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domingo, 21 de dezembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos) - Segundo Ato: "Juras de amor - parte1"

* fragmento de uma HQ de Romeu e Julieta feita por mim há muito tempo.

Julieta deitou-se no leito e chorava baixinho. A ama Filippa, muito preocupada, foi falar com ela.
— O que foi minha ovelhinha? O que se passa?
Julieta enxuga as lágrimas para disfarçar. Ela havia estado com o homem que sempre sonhara para si. Um homem com coração de poeta, mas por quê? Por que ele tinha que ser filho do inimigo de seu pai? Julieta desejava desabafar, porém, perguntava se sua ama entenderia, por isso achou melhor não arriscar e tenta desconversar de alguma forma.
— Não é nada, ama. Uma indisposição...
— Como nada? Saíste daquele jeito...
— Eu já estou melhor.
A ama olha-a incrédula. Julieta logo percebera que não seria fácil enganá-la, porque sua ama a conhecia muito bem, mais até do que ela própria.
— Quando vier a coragem, eu contarei, pois estou envergonhada pelo que fiz e não quero falar sobre isso.
— Estás bem?
— Estou.
— Bom, isso que importa. Fico mais tranqüila...
— Durma ama querida, deves estar cansada pelo agitado dia — fala a menina com doçura.
— Oh, sim! E como? Já não tenho mais idade para certas coisas!
Filippa não insistiu com suas perguntas, preferiu deixar Julieta com seus pensamentos, pois no fundo ela sabia que uma hora ela iria falar, pois somente com ela, Julieta confessava suas frustrações e problemas, buscando conselhos e acabou por interpretar o fato como um arroubo de juventude. Filippa puxou sua cama de rodas, debaixo da cama de Julieta e arrumou o leito. Dormiu rápido, pois estava muito cansada.
Julieta ainda continuou acordada. Uma inquietude apoderou-se de sua alma e a cada momento que tocava seus lábios, lembrava-se do beijo doce do amado.
“Oh, Deus do Céu! Por que Romeu? Logo ele a quem deveria odiar...
" — indagava-se.
Romeu perguntava-se a mesma coisa e a mesma sensação inquietante, apoderava-se dele.
— O que foi, Romeu? — pergunta-lhe Benvólio, quando viu-o empacar o passo. — Por que paraste, primo?
— Tenho que voltar! — fala aflito. — Como afastar-me, se daqui não pode sair meu coração?
Como?! Ei! Volta!!!
Romeu já ia longe; nem ouviu-lhe o grito. Disparou novamente na direção da casa capuleta. Benvólio, confuso, puxa Mercuccio.
Que foi? Calma!
— Romeu voltou para a casa de Capuleto!
Hein?! — fala Mercuccio tonto.
— Vamos atrás dele!
— E será que vamos acertar o caminho?! — gargalha Mercuccio, debochado. — Vejo duas vias, onde antes só tinha uma!
Não é hora para brincadeiras! Vem!
Calma! Que furor!!! Bons rapazes — diz ele ao grupo. — sigam sem nós...
Vem logo!
Todos do grupo riram, ao vê-los se afastarem. Estavam totalmente ébrios, pois não há nada mais cômico no mundo, do que bêbados que pensam estarem sóbrios, correndo cambaleantes naquele trocar de pernas bem típico. Ainda mais com um segurando o outro, por julgar o parceiro mais bêbado do que ele próprio. Caíram até algumas vezes, até sumirem na curva da viela.
Apesar da dificuldade, conseguiram chegar ao muro da casa de Capuleto e viram Romeu pular pro jardim.
Romeu! Primo Romeu?!
— Ele é prudente, por minha fé! E soube achar a estrada para o leito macio! — comenta Mercuccio malicioso.
Cala-te, língua infame! Em disparada veio até aqui e pulou o muro que dá para o jardim! Faça alguma coisa! Chame-o, pois já o chamei e ele não me responde!
— Vou conjurá-lo! — pigarreia Mercuccio. —
Romeu! Capricho! Paixão! Sujeito louco! Enamorado!
— Não responde! — fala Benvólio aflito. — Chama de novo! Insiste!
Romeu estava oculto pelos galhos da árvore rente ao muro, mas via os amigos nitidamente. Observava-os sem dar um “Ai”.
— Acho que precisará de uma invocação mais forte... — comenta Mercuccio aprumando-se, ou pelo menos, tentando.— Vou fazer-lhe um conjuro mais forte...
Ele tonteia e enche o peito. Romeu queria rir, mas se segurava...
EU TE CONJURO PELOS OLHOS SEM-PAR DE ROSALINA! POR SUA FRONTE! SEUS LÁBIOS ESCARLATES! OS DELICADOS PÉS! AS BELAS PERNAS! AS TREMULANTES COXAS...
PÁRA COM ISSO! — critica-lhe Benvólio, antes que ele falasse algo indevido e obsceno. — Por certo irás magoá-lo!
— Não, isso não o magoa. Minha invocação é bela e honesta! O nome digo de sua amada, para que possa reanimar-se!
Ora qual? Não falais coisa com coisa! Estás bêbado!
E tu? Estás sóbrio por acaso?!
— Vamos embora! Ele ocultou-se entre as ramagens. Seu cego amor diz bem com a escuridão. É canseira inútil procurar, quem não quer ser encontrado...
Os amigos se afastam. Romeu sente-se indignado.
— Só ri das cicatrizes, quem ferida nunca sentiu no corpo...
O galho quebra-se.
Ai não!
Ele tenta se segurar em outro, mas estava tão escorregadio por conta do sereno, que sua mão não teve firmeza. Por sorte, Romeu cai sobre um arbusto que amortece-lhe a queda.
— Ui! Essa doeu!
Romeu levanta-se e começa a avançar. O ambiente era amplo. Ao redor dele, existiam várias árvores e arbustos coloridos, que repousavam vigilantes pelo jardim, como se desejassem ocultar algo de olhos curiosos.
Romeu estava incomodado e temeroso. Seu coração batia forte e a imagem da bela Capuleto, teimava em não sair da sua mente. Ele precisava vê-la, nem que fosse uma última vez.
À medida que se aproximava da casa, ia afastando as plantas, até vislumbrar entre os ramos, o singelo balcão de uma janela. Ao lado da sacada, uma armação de madeira caiada bem alta, servia de apoio à uma trepadeira florida. Uma corbelha de flores, cujos cachos de rosas silvestres caíam, dando uma aparência de castelo de conto-de-fadas. Mas onde estaria a princesa? A armação parecia bem firme, para servir de escada improvisada, na falta de coisa melhor. Além das rosáceas, uma hera abusada misturava-se às ramagens, desde o muro lateral até a janela. Enquanto ele examinava a armação, ouve um barulho vindo de cima; o delicado abrir de uma porta. Assustado, esconde-se entre os arbustos.


