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Pelo mundo

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "Em busca do verdadeiro amor"- 4


foto: cena do filme Romeu e Julieta de Franco Zefirelli

No jardim da mansão de Capuleto, Julieta já havia recebido algumas amigas e primas para a festa. Sentadas no pátio em círculo, próximas ao gargarejar preguiçoso do chafariz central, teciam as guirlandas que enfeitariam a noite. Era primavera e muitas flores puderam ser usadas, desde rosas a miosótis.
As moças ouviam Julieta contar mais uma de suas estórias de príncipes e princesas, enquanto trabalhavam. Isso ajudava a matar o tempo e controlar a ansiedade para a festa.
— E então, após matar o dragão... — contava ela. — o valente príncipe tomou-a nos braços e levou-a para o seu castelo, onde viveram felizes para sempre.
— Que linda estória, prima Julieta!
— Sem dúvida! Uma bela estória de amor! Acho que nossa prima mais jovem deseja apaixonar-se... — brinca Benedetta.
Julieta sente-se corar e joga um ramo de flores em cima da prima maliciosa. Todas as moças riram com isso.
Não é isso! — fala Julieta encabulada.
— Imagina se não... — insistiu a prima.
E se for? Qual o problema? — fala Lívia, amiga de infância de Julieta. — Já é hora de interessar-se por um jovem.
Lívia, pára! — retruca Julieta voltando a corar.
A ama de Julieta começa a berrar por ela.
JULIETA!!!!! Onde está a menina? JULIIIIIIIEEEEEETAAAAA!!!!!!
— Sua ama a está chamando! — fala Stefana.
No quarto de Julieta, a senhora Capuleto estava nervosa e impaciente.
— Onde ela está, ama? — perguntava ela.
— Por minha virgindade! Desde quando eu tinha 12 anos já a chamei! — exagera ela. — JUUUUULIIIIIEEETAAAAAAAA!!!!!!
Julieta entra em casa correndo e atropelando os que estavam arrumando a festa. Sobe as escadas para o segundo pavimento e vê sua ama Filippa bem agitada.
Menina! Onde estavas?
— No jardim, ama!
— Rápido! Sua mãe deseja falar-vos!
— Minha mãe? — Julieta estranhou; sua mãe nunca foi de lhe dar muita atenção. Era fria como o gelo e elas pouco se falavam.
— Sim, minha ovelhinha! Anda! Se avie!
— Onde ela está?
— No vosso quarto.
Julieta entra e vê sua mãe sentada na penteadeira, tentando ajeitar uma mecha rebelde, que cismara de mostrar-se pelo véu. Estava linda! Já vestida para receber os convidados; um vestido com bordados ricos, o chapéu com véu, típico de uma mulher já casada da época. Em nada aquela mecha que caía, atrapalharia todo o conjunto de beleza, entretanto, sua mãe já parecia irritada com aquilo.
— Senhora, aqui estou — fala Julieta aproximando-se. — Que desejais?
— Ah, que bom! Filha precisamos conversar... é...
Ela olha para Filippa.
— Ama deixa-nos sozinha, pois é assunto particular...
— Sim, senhora.
A ama sai meio contrariada; quando sai, não pôde evitar a curiosidade, enfiou o ouvido na porta. Ouviu que a senhora Capuleto tentava começar a falar, mas empacou por sentir-se tímida e dirigiu-se à porta para pedir que Filippa voltasse. Filippa ouviu-lhe os passos e afastou-se correndo, procurando disfarçar. Bettina Capuleto abre o quarto.
— Ama, por favor! Volta!
A ama sorriu animada e obedeceu, embora não entendendo nada. O fato é que o Senhor Capuleto já havia falado à esposa das intenções do Conde Páris e ordenou-lhe que já preparasse o terreno para umas possíveis bodas. Julieta estava confusa. O que haveria de tão grave para a mãe portar-se daquele modo? Bettina, para justificar-se e pedir-lhe desculpas pela grosseria, sem humilhar-se perante uma criada começa a falar:
