bela! Oh, deusa! Sinto-me tão só... Apenas sei fingir que comigo está tudo bem, porém, por dentro, a amargura oprime o meu coração. Bela deusa, por que aquelas mulheres vis sempre me fizeram sofrer? Por que não fui digno de encontrar o amor e a felicidade? Só posso vos ter ofendido no meu passado. Se este for o motivo, peço-vos perdão. Perdoe-me, minha deusa, e tenha misericórdia deste pobre sofredor...
O fogo do Templo crepitou e um vento forte, entrou pelo antro, e a seguir, Pigmalião vislumbrou, admirado, a figura imponente e bela de Afrodite nas chamas ardentes. Ele perdeu a fala e quase desfaleceu com o susto.
Para acalmá-lo, ela lhe falou com doçura.
— Não temais, amado devoto meu! Jamais me ofendestes, pelo contrário, sempre fostes para mim motivo de orgulho por terdes o dom de criar a beleza com vossas mãos. E os deuses, meus irmãos e eu, não somos indiferentes à vossa dor.
Ele caiu com o rosto por terra novamente e muito grato disse-lhe.
— Alento deste-me ao coração, poderosa e bondosa Afrodite, por dizer-me tais palavras! Feliz sinto-me, por saber que jamais vos ofendi. Sou-vos grato, minha deusa e protetora...
— E porque sou vossa protetora, vim por ordem de Zeus, conceder-vos um pedido. Podeis pedir o que melhor vos aprouver e hei de atender-vos.
— Oh, minha senhora... Meu coração palpita ainda mais! Oh, deuses, obrigado!
— Peças Pigmalião: Qual o teu maior desejo?
Ele ia pedir para que sua escultura criasse vida, mas achou que seria abusar demais da boa vontade dos deuses. Nisso, ele refletiu, refletiu... e por fim, acanhado, disse:
— Peço humildemente, minha senhora, que eu encontre uma mulher, semelhante à minha Virgem de Marfim.
— Pedido aceito — disse a deusa. — Voltes para casa.
Pigmalião despediu-se da deusa e o fogo, apagou-se junto com a imagem dela. O Templo ficou às escuras e lá fora, já estava anoitecendo.
Ainda sem muito entender, porque havia recebido tamanha graça, voltou à sua casa. Pelo caminho, vinha pensando: “Porque não pedi que minha Virgem de Marfim criasse vida? E se realmente eu encontrar tal mulher? Ela também não irá trair-me como as outras?”
Ele chegou cansado e deitou-se na cama; ao lado, a escultura permanecia imóvel e silenciosa, ou pelo menos, imaginara ele. Foi quando Pigmalião, após acalmar-se, percebera uma outra respiração no quarto que não era a dele.
“Quem está aqui? — assusta-se. — Será que alguém invadiu minha casa durante minha ausência?” — indagara-se.
Preocupado, tocou a estátua como se protegesse a própria esposa e, pra surpresa do homem, seus dedos afundaram no marfim.
— Que isso?!!! — assusta-se a tal ponto, que chega a cair da cama.
Olhou estupefato para a mulher ao lado e reparou que seu peito estava mexendo, como se respirasse serenamente e em agradável sono.
— N-Não pode ser... — gagueja confuso.
Tocou-a outra vez e sentiu que, além da pele macia, sentiu uma sensação agradável e morna. Ao invés do frio do marfim, uma temperatura semelhante à humana. Para certificar-se ainda mais, acendeu uma lâmpada e olhou para a dama, de fato, ela estava respirando.
— Deuses!!! — gritou ele.
Com o seu grito, a mulher abriu os olhos e encarou-o. Pigmalião levantou-se e ainda não acreditando, aproximou-se dela. A dama lhe sorriu de forma radiante; um sorriso como ele nunca havia visto. Desta vez, ela sorria de verdade, não mero fruto de sua doentia e solitária imaginação.
— Mas, você...
Ele tocou-a na face e a Virgem repetiu o gesto. As lágrimas foram inevitáveis...
— Estás viva! És viva!!! De carne e osso como eu!
Pigmalião beijou-a apaixonado e depois do longo beijo, a donzela corou ao contato de seus lábios.
Fortes batidas na porta os assustaram. Era Orestes que chamava-o desesperado do lado de fora.
— Pigmalião!!! Meu amigo! Perdoe-me e deixe-me entrar! Eu só desejo ajudá-lo!
Ele abriu a porta e Orestes estava acompanhado de um desconhecido.
— Esse homem é médico e veio ver-te.
— Mas eu não estou doente!
— Como não?! Achas-te casado com uma estátua!
Nessa hora, a Virgem levantou-se e foi ver o que era.
— Pelos deuses!!!! — berra Orestes assustado. — Como pode?! Senhor, era fato. Meu amigo estava enamorado desta estátua! Não estou entendendo!
— Quem é ela senhor Pigmalião? — perguntou o médico.
— Minha mulher, senhor.
O médico olhou acusador para Orestes.
— Acho que quem está a precisar de cuidados sois vós.
— Mas, senhor... era verdade!!! Eu não sei como isso foi acontecer! Não sei como ela criou vida! — Pigmalião, que fizeste?
— Nada — riu ele.
A moça abraçou Pigmalião e sorria tímida para os dois homens que discutiam.
— Mas era verdade! Juro! — insistia o amigo de Pigmalião.
— Ora! Poupe-me! Fizeste-me vir aqui às pressas, para no fim não ser nada! Tenho mais o que fazer! Pessoas realmente doentes para atender! Felicidades para vós, Pigmalião, e todas as bênçãos dos deuses para vossa mulher, desejo. E muito bela por sinal, parece uma ninfa! Sois um agraciado!
— Grato, senhor — sorriu-lhe Pigmalião.
Orestes seguiu atrás do médico, ainda tentando convencê-lo.
— Cala-te ou quem será internado serás tu!
Pigmalião ouviu o médico ainda uma última vez e fechou a porta rindo e voltando logo em seguida para os braços de sua amada. Uniram-se no amor naquela noite, com as bençãos de Afrodite.
Pigmalião chamou-a de Galatéia, pois esta ninfa, certa vez, enquanto ainda era menino, salvou-lhe a vida. E assim, ambos viveram unidos e inseparáveis para sempre, gozando da plena felicidade conjugal e tiveram muitos filhos. E cada um mais belo do que o outro.