continua...

sábado, 20 de dezembro de 2008

Aviso especial: curiosidades natalinas


Querem saber o que significa cada símbolo do Natal? Acesse o meu blog Fazendo Arte com Paula Dunguel.





endereço: http://fapdunguel.blogspot.com


Um Feliz Natal e um próspero Ano Novo, com muita paz e amor nos corações

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "O Baile" - 4

foto: cena do filme de Franco Zefirelli. O 1ºbeijo dos amantes
Durante toda a dança que se seguiu, Romeu acompanhava a jovem Julieta a dançar. Ela, percebendo-se observada, olhou para ele e vendo-lhe os olhos insistentes, acabou lhe sorrindo involuntariamente. Romeu faz-lhe uma sutil reverência, pendendo a cabeça de forma respeitosa. Julieta passou, então, a intrigada, acompanhar o misterioso homem, trocando com ele olhares.
Uma de suas primas percebera e, quando teve uma oportunidade, chamou Julieta para dançar com ela.
— Olha, prima Julieta! Aquele homem não tira os olhos de ti! Será que ele é bonito? — Margarita solta um risinho sugestivo. — Com máscara não dá pra saber!
— Por que será que ele está usando máscara?
— Vai ver ele é tímido. Falta-lhe coragem de fazer juras de amor de rosto limpo. Pra ser franca! Na minha opinião, esses são os melhores! — riu-se Margarita de novo. — São misteriosos e românticos! Ai! Deveis descobrir quem ele é!
— Não sei como, Margarita. Só de pensar em me aproximar dele, sinto vacilar o pé...
— E não deveis fazer isso! Deixai que ele de ti se aproxime! Se de fato estiver enamorado, não se amofine! Pretextos ele há de achar, para até o fim da festa, contigo conseguir falar. Venha! Continuemos a dançar!
Tal como sua prima havia dito, não tardara que ele se acercasse de Julieta e a convidasse para uma dança. Julieta sentiu-se corar por completo e desejou do fundo de seu coração, que também estivesse de máscara; não muito tempo depois, ambos já faziam par e arriscavam os primeiros passos.
Ela mergulhou no fundo daqueles olhos, tentando desvendar-lhe o íntimo de sua alma, mas ela só pôde perceber, que o mascarado tinha os olhos lindos, em tom de mel, e prometiam doçuras inefáveis. Gostaria de provar? Por certo o seu coração juvenil dissera que sim. Confusa, Julieta afasta-se dele, com a desculpa de que estava com sede e precisava beber alguma coisa. Dirige-se à mesa, meio trôpega e toma uma taça nas mãos.
Uma música suave cortou o ar e as mulheres da casa exultaram:
— Giácomo, da animada trupe de músicos de Mercuccio, irá cantar! — falava uma das moças.
— Ouvi dizer que ele tem uma bela voz! — comenta outra.
Todos se acomodaram da maneira mais agradável para ouvi-lo. O dito menestrel, famoso por suas artes, sentou-se no meio do salão e dedilhava uma música de sua autoria, na sua doce lira! Os convivas aproveitaram o momento, para descansarem e se alimentarem.
Julieta ainda se encontrava junto da mesa e enquanto se mantinha absorta, ouvindo a linda canção, nem percebera que Romeu estava junto dela e puxou-lhe a mão.
Ela deu um grito de surpresa, fazendo com que um parente seu olhasse para ela com reprovação. Julieta sorriu-lhe sem graça e, então, sentiu um sussurrar ao seu ouvido, enquanto Romeu mantinha sua mão presa a dela.
— Se minha mão profana o relicário, em remissão aceito a penitência: meu lábio, peregrino solitário, demonstrará com sobra reverência.
Romeu tira a máscara e beija a delicada mão. Julieta estremece ao sentir o toque morno daqueles lábios e vira-se pra ele. Lá estava ele; o misterioso mascarado revelara, enfim, o seu rosto. Ela ficou estupefata ao contemplar-lhe a beleza: cabelos dourados e ondulados como os de um querubim; olhos castanho-claros e brilhantes, que por um capricho da natureza, quase se fizeram verdes, pois em redor da pupila, via-se uns raios esverdeados; Ele parecia um anjo, daqueles que Julieta via retratados nas pinturas das “Madonnas”. Um querubim caído do céu, para iluminar-lhe a existência.
Ela retomou desesperada o diálogo, para se certificar de que aquilo não era uma aparição e em poucos segundos, desvanecesse no ar.
— Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Esse é o beijo mais santo e conveniente.
— Os santos e os beatos não têm boca? — brinca ele sorrindo.
O rapaz respondera! Para alívio de seu jovem coração, ele não era uma visão...
— Sim, peregrino, mas só para orações! — Julieta retribui a brincadeira.
Ele toca o rosto dela, com uma leve carícia. Julieta assusta-se, mas não conseguiu afastar-se, pareceu estar enfeitiçada...
—Deixai então, ò santa! Que esta boca mostre o caminho certo aos corações...
— Sem se mexer, o santo espera é voto.
— Então, fica quietinha: Em tua boca, limpar-me-ei dos meus pecados...
Ela fechou os olhos, enquanto Romeu erguia-lhe o rosto delicadamente, para em seus lábios pousar um beijo suave e respeitoso. Por uns instantes, Julieta não conseguia respirar, imóvel, ouvia apenas as batidas descompassadas do seu coração. Voltando a si, se afasta! Toca em sua boca e comenta sorrindo.
— Que passaram assim para os meus lábios...
— Pecados meus? Oh, não! Quero-os retornados! Devolve-me!
Romeu segura mais firme o rosto de Julieta e beija-a à francesa. Ambas as línguas se tocaram. Julieta perdeu a noção da compostura. Por uns momentos, abraçou-o forte para que o seu anjo não fugisse dela e descartar qualquer possibilidade de ser apenas um sonho. Eles não conseguiam parar. Ela, se perguntando por que não conseguia conter-se e ele, queria afogar-se cada vez mais em seu doce hálito. Ambos só voltaram à realidade, quando ouviram uma voz chamando. Era a ama Filippa atrás dela.
Julu!!! Onde estás bambina?!
Romeu colocou a máscara correndo e escondeu-se. Julieta tentou ajeitar-se como pôde, para que a ama não desconfiasse de nada.
Ama! Estou aqui! — aparece ofegante, Romeu a deixara sem fôlego.
— Estás sem ar? O que houve? Estás passando mal?!
— Não ama! É só cansaço de tanto dançar!
— Teus pais reclamam vossa presença, para despedir-se dos convidados!
Enquanto Julieta se afastava às pressas, Filippa aproveita para pegar uns docinhos que ainda sobravam na mesa para comer. Romeu aparece de repente, e a assusta.
Virgem Santa! Mas que susto!!!! De onde saíste?!!!!
— Perdão, senhora! Por obséquio! — disse-lhe.
— O que queres?
— Quem são os pais dela?
— De quem?
— Da senhorita que saíra há pouco daqui?
— Ora essa, cavalheiro! Os donos desta casa, certamente! Amamentei-lhe a filha, a senhorita pela qual indagas e te digo mais: quem vier a desposá-la ficará cheio de ouro, pois é uma boa menina e muito bem criada! Com licença...
Romeu sente o sangue gelar. “Ela é uma Capuleto?!” — pensa desesperado. —“ Oh, conta cara! Minha vida é dívida de hoje em diante no livro do inimigo!"
— Romeu! — chama-o Benvólio.
Ele se aproxima de Romeu vacilante, estava embriagado.
— Acabou a festa. Mercuccio está chamando para irmos embora.
Enquanto se retiravam, Julieta o vira.
— Ama! Quem é aquele cavalheiro que ora passa pela porta?
— O mascarado de roupa azul e preta, com capa e capuz?
— Ele mesmo.
—Não sei quem seja...
— Vá perguntar-lhe, então!
A ama obedece e volta pálida e desfigurada, fazendo o sinal da cruz sobre si, como se houvesse contemplado uma assombração.
Mama mia! Sinceridade foste batizada! Inacreditável!!!!
— O quê?! — pergunta Julieta.
Sangue de Cristo, valei-me!
Fala logo!
— Romeu é o nome dele! É um dos Montecchios, filho único do inimigo de vosso pai!
Julieta perde as cores e quase desfalece.
Eu não acredito! Deus meu! Como do amor a inimizade me arde! Nunca antes conhecido e muito tarde amado! Oh, como esse monstro o Amor brinca comigo; apaixonada ver-me do inimigo!
C-Como assim?! — gagueja a ama.
Julieta sobe as escadas às pressas chorando e assustando seus pais.
Ei! Julieta! Os convidados estão se retirando! — reclama o pai. — Deves fazer-lhes as cortesias da despedida! Julieta!!!
— Meu senhor! Oh, meu senhor! Perdoe Julieta, pois ela não está bem! — pede-lhe a ama. — Sendo assim, poupai-a de tal tarefa!
Mas o que deu nessa menina? — indaga o pai confuso e olha para a esposa.
— Saudades de Páris?! — opinou Bettina.
continua...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