— Lembrei-me agora que é preciso que ouças nossa conversa, pois há muito tempo conheces minha filha.
— É certo, posso dizer que idade tem, hora por hora!
— tem 14 anos incompletos — corta a Senhora Capuleto.
— Jogo 14 dos meus dentes fora, embora para minha aflição só tenha 4, em como não fez ainda 14 anos!
— Isso pouco importa... — fala Bettina.
A ama nem deixou a Senhora Capuleto iniciar. Começou a tagarelar e a falar da infância de Julieta.
— No dia 1 de agosto, ela completa 14 anos, ela e Susana, minha filha, que morreu bebê ainda. Eram da mesma idade, bem, Susana está com Deus, mas como ia dizendo: na noite de 1º da agosto ela completa 14 anos. Desde o tremor de terra, que abalou Verona, onze anos se passaram quando ela desmamou e depois, de pé, sozinha, a ovelhinha já cambaleava pela casa e, pela
Santa Cruz! Depois do aniversário, ela caiu e machucou a testa!
Julieta estava segurando o riso, para não rir da cara impaciente da mãe. Ela estava desfigurada. E a ama continuava...
— Meu marido, que Deus o tenha, levantou a menina e disse:
“Isso, Julu! Caia agora de frente, porque mais tarde cairás de costas, quando tiveres mais espírito!” E parando de chorar, na mesma hora, a pirralhinha disse SIM, sem saber do que ele falava — disse a ama soltando uma gargalhada sonora.
Ama! Já chega!!! — repreende-lhe a patroa corando-se. — Bem... retomemos o assunto...
Ah, minha bambina!!!— interrompe a ama de novo. — Foste a criança mais linda que criei! Deus vos conserve em graça!
Julieta corre e abraça sua ama-de-leite. A senhora Capuleto, voltou a apertar as têmporas com força.
— Eu já sei disso! — fala a mulher entre-dentes. — Enfim... — suspira fundo e tenta retomar o assunto.
— Se um dia puder ver-te casada... — falava Filippa acariciando o rosto de Julieta.
Pois foi para falar de casamento que a chamei! — falou logo sua mãe, antes que a tagarela da ama a interrompesse de novo. — Julieta: em que disposição te achas para isso?
A menina se surpreendeu, nunca havia pensado nisso. Até a ama ficou surpresa...
— É uma honra, com a qual jamais sonhei — reconhece de forma tímida e inocente.
— Pois estamos na época de pensar em casamento. Mais jovens do que vós, aqui em Verona, senhoras de respeito já são mães. Para ser breve: o valoroso Páris requesta vosso amor.
Julieta abaixa a cabeça e disfarçadamente, torce o nariz bem feito. “Logo ele?” — pensa ela contrariada. —“Ele é um chato! Só sabe falar de dinheiro, do poder que tem, de lutas, mas nunca de amor...”
Que homem menina! — grita a ama eufórica. — Um homem desses, só feito de encomenda!
— A primavera de Verona não tem mais bela flor! — elogia-lhe também a Senhora Capuleto.
— Sim, uma verdadeira flor! Que traços! Que modos! — concorda sua ama.
“Para mim ele se parece mais com uma erva-daninha...” — pensa Julieta com desdém.
— Que dizeis? — fala sua mãe, interrompendo-lhe o pensamento. — Sois capaz de amar o jovem? Hoje à noite vê-lo-eis em nossa festa. Folheai o livro de seu jovem rosto, que nele encontrareis doces encantos, escritos pela pena de beleza. Enfim, que me dizeis do amor de Páris?
— Vou ver se prendo nele os meus olhares. Mas a vista não chegará além, do que me consentir vossa vontade — fala Julieta sem jeito.
— Ótimo! Ama, arrumai Julieta! Quero-a divina esta noite, para que aos olhos de Páris, não pareça um açoite! — despede-se Bettina saindo.
— Sim, minha senhora! Vem, minha ovelhinha! Vamos escolher o mais belo vestido!
Julieta deu um sorriso torto, sem graça e suspirou amargurada, enquanto para o armário a ama lhe puxara.



continua...

