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Pelo mundo

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Ato V: "Sepultados no Amor"- parte3"


Frei Lourenço, chorando silenciosamente, tira o corpo inerte do jovem e pousa-o no chão, fazendo sobre ele o sinal da cruz. Estava inconformado; gostava muito do rapaz, pois o conhecia desde o batizado. Sabia que era e sempre fora um bom menino e um homem íntegro, talvez o melhor filho da cidade de Verona. E agora, por culpa dele, Frei Lourenço, e de seu plano arriscado, o rapaz perdera a vida. Contudo, como ele poderia imaginar que uma vez sabendo da falsa morte de Julieta, Romeu agiria daquela forma? Se soubesse, nunca teria dado o frasco do remédio à jovem. Mas queria tanto ajudá-los...

— Oh, meu menino... Por quê? Por que fizeste isto? — murmurou o frade.

Frei Lourenço teve que interromper o choro e enxugar as lágrimas, pois Julieta começava a acordar.

— Romeu? — chama ela despertando.

Frei Lourenço adianta-se e pega em suas mãos.

— Oh, meu bom frade! Onde está meu senhor? Sei muito bem onde eu devia estar, onde me encontro, mas não o vejo... Onde está Romeu? — pergunta confusa, ainda sob o efeito da droga.

— Venha Julieta, saí senhora, deste ninho de morte. De contágio e sono contrário à natureza. Uma potência por demais forte para que a vençamos frustrou nossos intentos.

— Como assim? Não compreendo...

Julieta engolira a frase. Pensou que estivesse ainda sonhando, ao imaginar ter visto Romeu caído ao chão do túmulo.

— Romeu?!

O frade perde as cores, tentou tanto poupá-la da visão dantesca da morte do amado, mas não pôde evitar.

— O que ele faz ali? — confunde-se a jovem.

— Oh, céus! Julieta querida venha, teu marido em teu seio se acha morto.

O quê?! Não... — fala ela caindo em si.

— Vem logo, vou levar-te para um convento de piedosas freiras que hão de cuidar de ti... Não perca tempo com perguntas!

Não!!! — Julieta desespera-se ao saber da notícia. — Romeu!

Frei Lourenço tentou arrastá-la, mas a força de um ancião jamais se compararia a de uma ágil e apaixonada jovem. Julieta facilmente desvencilhou-se e jogou-se aos pés de Romeu.

— Julieta, a guarda já deve estar chegando. Páris também está morto e com certeza, não veio aqui sozinho. A essa altura, o príncipe já foi avisado e não me atrevo a esperar mais!

Vai, que eu daqui não sairei jamais! — fala ela aos prantos.

— Menina, por favor...

Ouve-se de fora, uma barulho de muitas vozes e relinchar de cavalos.

— São eles! Ouço bulha! Venha Julieta, vamos nos esconder!

Me larga!!! Me deixe!

— Não posso fazer isso!

— Por favor, Frei Lourenço, só quero um minuto para me despedir... — pede ela. —Antes que os guardas aqui cheguem, estarei ao lado do senhor... — mente a jovem, para convencê-lo a deixá-la.

— Oh, Deus! Está bem! Estarei ao fundo do mausoléu, escondido na escuridão, mas não se demore.

O frade sai.

— Oh, Romeu, por que me deixaste?! Que será de minha vida? Como conseguirei viver, sem teu calor, tuas carícias, tuas palavras doces? Sou nada sem ti! Serei uma sombra a vagar e lamentar-me por toda eternidade!

Julieta toma-lhe as mãos para beijar e percebe algo na mão dele.

— Que vejo aqui? Um frasco na mão de meu senhor? Veneno?! Oh, só pode ser! Veneno foi seu fim prematuro, na verdade...

Ela verifica o frasco e estava totalmente vazio.

— Oh, sovinas! Bebeste tudo, sem que me deixasses uma só gota amiga para alívio! Os lábios... Vou beijar-te os lábios, talvez ainda reste algum vestígio neles, já que é um veneno tão forte... — imagina esperançosa e beija-o. — Teus lábios ainda estão quentes... morreste há pouco, mas nada restou da peçonha em tua boca para dar-me alento e a morte...

Julieta ouve vozes. Alguém caminhava-se para lá.

— Vamos, guia-me, rapaz; qual é o caminho? — fala um guarda.

— Logo à frente está o corpo do meu senhor. Romeu o matou — explica o pajem — Eu vi.

— Oh, Deus meu! Vem vindo gente! Deve ter outra coisa que possa servir-me... um punhal, talvez. Romeu não viria para cá, jurado de morte, sem alguma arma para proteger-se...

No chão, próximo ao corpo, Julieta vê a bolsa de viagem de Romeu e começa tatear dentro. Seus olhos iluminam-se quando toca um objeto frio.

—Sim! Como pensei! Preciso andar depressa... Oh, sê bem-vindo punhal!

— Meu Deus, quanto sangue! — exclama o guarda assustado —Oh, Senhor do Céu! O Príncipe Escalo terá de ser avisado da morte do sobrinho estimado! Pobre Páris!

— O assassino deve estar lá dentro — fala o pajem. — Deve estar saqueando os mortos!

— Duvido! Ele já deve ter fugido!

— Não fugiu; ele não sabe que eu o vi.

Os homens ouvem um grito e se assustam.

Não, Julieta! Não faça isso!!! — gritou Frei Lourenço.

— Julieta? Que diabos é isso?! — espanta-se o guarda, pois sabia-a morta — Ei!!!

O pajem fugiu de medo, deixando o guarda protestando sozinho.

Seu covarde!!! Rato imundo, volte aqui! Diabos, seguirei só...

O guarda apressa-se e depara-se com Frei Lourenço, segurando Julieta, a que pensava estar morta e agora, a sangrar recente. O sangue rubro e quente, correndo-lhe do peito.

Mas o que significa isso? Romeu morto e Julieta ferida?!

— Por Deus, seu guarda! Eu posso explicar... — adianta-se o frade.

O senhor feriu o cadáver? Mas o que pretendia com isto?!

— Não, eu não a feri. Ela se matou.

Mas ela já não estava morta?

— Senhor guarda, é uma longa história...

— Acho bom começar a explicá-la agora, estás preso — fala o guarda.

— Sim, eu sou o maior culpado...

Frei Lourenço ofereceu as mãos sem resistência e o guarda levou-o para fora. O guarda, tão logo saíra do túmulo, deu ordens aos outros da guarda que estavam lá fora.

—Tu, rapaz! Vá chamar o Príncipe e depois, os Capuletos e os Montecchios. Os outros passai revista em todo cemitério, e se encontrarem alguém, prendei-o. Há muitos crimes praticados esta noite, que precisam ser devidamente explicados. Eu tomarei conta do frade, que é o principal suspeito. Vemos o terreno de tantas desventuras; mas o terreno verdadeiro destas desgraças lastimáveis, só podemos ficar sabendo após maior estudo.

Voltam os guardas.

— Senhor! Encontramos outro suspeito! É o criado de Romeu, fomos achá-lo dentro cemitério. — comunica um dos guardas.

— Segurai-o com bem cautela, até que chegue o príncipe. Na busca prossegui vós outros.

— Baltazar! — exclama o frade feliz ao vê-lo, afinal, era uma testemunha em favor dele.

— Frei Lourenço, o que houve?

— Uma desgraça, Baltazar... — o frade começou a chorar.



continua...

Um comentário:

  1. Oi Paula tudo bem contigo?

    Obrigada pelo comentário no Blog

    Bjs e uma ótima quarta feira

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