FIM

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Ainda esta semana (assim espero ¬¬'...) a história de Pigmalião

Bem, como deu empate, vou seguir o meu coração. Postarei a história de Pigmalião, dando início a nova fase deste blog. Já estou terminando de escrevê-la.
Obrigado aos que participaram da enquete. Inté amigos e fiquem com Deus no coração.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Hamlet, príncipe da Dinamarca

Apresento-lhes Hamlet, de William Shakespeare. A última "casquinha" das histórias...
Ilustração: Jean Dagnan Bouveret
Fazia um frio sombrio e gélido, pela esplanada do castelo de Elsinor. Francisco estava de sentinela e sentia um calafrio perturbador por todo corpo.

"Será verdade que por aqui está perambulando, sem ainda conhecer o caminho da luz, o espírito sofredor de nosso finado rei? Pela Santa Cruz! Se este espírito realmente existir, creio que, de pavor, morrerei..." — pensava o guarda preocupado.

Uma voz indagante cortou o silêncio.

— Quem está aí?

AI, MEU DEUS!!!!! É ELE!!!! Piedade de minha alma, Senhor! — tremeu o homem deixando cair a lança, mas armando-se o mais depressa possível e apontando a arma ameaçadora, ou pelo menos, julgava que intimidava quem fosse, apesar de sua mão tremer de modo perceptível e inegável.

— Calma homem! Sou eu?

— Eu quem? Responda-me, pare e diga seu nome!

— Por Deus Francisco!— riu o homem.— Não sou a assustadora aparição sou de carne e osso! Viva o Rei!

— A senha! És tu Bernardo?

— Ele mesmo!

— Graças aos Céus! Vindes exatamente na vossa hora!

— Meia noite, Francisco, vai deitar-te.

— Agora mesmo! Não tenho o menor apreço por fantasmas! Muito grato vos sou por me renderdes. Que frio! Chega a doer-me o coração!

— Nem eu, amigo! Mas precisamos descobrir o que está havendo aqui! Foi calma a guarda?

— Não buliu nem rato!

— Então, boa noite. Se vires por aí Marcelo e Horácio, dize-lhes que se apressem; estão ambos escalados comigo.


quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Pigmalião


Como prometido, a "casquinha" de Pigmalião
Ilustração: Jean-Léon Gérôme
Existia em Pafos um escultor solitário que vivia apenas para as suas obras. Isolado agora e com poucos amigos, depois de fazer suas orações no Templo de Afrodite, a quem sempre prestara culto, raramente saía de sua casa a não ser a trabalho. Vez ou outra, seu amigo Orestes ia visitá-lo.

O motivo de sua vida solitária, dava-se ao fato de ter sido traído pelas mulheres que passaram por sua vida e a última, a quem julgava ser seu grande amor, fez-lhe a mesma afronta.

Depois de tamanha decepção, ele perdera a confiança nas mulheres. Seu amigo tentava tirar-lhe daquela vida apenas de trabalho.

— Oh, Pigmalião, meu amigo! Não sei como consegues viver assim, apenas para o teu trabalho e nesta solidão?Precisas de uma companheira!

— Cuido-me muito bem assim, da forma que vivo. Não preciso de mulher alguma para cuidar de mim.

— Pelos deuses! Só por causa da decepção que Eurínome causou-te?! Nem todas são assim!

— Correção, amigo Orestes: todas são assim. Todas sempre me decepcionaram. Me desejavam, apenas, por ser conceituado escultor e para oferecer-lhes uma vida de luxo e regrada. Mas enquanto trabalhava arduamente em minha oficina, levavam para o meu leito, amantes mais jovens e divertiam-se às minhas custas!

—Pena sinto de ti. Pois cada dia que te vejo, estás cada vez mais amargurado! Não permitas que o passado, destrua a tua vida, Pigmalião... Saia mais! Divirta-se!

— Grato por tão solícita preocupação, amigo Orestes. mas estou bem...

— Fique com os deuses, meu amigo. Outro dia virei ver-te!