mensagem especial: Solidariedade


Santa Catarina tinha uma massa muito grande de leitores deste blog, pesa-me por isso, ao coração, o que vem acontecendo àquele belo Estado. Aos amigos de Santa Catarina e agora, Espírito Santo, que lêem este blog, que liam quando computador ainda tinham e aqueles que talvez não leiam mais, pois podem ter perdido a vida na chuva impiedosa, deixo minha solidariedade e estou rezando por vocês e pelos seus Estados. Muitas das vezes, flagelos como estes nos assolam e indagamos: Onde está Deus numa hora destas? Porém, creio que a pergunta talvez seja outra: O que nós estamos fazendo com o nosso planeta?
Deus é sábio em tudo que faz e sua Natureza criada é perfeita; nós sim que, por ânsia de querer mais do que já temos, mexemos de forma irresponsável com Ela.
A Natureza não se defende, todavia, mais tarde, até para encontrar novamente o seu ponto de equilíbrio, Ela se vinga e é o que estamos vendo, não só em Santa Catarina, mas em todo mundo: terremotos freqüentes e até mesmo em lugares que nunca os tinha tido, Ciclones em larga escala, aquecimento absurdo, em partes do mundo que eram consideradas frias mesmo no Verão, etc...
Acho que é chegada a hora de pararmos para pensar no amanhã e buscar meios de cuidar melhor do nosso Planeta, que é a nossa casa, enquanto ainda temos tempo. Deus dotou o homem de inteligência, para saber diferenciar o que é bom e o que é mau. Conjuro a todos os leitores deste blog a ajudarem Santa Catarina. Participem das campanhas! Vamos mostrar a nossa solidariedade nesta época, que por causa do Natal, só se exalta esta palavra, o Amor e a Fraternidade. São nossos irmãos que estão sofrendo e provavelmente, o Natal deste ano, para eles não será o mesmo.
PAZ E BEM A TODOS