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "Em busca do verdadeiro amor"-3

foto: praça principal de Verona
continuação...
Depois da audiência com o príncipe de Verona, o Senhor Lorenzo Capuleto sai do palácio. Páris, sobrinho do príncipe, fez-lhe a gentileza de acompanhá-lo.
— Tanto eu como Giuseppe Montecchio recebemos igual penalidade. Como velhos, em paz viver não nos será difícil. Os jovens é que me preocupam verdadeiramente — comenta Capuleto.
— Ambos gozais de altíssimo conceito, sendo de lastimar que a tanto tempo vivais em desavença. Mas agora, milorde, que dizeis do meu pedido?
— Conde Páris. Repito o que já vos disse. Minha filha Julieta ainda é uma estrangeira neste mundo, mal o curso notou de 14 anos. Jamais comentara sobre amores. Os folguedos infantis ainda são os seus pendores. Não façamos destas núpcias algum barulho.
— Mães venturosas já o são, muitas outras moças, mais jovens ainda do que ela — insiste o conde.
— As que começam antes do tempo, também cedo morrem. Querido Páris! Todas as minhas proles foram tragadas pela terra; somente essa me resta, herdeira grata do que tenho. Mas falai com Julieta; nisso, minha vontade será só uma parcela. Sendo do gosto dela, no mesmo instante estou disposto a dar alegre o meu consentimento.
Páris sorri satisfeito.
— Darei hoje uma festa — continua Capuleto — na qual convidei pessoas amigas. Vós também, sendo mais um, fazei como ninguém, jus ao convite e se a oportunidade se fizer aparente, corteje minha filha a procure fazê-la contente. Apegando-se a ti, creio que não será difícil convencê-la a casar-se.
— Muito obrigado, Senhor Capuleto! Com certeza, ninguém mais do que eu, nisso irá empenhar-se!
Um criado acompanhava-os em silêncio.
Olá rapaz! Aqui!
— Sim, meu senhor?
— Corre a bela Verona e os nomes desta lista procura. A todos anunciai, que hoje, venham à minha casa, pois estarei esperando! Vamos, caro Páris! Aproveite e passe o dia conosco.
— Será uma honra , milorde — fala ele agradecido.
Ambos se afastaram animados, deixando o pobre criado para trás, aflito, revirando o papel para todos os lados.
— Procurar os donos dos nomes desta lista! Irá ocupar-se o pintor com suas redes, o pescador com seu pincel e a mim, que não sei ler, me incumbem de tal penosa tarefa! — debocha o homem. — Devo procurar gente instruída, para me ajudar com isso...
Vivas! Achei! Pelas roupas, estudo eles têm!
Nesta hora, andando em direção ao homem vinham Romeu e Benvólio. Ele, ainda cabisbaixo e seu primo, tentando animá-lo.
— Olá, senhores? Graças aos céus que encontrei-vos!
— Em que podemos ajudar-vos, senhor? — pergunta-lhe Romeu solícito.
—Oh! Que brio! Que fineza de modos! Ajudai-me, em nome de Deus!
Romeu e o primo se entreolharam curiosos.
— Tenho aqui uma lista, cujo meu patrão confiou-me, mas não sei ler, para meu desalento. Portanto, não poderei cumprir a ordem e com certeza, serei severamente castigado se não fizer o que meu senhor ordenou, pois causarei a ele, tremendo desagrado.
Por Deus! Deixe-me ajudá-lo, então! — exclama Romeu indignado.
Benvólio ri, Romeu abre e lê.
—“ Senhor Martino, sua esposa e filhas; o Conde Anselmo com suas encantadoras irmãs; a senhora viúva de Vitrúvio; Senhor Placêncio e suas amáveis sobrinhas, Mercuccio e seu irmão Valentino...”
Olha! Nosso amigo Mercuccio foi convidado! — comenta Benvólio.