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "O Baile" - 3

foto: cena do filme de Franco Zefirelli "1968" (Julieta e Páris)
Ao virar-se, Romeu teve um sobressalto e contemplou a mais bela aparição, mais bela ainda do que Rosalina, a ingrata que magoara-lhe o coração.
— Andaste por demais ao sol, jovem senhor — brinca ela. — Balbuciando palavras sozinho e sem sentido aparente, ou se acaso engano-me, não estás contente?
Romeu fica sem palavras para responder à bela moça. Tinha diante de si, uma jovenzinha radiante como a aurora matutina. Pele clara como a neve e cabelos negros como o ébano; olhos de uma cor que Romeu não pode definir; ora pareciam verdes e ora azuis, dependendo da luz a banhar-lhe o jovem rosto; faces róseas, demonstrando o frescor da tenra idade e seus lábios? Ah, os lábios! Bem delineados pela natureza e tão carmesins, que pareciam uma uva moscatel madura e doce, convidando a ser provada. E o sorriso? Que lindo sorriso ornamentava-lhe a face! Dentes alvos e brilhantes!
O coração de Romeu disparou, mas antes que pudesse saber-lhe o nome, a dama virou-se e dirigiu-se à uma senhora que gesticulava-lhe de forma frenética. O rosto dele havia corado e sentiu um calor percorrer-lhe todo o corpo e agradeceu aos céus, por ter a face oculta.
— O que foi, ama? — pergunta Julieta.
— O conde Páris deseja despedir-se.
Julieta se segurou para não abrir um largo sorriso e acompanhada da ama entrou em casa.
— Quem será ela? — indaga-se Romeu encantado. — Oh, que simpleza! Nunca soube até agora o que era a verdadeira beleza!
Romeu estranha as suas palavras proferidas espontaneamente.
— Será que agora, de fato, saberei o que é o amor? Seguirei atrás.
Ele volta para o salão iluminado e começa a procurar pela jovem. Viu-a conversando com um cavalheiro e nesta hora, passou um criado servindo.
Ei! Amigo! Que dama é aquela que fala com aquele cavalheiro?
Já cansado e mau-humorado, o criado responde de qualquer maneira.
— Desconheço-a, meu senhor.
Depois que o servo afastou-se, Romeu levanta a máscara e continuou em sua contemplação apaixonada.
— Ela ensina a tocha a ser luzente! Dir-se-ia que a face está pendente da noite, qual jóia mui preciosa, na orelha de uma etíope mimosa! Bela demais para o uso, muito cara para a vida terrena! Como clara pomba ao lado de gralhas tagarelas, anda no meio das demais donzelas!
Teobaldo, primo de Julieta por parte de sua mãe, passava na hora e viu-lhe o rosto antes de Romeu baixar novamente a máscara, e o reconhece.
— Como esse vilão se atreve a com máscara grotesca, vir aqui para de nossa festividade rir e fazer pouco? — fala indignado. — Pela honra de meu sangue e nobre estado, dar-lhe a morte não julgo ser pecado!
Teobaldo corre em direção aos tios. Romeu, alheio, nem percebera que Teobaldo o vira.
Páris foi embora e Julieta voltou para a roda de dança, para divertir-se com as amigas. Estava feliz e aliviada.
— Vou procurá-la, após a dança, para que esta mão possa tocar nela e assim ficar bendita!
— Tio! — chama-o Teobaldo.
— Que é, sobrinho meu? Que se dá contigo?
— Aquele é um Montecchio, nosso inimigo? — fala apontando-o.
— Como tu o sabes?
— Vi-lhe por uns instantes o rosto, enquanto tinha a máscara levantada.
— Mas quem é ele?
— É Romeu Montecchio! O biltre Romeu! — fala Teobaldo com raiva. — Ele entrou aqui, por zombaria, para estragar nossa alegria!
— Caro sobrinho, aquieta-te! Deixai-o tranqüilo! Ele não fez nenhum chiste com nossa festa, tem-se mostrado um perfeito gentil-homem. Para ser-te franco; Verona tem orgulho dele, como rapaz virtuoso, pacífico e mui polido. Não quero que ele seja, em minha casa, ofendido. Acalma-te, portanto e fica alegre! Essa é a minha vontade!
Bettina Capuleto surpreendeu-se com a tolerância do marido.
— Acatai sua presença, fica alegre e desfaça esta carranca que não vai bem com nossa festividade! — diz-lhe Capuleto.
Teobaldo não conseguia acreditar no que ouvira. Ver o tio defendendo o inimigo, muito o revoltou.
Vai sim, quando um vilão se mete nela! — retruca-lhe. — Tio, eu não o suporto! Por favor... é vergonhoso!
Capuleto segura-lhe firme pelo braço e joga-o em uma cadeira.
— Terás de suportá-lo! Estou mandando: deixa-o em paz!
Quem manda aqui, acaso, vós ou eu? Ora! Não o suportais, então; quereis fazer barulho entre meus hóspedes?! Provocar Briga?! Quereis ser o primeiro a ser enforcado pelo Príncipe Escalo? Sois um petulante! Arrependi-me de tê-lo convidado!
— Mas... — ele ainda tentou argumentar.
SILÊNCIO!
Ide acalmar-vos, seu fedelho impetuoso e desequilibrado!
Capuleto afasta-se e Bettina achega-se a Teobaldo.
— Faça o que ele disse — ordena ela. — Resolva isto mais tarde, pois Lorenzo disse: “em minha casa”. Na rua, porém, podeis agir como quiserdes. Mate-o por esta afronta e depois, fuja da cidade e retorne mais tarde, quando todos já houverem esquecido o caso — idealiza a cruel mulher.
—A paciência e o furor equilibrados, inativos me deixam com seus brados. Vou embora, mas o intruso que hoje é mel, será amanhã o mais amargo fel.
— Isso! — concorda ela.
Teobaldo abandonou a festa. Recusou-se a permanecer no mesmo antro que um inimigo Montecchio, pois talvez, até o final do baile, desobedecesse ao tio.
continua...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "O Baile" - 2

foto: Estátua de Julieta no jardim dos Capuletos

Quando Romeu e os companheiros chegaram, a festa corria animada e a cada chegada de novos convidados, o Senhor Capuleto, acompanhado da esposa, vinha recebê-los à porta.
— Senhores, bem-vindos! As senhoras que não sofrerem no dedão de calos, hão de dançar convosco! — cumprimentava-os o anfitrião.
— Vamos agora — fala Mercuccio.
— O Capuleto está na porta... — hesita Romeu tentando dar meia-volta, no que Mercuccio puxou-o.
— Nada disso, meu bom rapaz! O que esperavas? Ele é o dono da casa e deve fazer as honras!
— Eu me arrependi de ter vindo!
— Agora é tarde, caro amigo! Esqueças quem sois e entre sorrindo!
Ora! Estou de máscara! — recrimina ele.
— Mais um motivo para não ter medo — Mercuccio empurra-o. — Olá, Senhor Capuleto? — cumprimenta-o Mercuccio, fazendo um meneio. — Mercuccio, vosso criado!
— Oh! Como vai, bom Mercuccio? Quem são esses?
— Meus companheiros de música.
— Ah, é mesmo! Esqueci-me de que adoras animar as festas! Isso é ótimo, porque meus músicos cansando, podeis assumir as serestas!
Romeu suava frio e, embora mascarado, seus pés vacilavam.
— Me parece que este rapaz não está bem...
— Ah, coitado! É um enjeitado pela família, o qual a minha dispôs-se a cuidar, pobrezinho! Ele é estrangeiro!
Romeu vira-se incrédulo para Mercuccio.
— É?! — pergunta Capuleto. — De onde?
— Da França! — mente Mercuccio.
— Adoro a França! Suas maneiras, seus costumes... De onde sois meu jovem? De que província francesa?
Romeu mordeu os lábios. Se ele falasse, Capuleto reconheceria-lhe a voz. A vontade dele era voar no pescoço do amigo.
— Imagina! Não vos contei?! — torna Mercuccio calmo. — Ele é mudo, não fala nada!
— Oh, mas que pena! — apieda-se a Senhora Capuleto.
Benvólio estava se segurando ao máximo, para não cair na gargalhada.
— Ele não fala nada mesmo? — pergunta Capuleto incrédulo.
— Nem um gemidinho...
Mercuccio pisa com força no pé de Romeu e ele sente uma dor terrível, mas não podia gritar, teve que segurar-se. Seus olhos lacrimejaram por trás da máscara.
— Viu?!
— Oh, que lástima! Coitado... Entrem. Sede aqui bem-vindos! Já se foi o tempo em que punha uma máscara e sabia cochichar algumas palavrinhas nuns ouvidos bonitos, mas a mocidade é fugaz... tudo passa! Ide senhores!
Os amigos arrastaram Romeu para dentro.
— Por que fez aquilo? — pergunta a Mercuccio revoltado.
— Me vinguei! — ri Mercuccio.
Seu desgraçado! — xinga Romeu. — Eu te mato seu asno!
Mercuccio corre para o meio do salão, cheio de gente, antes que Romeu arrancasse-lhe o couro.
Enfim, todos os amigos misturaram-se aos convidados e Romeu retomou o seu intento. O pior já havia passado. Começou a procurar por Rosalina, porém, de fato não a vira junto da família. À festa ela não fora, mau sinal.
O Senhor Capuleto e sua senhora já haviam voltado para o salão e agora, conversavam com os pais de Rosalina. Sorrateiramente, Romeu se aproxima para ouvir o que comentavam.
— Então, é mesmo verdade, Benvenuta? Rosalina decidiu ser freira... — falava Bettina.
— Sim. Minha filha sempre foi uma santa, já era esperado que agisse desta maneira.
— Não estão decepcionados? — pergunta Capuleto.
— Nem um pouco, irmão Lorenzo! — disse-lhe Iacopo, o pai de Rosalina. — Sentimo-nos lisonjeados! É até melhor, menos um dote a ser pago!
— Quanto a mim, nem posso pensar em colocar minha filha no convento, senão, minha família termina; por isso, estou empenhado em arrumar-lhe bom casamento — fala Capuleto.
— E já tem alguém em mente, caro cunhado? — pergunta a mãe de Rosalina.
— Estamos pensando em casá-la com o Conde Páris — explica a mãe de Julieta. — Só que, por enquanto, nada foi arranjado até o momento presente.
— Nossa! Conde Páris é um bom-partido! — admira-se Benvenuta.
— Sim! Muito rico! Escolheste bem, Lorenzo! Agora, quanto ao fato de Rosalina estar no convento e com homem algum casar-se, tenho outros filhos, por isso, não devo preocupar-me.
— Isto é fato! — concorda Capuleto.
“Então era verdade... Ela de fato tornou-se casta...” — pensa Romeu decepcionado e afasta-se inconsolável. —“Benvólio não mentira...”
Romeu foi procurá-lo e por fim encontrou-o.
— Eu não disse? — fala ele.
— Sim, disseste primo meu. E eu cheguei a duvidar da tua palavra!
— É natural, primo. A decepção certas vezes nos bate à porta e por medo de sofrer, não abrimos para ela. Mas, caro Romeu, atente! Logo acharás uma linda donzela e esta, o fará esquecer-se de Rosalina e logo, estarás outra vez contente!
— A ferida está recém aberta, não sei se desejo aventurar-me nesta estrada tão cedo!
— Encontre nova paixão, não tenha medo! — incentivou-o Benvólio.
— Preciso de ar...
Romeu afasta-se e dirige-se para o jardim da casa e senta-se no chafariz. Ele queria chorar e estava por um triz, contudo, sentia-se envergonhado de fazê-lo, embora a máscara lhe favorecesse e pudesse vazar a tristeza sem temor, e martirizar-se pelo perdido amor.
No salão, Julieta já estava cansada de dançar e dar atenção a Páris. Queria afastar-se dele um pouco, ela não estava agüentando mais; seus pés doíam e seu pretendente era por demais esnobe. Por fim, conseguira uma boa desculpa e conseguiu fugir, escolhendo o jardim para esconder-se.
Casais estavam a conversar animadamente e pareciam apaixonados e absortos em si mesmos. Julieta não pode deixar de admirá-los; eles não se preocupavam com nada em redor, apenas contemplavam-se mutuamente. Ela suspirou profundamente, desejando um amor semelhante para si e algum tempo depois, reparou numa figura imóvel e solitária, sentada no chafariz. Era o único que estava sozinho.
“O que aquele homem só, faz no refúgio dos casais apaixonados?” — indaga-se. "— Bom, deve estar esperando alguém... de certo marcou algum encontro...”
Ela ia retirar-se, mas decidiu continuar a observá-lo; pelo menos era melhor ali, do que ao lado de Páris. Após um tempo bem longo, ela constatou que ninguém dele se acercara. Curiosa, resolveu aproximar-se e ouviu ele balbuciar palavras amarguradas.
—Ah, que aparência tens amor tão branda, mas na verdade, sois áspero e tirano!
Assim falava o jovem quando foi surpreendido por uma risada meiga e cristalina...
continua...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato " O Baile" - 1