— Ah, claro! Festa sem Mercuccio, não é festa! Ele sempre anima qualquer evento com seu jeito fanfarrão e sua trupe de músicos!
Romeu continua...
— “ meu tio Martino Capuleto, sua esposa e filhos; minha linda sobrinha Rosalina...” —
Como?!
Romeu assusta-se e olha inquisidor para Benvólio.
— Não me disseste há pouco, que ela estava num convento?
— Foi o que ouvi na cidade! É o comentário do momento!
— Queres fazer-me desistir do meu amor, seu traidor?
— Por Deus, primo, injusto sois!
Claro que não! Vai ver, ela ainda não foi! — Benvólio tenta justificar-se.
Ei! Ei! Será que podem continuar, por favor? — fala o criado de Capuleto, reparando que durante alguns minutos, enquanto ambos discutiam, haviam o ignorado completamente.
Romeu tornou a ler, mantendo o cenho cerrado e olhando Benvólio meio de lado; e fez questão de repetir em alto e bom som...
— “MINHA LINDA SOBRINHA ROSALINA, meu irmão Iacopo e sua amável esposa e filhos; Lívia; o senhor Valêncio com seu filho Teobaldo e minha cunhada, Senhora Dominica; Lúcio e a encantadora Helena...” — termina ele.
Benvólio suspirou impaciente.
— Belo conjunto! Onde será isso? — pergunta Romeu curioso, entregando ao criado a lista.
— Na ceia em nossa casa! — fala o criado animado e guardando o papel. — Meu amo Lorenzo Capuleto dará uma grande festa esta noite!
— Não me diga?! — retruca Romeu e olha, imediatamente, para Benvólio.
Ei! O que estás pensando em fazer? — desespera-se o primo de Romeu.
— Senhores, obrigado pela ajuda! — cumprimenta o homem, sacudindo violentamente o braço dos dois rapazes. — Se acaso de casa de Montecchio não o forem, participem da festa conosco! Deus vos abençoe!
O criado sai feliz e cantarolando desafinado. Ele conseguiria cumprir a ordem a bom termo e estava mais relaxado.
— Veja só! O louco nos convidou! — riu-se Benvólio.
— E eu vou! — fala Romeu.
O quê?!!! — assusta-se o primo. — Ficaste louco? É na casa de Capuleto, nosso inimigo!
Romeu começou a andar, deixando-o para trás.
Alto lá, Romeu! O homem disse “se acaso da casa de Montecchio não o forem”...
— Eles não precisam saber.
Queres ir ao encontro da morte, seu insano? Ei! Aonde vais?
— Falar com Mercuccio para pedir que ele me leve.
Mas irão reconhecer-vos!
— Não se eu usar uma máscara, como os companheiros músicos de Mercuccio.
— Eu não vou permitir que faças tal absurdo!
— Não me impeças! Mentiste para mim, para tentar persuadir-me a desistir de Rosalina, o meu amor!
— Por Deus, Romeu! Longe de mim ter tido alguma vez, tal penhor! Eu não menti! De fato, sobre Rosalina, estes comentários ouvi!
— Eu preciso falar com ela, é muito importante para mim! Preciso saber de seus lábios se isto é verdade, para que minha agonia, por esse sentimento não correspondido, chegue ao fim.
— Ora, está bem! Entendo-te! Mas irei contigo!
— Que bom, primo amigo!
— Nessa tradicional festividade, além de Rosalina, desfilarão demais beldades de Verona. Com olhos imparciais compara o rosto dela aos das outras que te mostrar por lá, que sem estorvo, verás teu cisne transformado em corvo! — desafia-lhe Benvólio.
— Se meus olhos devotos falsidade tão grande sustentarem, que em fogueira de minhas lágrimas, eu morra sem piedade. Com tal beleza radiante, nem mesmo o sol brilhará mais do que tão linda amante! — fala Romeu apaixonado.

continua...

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "Em busca do verdadeiro amor"-2

pintura antiga da cidade de Verona
CONTINUAÇÃO...

Quando Romeu chega à cidade, o conflito já havia sido controlado pelo príncipe de Verona, a autoridade máxima. Atentamente, Romeu ouviu-lhe as últimas palavras.
Três lutas civis, nascidas de palavras fúteis, por tua causa, velho Capuleto e por ti, Montecchio, a paz de nossas ruas três vezes perturbaram. Os diletos e pacíficos cidadãos de Verona, nas mãos, lanças antigas brandam por causa do vosso ódio enferrujado! Se de novo vierdes a perturbar nossa cidade, pela quebrada paz dareis as vidas. Por agora, que todos se retirem. Vós, Capuleto, seguireis comigo e vós, Montecchio, à tarde ides à corte da justiça, para conhecimento tomardes do que resolvemos sobre o caso. Já! Sob pena de morte, dispersai-vos!
Romeu empalidecera.
O Senhor Montecchio indaga ao seu sobrinho Benvólio. Queria entender como ocorreu novamente um conflito.
— Quem reavivou esta querela antiga, Benvólio? Dize onde te achavas na hora?
— Muito antes de vir até aqui, já se encontravam engalfinhados vossos servos e os de vosso inimigo.
Ai! Cuidado! — chia Benvólio ao sentir a pressão do lenço da senhora Montecchio, tentando estancar-lhe o sangue do supercílio.
— Precisa estancar isso! Deixai de mesura!
Mesura?! Isso dói, tia Chiara!
— Prossiga... — ordena-lhe o velho Montecchio.
— Tentei apartá-los, mas nesta hora chegou o valente Teobaldo Capuleto e seus comparsas, espada em punho, soprando-me desafios sem conta e investiu contra mim. Fui obrigado a reagir, para não ser morto. Outros, de ambas as famílias, tomaram as dores e houve esta acirrada luta, provocando em nossa Verona, novos dissabores.
— Onde está Romeu? Sabes acaso? Alegra-me não vê-lo neste caso! — pergunta a mãe de Romeu, Dona Chiara Montecchio.
— Não, senhora. Nem sei onde ele se encontra...
— Mais perto do que imaginas, primo! — fala Romeu se aproximando. Semblante carregado e amargurado.
— Filho! Onde estiveste? — pergunta sua mãe.
Por que, meu pai? Por que isso outra vez?
— Não me venhas, Romeu, com sermões de moral. Não fomos responsáveis por este mal. Não começamos desta vez; foram os Capuletos que nos afrontaram primeiro.
— E quantas vezes, vós mesmo não os afrontastes?
— Se maculam a nossa honra, impunes não nos convém deixá-los!
Honra?! Onde está a honra nisto tudo? Chamais estes desatinos frívolos de honra?!
— Romeu, modere as palavras. Não fale assim com vosso pai! — repreende-lhe a mãe.
Não mãe! Não me calai! Não me calarei diante de tanta intemperança! Reparem nos olhos dos cidadãos de Verona! Só vejo ódio e antipatia por nossa casa e pela casa de Capuleto! Chamai isto de honra? Não, senhor Montecchio! Isto não é honra e sim, desonra!
Baixe este tom comigo, rapaz... — ameaça o pai. — Tua passividade, muito mal nos faz! Para defender a honra de nossa família, sempre foste um incapaz!
Como?! — irrita-se o jovem.