foto: máscara veronesa
O grande salão já estava iluminado, as guirlandas suspensas e espalhando o seu perfume suave; uma mesa com várias iguarias, já tinha sido servida com luxo e beleza.
Os convidados chegavam aos poucos e iam enchendo o salão, com seus risos, suas conversas e suas roupas bordadas e riquíssimas em detalhes; era um verdadeiro show de cores, mas as cores que mais predominavam era o vermelho e o dourado, a cor do brasão da família Capuleto.
Julieta já estava arrumada, aguardando sua ama Filippa vir buscá-la para o baile. Seu vestido era vermelho vivo, num tom bem forte, bordado com rosas singelas em tom branco, contornadas em dourado, pois a cor predominante da família tinha que sobressair-se em sua roupa. Seu cabelo bem longo e negro, protegido com uma espécie de touca do mesmo tecido da roupa, estava impecável, preso em uma trança enfeitada com uma rede de pérolas, sinal da moça disponível para o casamento.
Ela estava deslumbrante! Mas para o Conde Páris, não para alguém que ela, de fato, quisesse enfeitar-se. Olhava-se no espelho e sentia-se estranha. Só conhecia o amor através dos contos que ela criava e narrava às amigas. “Será que o amor existe como nos contos-de-fada?” — indagava-se.
— Julieta! — chama-lhe a ama, despertando-a dos devaneios.
— O baile já começou, vamos! O conde a espera.
Ela soltou um suspiro entediado e queixoso.
— O que foi, ovelhinha? Estás triste?
— Não, ama...
— Não simpatizas com Páris, não é?
Julieta ficou lívida. Sua ama acertara na mosca. E como se entendesse o silêncio dela comentou...
— Eu te conheço bem, Julu...
— Nada posso esconder de ti, não é ama?
— Filha, não fica assim...é natural que tu não gostes dele, afinal, pouco o conheceis, porém, quem sabe se com a côrte e a convivência, não venhas apegar-te ao moço?
— Talvez... é que... é tão estranho... — balbucia Julieta tentando entender.
— Claro, minha bambina! Nunca ouviste falar de amor! Há pouco saíste da infância, então, tal temor é natural para a tua idade... — explica-lhe a boa ama. — Bom, acho que teremos que conversar sobre isso, preciso explicar-te sobre algumas coisas, pois já estás na idade.
Julieta sorriu.
— Acho que tens razão. Como sempre, querida ama!
— Venha! Vamos descer!
Neste mesmo tempo, por uma alameda estreita e escura, munidos de archotes, vinham Mercuccio e sua trupe de músicos mascarados, na direção da casa dos Capuleto. Romeu e Benvólio estavam com eles.
— Por escusas faremos algum discurso, ou entramos sem nenhuma apologia? — pergunta Romeu ao primo.
— Muito falar destoa deste dia. Que nos tomem por quem melhor acharem; mediremos com todos alguns passos e, após, sairemos —explica-lhe Benvólio.
— Dai-me uma das tochas; não me acho disposto para pinotes hoje.
— Não! Tereis de dançar, caro Romeu! —caçoa Mercuccio.
— Nervoso da forma como estou, pesa-me o corpo feito chumbo e meus pés, não conseguem dar um passo.
— É tão fácil! É só acompanhar o compasso!
Mercuccio segura Romeu e para escarnecê-lo, tenta valsar com ele.
Ei! Ei! Me solta!!! — protesta ele.
Os amigos começaram a rir. Indignado, Romeu pisa no pé de Mercuccio.
Ai! Essa doeu! — reclama ele.
— Já disse que não vou dançar hoje!
Mercuccio soltou uma longa gargalhada.
— Ora! Sois um apaixonado! Por empréstimo, tomai as lépidas asas de Cupido! — brinca ele.
— Hum... ROSALINA!!!!! — ri um dos homens e os demais começaram a caçoar dele também, até Benvólio.
Querem parar com isso! — irrita-se Romeu. — Tão transpassado estou por suas setas que nenhuma de suas asas, conseguirá levar-me para o alto! Pois sinto-me pesado, que não posso deixar a dor obscura, esta, nem pelo fardo do amor, gemendo se cura!
— Mas para estar sob ele, é necessário que carregueis o amor, embora um peso excessivo para coisa tão terna — filosofa Mercuccio.
— Coisa terna julgais que seja o amor?! Não; muito dura. Dura e brutal e fere como espinho... — desabafa ele.
— Se o amor convosco é duro, sede duro com ele! Revidando todas as pancadas que der — aconselha-o. — Ponde-o no chão!
Giácomo! Dê-me uma cobertura para o rosto! Em cima de uma máscara, ponho outra! Que me importa que o olhar possa perceber a feiúra?
Dizia Mercuccio, escarnecendo de si mesmo e de sua aparência, que não era tão bela, embora muito feio também não fosse; mas ele se julgava fora dos padrões de beleza e não adiantava dizer-lhe o contrário. Os amigos já estavam acostumados com seu complexo.
— Vamos bater e entrar, e uma vez dentro, que bom uso das pernas todos façam! — combina Benvólio animado.
— Insisto! Dê-me uma tocha! Já meu avô dizia sentencioso: seguro a luz e fico a observar tudo. Fora, muita algazarra; eu, quieto e mudo — pede Romeu outra vez.
— Por que tanto temor, agora? Não querias ver e falar com Rosalina, a ninfa por quem lamenta e chora?! — repreende-lhe o primo.
— É que eu tive um sonho esta noite...
— Oh, mas que coincidência! — intromete-se Mercuccio. — Eu também!
— Sobre o quê? — pergunta Romeu curioso.
— Que os sonhadores sempre mentem e sonho algum, verdade tem! Vamos rapazes! “andiamo”! Já estamos atrasados! — adianta-se Mercuccio, conduzindo os seus bardos.
O grupo seguiu em frente e Romeu ficou pra trás.
Anda primo! Deste jeito, não pegaremos nem a ceia! — grita-lhe Benvólio.
— Eu devo estar mesmo louco. Ir à festa em casa inimiga... Embora mascarado, ainda assim é um absurdo!
O sino do campanário da Catedral de São Zeno, soaram dez badaladas. Romeu ouve o som e vira-se para a igreja e faz uma ligeira prece.
— Apreende o meu espírito algo que ainda pende das estrelas e que vai iniciar seu fatal curso, na festa desta noite, pondo termo à vida desprezível que eu carrego no peito, num açoite. Mas Aquele que se acha no leme da minha viagem, dirija-me a vela!
Ao virar-se para a alameda, percebera que os amigos já iam longe e teve que correr para alcançá-los.
Ei! Esperem!!! — grita ele.


continua...

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "Em busca do verdadeiro amor"- 4