— Isso mesmo! Nosso passado provém de uma família poderosa, nobre e guerreira, não destes burgueses emergentes! Tu sim deverias envergonhar-te de, nem ao menos, saber segurar uma espada!
— Giuseppe, por favor, Não fale de Romeu com voz tão amargurada... — pede-lhe a esposa.
— Falo quantas vezes preciso for! Ele é e sempre será uma vergonha para a nossa família. Só sabe escrever poesias e falar de amor.
— Tu nunca me entendeste e jamais me entenderás! — fala Romeu decepcionado. — Eu acho muito mais cômodo, em vez de guerra, falar de amor e paz.
— Um maricas! Isto que sois! — retruca-lhe o senhor Montecchio.
Meu tio! Também não precisa falar deste modo com Romeu!
— Não me defendas, caro Benvólio. É perda de tempo! Muito bem... — Romeu bate as palmas. — cultivastes tanto a guerra e agora, colhemos um belo fruto! A pena de sentença de morte...
Deves estar muito orgulhoso por isso, senhor Montécchio! — fala o filho de forma irônica. — Deves considerar uma boa-sorte...
Seu pai, não aprovou-lhe a atitude e, sem Romeu esperar, mirou-lhe a face e deu-lhe um tapa.
Primo! — assusta-se Benvólio
Giusephe Montecchio! Que absurdo! — contesta a esposa revoltada. — Não deverias ter feito isso! Não aqui, na frente de todos! Romeu, meu filho...
Ser ignóbil!
Pára, Giusephe! — exclama a esposa.
Saia das minhas vistas, pois tão cedo não quero vê-lo! Vamos, minha senhora!
Ela reluta, por fim, obedece-lhe. Seria vergonha ainda maior ser arrastada para casa pelo marido. Enquanto via os pais se afastarem com os outros parentes rindo, Benvólio juntou-se a ele.
— Primo, estás bem?
— Tenho opresso e magoado o coração,
Oh, vergonhosa sina! Ser tratado por parente tão chegado, como um ser que ele tanto abomina! O ódio dá muito trabalho por aqui, como o amor! Não vais rir também como os outros?
— Não, Romeu! Chorar quero!
— Por quê?
— Por ver-lhe opresso o coração. Ainda Rosalina?
— Rosalina... sim. A bela, aquela que tem meu coração cativo!
— Um amor áspero e tirano! — comenta Benvólio. — ainda não soubes?
— Do quê?
— Rosalina fez-se freira. Descobriu que tem vocação religiosa.
— Eu não acredito! — desespera-se Romeu. — Estás mentindo para fazer-me esquecer o meu amor, por ser ela da casa inimiga!
Por Deus, primo Romeu! Claro que não! Entre nós jamais houve segredos e sempre dispus-me a trazer-vos notícias de vossa bela ninfa!
— Não pode ser... Ela não teria coragem de fazer isso!
— Conformai-vos, primo! É a Nosso Senhor que vossa bela ama! — fala-lhe Benvólio.
— Eis um rival bem injusto, pois com Ele nada posso! Mais forte do que eu, foi o escolhido! Creio ver de vez, meu amor perdido. Do amor é sempre assim a transgressão. As dores próprias pesavam-me no peito, mas agora, redobra-lhes o efeito! Então jurou que sempre há de ser casta?
— Jurou. A seta de Cupido não cogita bater nela. Sábia como Diana, a castidade é sua soberana. É o que todos dizem dela. Exaltam-lhe a escolha!
— Oh! É rica em beleza! Mais que bela, e a beleza, morrerá com ela! Adeus primo!
— Mais calma, irei também! Se me deixares, não procedeis bem!