foto: cena do filme Romeu e Julieta de Franco Zefirelli

No jardim da mansão de Capuleto, Julieta já havia recebido algumas amigas e primas para a festa. Sentadas no pátio em círculo, próximas ao gargarejar preguiçoso do chafariz central, teciam as guirlandas que enfeitariam a noite. Era primavera e muitas flores puderam ser usadas, desde rosas a miosótis.
As moças ouviam Julieta contar mais uma de suas estórias de príncipes e princesas, enquanto trabalhavam. Isso ajudava a matar o tempo e controlar a ansiedade para a festa.
— E então, após matar o dragão... — contava ela. — o valente príncipe tomou-a nos braços e levou-a para o seu castelo, onde viveram felizes para sempre.
— Que linda estória, prima Julieta!
— Sem dúvida! Uma bela estória de amor! Acho que nossa prima mais jovem deseja apaixonar-se... — brinca Benedetta.
Julieta sente-se corar e joga um ramo de flores em cima da prima maliciosa. Todas as moças riram com isso.
Não é isso! — fala Julieta encabulada.
— Imagina se não... — insistiu a prima.
E se for? Qual o problema? — fala Lívia, amiga de infância de Julieta. — Já é hora de interessar-se por um jovem.
Lívia, pára! — retruca Julieta voltando a corar.
A ama de Julieta começa a berrar por ela.
JULIETA!!!!! Onde está a menina? JULIIIIIIIEEEEEETAAAAA!!!!!!
— Sua ama a está chamando! — fala Stefana.
No quarto de Julieta, a senhora Capuleto estava nervosa e impaciente.
— Onde ela está, ama? — perguntava ela.
— Por minha virgindade! Desde quando eu tinha 12 anos já a chamei! — exagera ela. — JUUUUULIIIIIEEETAAAAAAAA!!!!!!
Julieta entra em casa correndo e atropelando os que estavam arrumando a festa. Sobe as escadas para o segundo pavimento e vê sua ama Filippa bem agitada.
Menina! Onde estavas?
— No jardim, ama!
— Rápido! Sua mãe deseja falar-vos!
— Minha mãe? — Julieta estranhou; sua mãe nunca foi de lhe dar muita atenção. Era fria como o gelo e elas pouco se falavam.
— Sim, minha ovelhinha! Anda! Se avie!
— Onde ela está?
— No vosso quarto.
Julieta entra e vê sua mãe sentada na penteadeira, tentando ajeitar uma mecha rebelde, que cismara de mostrar-se pelo véu. Estava linda! Já vestida para receber os convidados; um vestido com bordados ricos, o chapéu com véu, típico de uma mulher já casada da época. Em nada aquela mecha que caía, atrapalharia todo o conjunto de beleza, entretanto, sua mãe já parecia irritada com aquilo.
— Senhora, aqui estou — fala Julieta aproximando-se. — Que desejais?
— Ah, que bom! Filha precisamos conversar... é...
Ela olha para Filippa.
— Ama deixa-nos sozinha, pois é assunto particular...
— Sim, senhora.
A ama sai meio contrariada; quando sai, não pôde evitar a curiosidade, enfiou o ouvido na porta. Ouviu que a senhora Capuleto tentava começar a falar, mas empacou por sentir-se tímida e dirigiu-se à porta para pedir que Filippa voltasse. Filippa ouviu-lhe os passos e afastou-se correndo, procurando disfarçar. Bettina Capuleto abre o quarto.
— Ama, por favor! Volta!
A ama sorriu animada e obedeceu, embora não entendendo nada. O fato é que o Senhor Capuleto já havia falado à esposa das intenções do Conde Páris e ordenou-lhe que já preparasse o terreno para umas possíveis bodas. Julieta estava confusa. O que haveria de tão grave para a mãe portar-se daquele modo? Bettina, para justificar-se e pedir-lhe desculpas pela grosseria, sem humilhar-se perante uma criada começa a falar:
— Lembrei-me agora que é preciso que ouças nossa conversa, pois há muito tempo conheces minha filha.
— É certo, posso dizer que idade tem, hora por hora!
— tem 14 anos incompletos — corta a Senhora Capuleto.
— Jogo 14 dos meus dentes fora, embora para minha aflição só tenha 4, em como não fez ainda 14 anos!
— Isso pouco importa... — fala Bettina.
A ama nem deixou a Senhora Capuleto iniciar. Começou a tagarelar e a falar da infância de Julieta.
— No dia 1 de agosto, ela completa 14 anos, ela e Susana, minha filha, que morreu bebê ainda. Eram da mesma idade, bem, Susana está com Deus, mas como ia dizendo: na noite de 1º da agosto ela completa 14 anos. Desde o tremor de terra, que abalou Verona, onze anos se passaram quando ela desmamou e depois, de pé, sozinha, a ovelhinha já cambaleava pela casa e, pela
Santa Cruz! Depois do aniversário, ela caiu e machucou a testa!
Julieta estava segurando o riso, para não rir da cara impaciente da mãe. Ela estava desfigurada. E a ama continuava...
— Meu marido, que Deus o tenha, levantou a menina e disse:
“Isso, Julu! Caia agora de frente, porque mais tarde cairás de costas, quando tiveres mais espírito!” E parando de chorar, na mesma hora, a pirralhinha disse SIM, sem saber do que ele falava — disse a ama soltando uma gargalhada sonora.
Ama! Já chega!!! — repreende-lhe a patroa corando-se. — Bem... retomemos o assunto...
Ah, minha bambina!!!— interrompe a ama de novo. — Foste a criança mais linda que criei! Deus vos conserve em graça!
Julieta corre e abraça sua ama-de-leite. A senhora Capuleto, voltou a apertar as têmporas com força.
— Eu já sei disso! — fala a mulher entre-dentes. — Enfim... — suspira fundo e tenta retomar o assunto.
— Se um dia puder ver-te casada... — falava Filippa acariciando o rosto de Julieta.
Pois foi para falar de casamento que a chamei! — falou logo sua mãe, antes que a tagarela da ama a interrompesse de novo. — Julieta: em que disposição te achas para isso?
A menina se surpreendeu, nunca havia pensado nisso. Até a ama ficou surpresa...
— É uma honra, com a qual jamais sonhei — reconhece de forma tímida e inocente.
— Pois estamos na época de pensar em casamento. Mais jovens do que vós, aqui em Verona, senhoras de respeito já são mães. Para ser breve: o valoroso Páris requesta vosso amor.
Julieta abaixa a cabeça e disfarçadamente, torce o nariz bem feito. “Logo ele?” — pensa ela contrariada. —“Ele é um chato! Só sabe falar de dinheiro, do poder que tem, de lutas, mas nunca de amor...”
Que homem menina! — grita a ama eufórica. — Um homem desses, só feito de encomenda!
— A primavera de Verona não tem mais bela flor! — elogia-lhe também a Senhora Capuleto.
— Sim, uma verdadeira flor! Que traços! Que modos! — concorda sua ama.
“Para mim ele se parece mais com uma erva-daninha...” — pensa Julieta com desdém.
— Que dizeis? — fala sua mãe, interrompendo-lhe o pensamento. — Sois capaz de amar o jovem? Hoje à noite vê-lo-eis em nossa festa. Folheai o livro de seu jovem rosto, que nele encontrareis doces encantos, escritos pela pena de beleza. Enfim, que me dizeis do amor de Páris?
— Vou ver se prendo nele os meus olhares. Mas a vista não chegará além, do que me consentir vossa vontade — fala Julieta sem jeito.
— Ótimo! Ama, arrumai Julieta! Quero-a divina esta noite, para que aos olhos de Páris, não pareça um açoite! — despede-se Bettina saindo.
— Sim, minha senhora! Vem, minha ovelhinha! Vamos escolher o mais belo vestido!
Julieta deu um sorriso torto, sem graça e suspirou amargurada, enquanto para o armário a ama lhe puxara.



continua...