continua...

domingo, 23 de novembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "Em busca do verdadeiro amor"-1

foto: balcão de Julieta-Verona
Adaptação: Paula Dunguel

Vinham caminhando a prosear, pela estradinha florida que, da plantação levava à capela de São Francisco das Chagas, no convento de São Pedro, o sábio franciscano Frei Lourenço e o jovem Romeu, da importante família dos Montecchios.
O religioso, com os conhecimentos adquiridos na ordem de seus irmãos franciscanos, plantara uma pequena horta, onde cultivava flores e ramos raros. Ervas que curavam e que usava para ajudar os pobres e mais necessitados do Senhor.
Há muito estes dois homens eram amigos. Frei Lourenço foi seu catequista, professor e agora, confessor do jovem.
Sem muitos amigos — porque seus parentes e chegados achavam que Romeu era pacífico demais e indiferente ao conflito com os Capuleto — o rapaz apegou-se ao velho frade, com tal presteza filial, que tudo ao bom religioso contava, sem nada ocultar.
— Não creio ainda, bom e santo homem, que com vossos conhecimentos e ervas de tanto valor, tenha por piedade encontrado, entre vossas raras flores, alívio para minha dor... — comentava o rapaz amargurado.
— Sofreis do quê, caro pupilo? Ainda a sofrer de amor? Para isto não há remédio, a menos que encontres outro amor!
— Outra musa ainda não achei e temo jamais encontrar. Que fazer Frei Lourenço, se à Rosalina resolvi amar?
— Tolices, bom rapaz! És jovem ainda e com descobertas a desfrutar! Moças bem faceiras e até mais belas do que ela, passeiam de lá pra cá pelas ruas de Verona e sem ninguém para cortejar! Esqueças esta Capuleto, que o desprezas por tua família e nega-se de ti gostar!
— Falais de tal modo, por ser a jovem minha inimiga — comenta Romeu. — Até pareces meus parentes, que acham que sou louco e por motivo de tantas brigas, entre Montecchios e Capuletos, incutiram que não pode existir o amor na história das famílias. Não esperava santo frade, que tão preconceituoso assim o fosses!
Alto lá! Romeu amigo! Preconceituoso, por graça de Deus, não o sou! Se Rosalina o amasses, minha benção de ti seria, mas a jovem não vos ama, por isso, esquecei-vos de Rosalina!
— E se por ventura a donzela me amasse, terias a coragem de casar-nos? Ou por sermos de famílias inimigas, irias também separar-nos?
— Até parece que me apresentas um desafio? Pois bem, meu caro jovem... — disse o frade sem perder o brio. —Se embora inimigos, tu e ela, enfim se amassem, não hesitaria em casar-vos. Talvez até fosse bom... depois de tantos anos de briga, as lutas terminariam afinal, através dos laços do santo amor conjugal!
— Este sonho também almejo e do fundo de minha alma, este é todo o meu desejo.
Nessa hora, quando chegaram à capela, os dois homens ouviram gritaria na cidade, logo, Romeu percebera que os nomes Montecchio e Capuleto, por muitos eram gritados e amaldiçoados. Outra briga insana desenrolava-se pelas ruas de Verona.
Oh, não! De novo não! — fala Romeu revoltado.
Por São Francisco! Outra briga civil?!
Amaldiçoado sangue! Eles têm que parar!
Romeu corta o jardim da capela, pega o seu cavalo e afoito, se põe a galopar de volta à sua cidade.
Oh, Romeu! Cuidado filho! — grita o frade preocupado.
Mas Romeu já ia longe e não mais ao alcance de sua voz.
— Que Deus o proteja e o faça controlar este vil ódio, que para a bela Verona, tornou-se verdadeiro opróbrio... — queixa-se Frei Lourenço entrando na capelinha.


continua...

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-prólogo


Duas casas, iguais em dignidade-
na formosa Verona vos dirão-
reativaram antiga inimizade,
manchando mãos fraternas,
sangue irmão.
Do fatal seio destes dois rivais
um par nasceu
de amantes desditosos,
que em sua sepultura,
o ódio dos pais
depuseram, na morte venturosos.

Os lances desse amor
fadado à morte
e a obstinação dos pais
sempre exaltados
que teve fim naquela triste sorte
em prosa e versos
vereis representados.
Se emprestardes a tudo
coração atento,
supriremos as faltas
a contento...
continua...