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "Em busca do verdadeiro amor"-3

foto: praça principal de Verona
continuação...
Depois da audiência com o príncipe de Verona, o Senhor Lorenzo Capuleto sai do palácio. Páris, sobrinho do príncipe, fez-lhe a gentileza de acompanhá-lo.
— Tanto eu como Giuseppe Montecchio recebemos igual penalidade. Como velhos, em paz viver não nos será difícil. Os jovens é que me preocupam verdadeiramente — comenta Capuleto.
— Ambos gozais de altíssimo conceito, sendo de lastimar que a tanto tempo vivais em desavença. Mas agora, milorde, que dizeis do meu pedido?
— Conde Páris. Repito o que já vos disse. Minha filha Julieta ainda é uma estrangeira neste mundo, mal o curso notou de 14 anos. Jamais comentara sobre amores. Os folguedos infantis ainda são os seus pendores. Não façamos destas núpcias algum barulho.
— Mães venturosas já o são, muitas outras moças, mais jovens ainda do que ela — insiste o conde.
— As que começam antes do tempo, também cedo morrem. Querido Páris! Todas as minhas proles foram tragadas pela terra; somente essa me resta, herdeira grata do que tenho. Mas falai com Julieta; nisso, minha vontade será só uma parcela. Sendo do gosto dela, no mesmo instante estou disposto a dar alegre o meu consentimento.
Páris sorri satisfeito.
— Darei hoje uma festa — continua Capuleto — na qual convidei pessoas amigas. Vós também, sendo mais um, fazei como ninguém, jus ao convite e se a oportunidade se fizer aparente, corteje minha filha a procure fazê-la contente. Apegando-se a ti, creio que não será difícil convencê-la a casar-se.
— Muito obrigado, Senhor Capuleto! Com certeza, ninguém mais do que eu, nisso irá empenhar-se!
Um criado acompanhava-os em silêncio.
Olá rapaz! Aqui!
— Sim, meu senhor?
— Corre a bela Verona e os nomes desta lista procura. A todos anunciai, que hoje, venham à minha casa, pois estarei esperando! Vamos, caro Páris! Aproveite e passe o dia conosco.
— Será uma honra , milorde — fala ele agradecido.
Ambos se afastaram animados, deixando o pobre criado para trás, aflito, revirando o papel para todos os lados.
— Procurar os donos dos nomes desta lista! Irá ocupar-se o pintor com suas redes, o pescador com seu pincel e a mim, que não sei ler, me incumbem de tal penosa tarefa! — debocha o homem. — Devo procurar gente instruída, para me ajudar com isso...
Vivas! Achei! Pelas roupas, estudo eles têm!
Nesta hora, andando em direção ao homem vinham Romeu e Benvólio. Ele, ainda cabisbaixo e seu primo, tentando animá-lo.
— Olá, senhores? Graças aos céus que encontrei-vos!
— Em que podemos ajudar-vos, senhor? — pergunta-lhe Romeu solícito.
—Oh! Que brio! Que fineza de modos! Ajudai-me, em nome de Deus!
Romeu e o primo se entreolharam curiosos.
— Tenho aqui uma lista, cujo meu patrão confiou-me, mas não sei ler, para meu desalento. Portanto, não poderei cumprir a ordem e com certeza, serei severamente castigado se não fizer o que meu senhor ordenou, pois causarei a ele, tremendo desagrado.
Por Deus! Deixe-me ajudá-lo, então! — exclama Romeu indignado.
Benvólio ri, Romeu abre e lê.
—“ Senhor Martino, sua esposa e filhas; o Conde Anselmo com suas encantadoras irmãs; a senhora viúva de Vitrúvio; Senhor Placêncio e suas amáveis sobrinhas, Mercuccio e seu irmão Valentino...”
Olha! Nosso amigo Mercuccio foi convidado! — comenta Benvólio.
— Ah, claro! Festa sem Mercuccio, não é festa! Ele sempre anima qualquer evento com seu jeito fanfarrão e sua trupe de músicos!
Romeu continua...
— “ meu tio Martino Capuleto, sua esposa e filhos; minha linda sobrinha Rosalina...” —
Como?!
Romeu assusta-se e olha inquisidor para Benvólio.
— Não me disseste há pouco, que ela estava num convento?
— Foi o que ouvi na cidade! É o comentário do momento!
— Queres fazer-me desistir do meu amor, seu traidor?
— Por Deus, primo, injusto sois!
Claro que não! Vai ver, ela ainda não foi! — Benvólio tenta justificar-se.
Ei! Ei! Será que podem continuar, por favor? — fala o criado de Capuleto, reparando que durante alguns minutos, enquanto ambos discutiam, haviam o ignorado completamente.
Romeu tornou a ler, mantendo o cenho cerrado e olhando Benvólio meio de lado; e fez questão de repetir em alto e bom som...
— “MINHA LINDA SOBRINHA ROSALINA, meu irmão Iacopo e sua amável esposa e filhos; Lívia; o senhor Valêncio com seu filho Teobaldo e minha cunhada, Senhora Dominica; Lúcio e a encantadora Helena...” — termina ele.
Benvólio suspirou impaciente.
— Belo conjunto! Onde será isso? — pergunta Romeu curioso, entregando ao criado a lista.
— Na ceia em nossa casa! — fala o criado animado e guardando o papel. — Meu amo Lorenzo Capuleto dará uma grande festa esta noite!
— Não me diga?! — retruca Romeu e olha, imediatamente, para Benvólio.
Ei! O que estás pensando em fazer? — desespera-se o primo de Romeu.
— Senhores, obrigado pela ajuda! — cumprimenta o homem, sacudindo violentamente o braço dos dois rapazes. — Se acaso de casa de Montecchio não o forem, participem da festa conosco! Deus vos abençoe!
O criado sai feliz e cantarolando desafinado. Ele conseguiria cumprir a ordem a bom termo e estava mais relaxado.
— Veja só! O louco nos convidou! — riu-se Benvólio.
— E eu vou! — fala Romeu.
O quê?!!! — assusta-se o primo. — Ficaste louco? É na casa de Capuleto, nosso inimigo!
Romeu começou a andar, deixando-o para trás.
Alto lá, Romeu! O homem disse “se acaso da casa de Montecchio não o forem”...
— Eles não precisam saber.
Queres ir ao encontro da morte, seu insano? Ei! Aonde vais?
— Falar com Mercuccio para pedir que ele me leve.
Mas irão reconhecer-vos!
— Não se eu usar uma máscara, como os companheiros músicos de Mercuccio.
— Eu não vou permitir que faças tal absurdo!
— Não me impeças! Mentiste para mim, para tentar persuadir-me a desistir de Rosalina, o meu amor!
— Por Deus, Romeu! Longe de mim ter tido alguma vez, tal penhor! Eu não menti! De fato, sobre Rosalina, estes comentários ouvi!
— Eu preciso falar com ela, é muito importante para mim! Preciso saber de seus lábios se isto é verdade, para que minha agonia, por esse sentimento não correspondido, chegue ao fim.
— Ora, está bem! Entendo-te! Mas irei contigo!
— Que bom, primo amigo!
— Nessa tradicional festividade, além de Rosalina, desfilarão demais beldades de Verona. Com olhos imparciais compara o rosto dela aos das outras que te mostrar por lá, que sem estorvo, verás teu cisne transformado em corvo! — desafia-lhe Benvólio.
— Se meus olhos devotos falsidade tão grande sustentarem, que em fogueira de minhas lágrimas, eu morra sem piedade. Com tal beleza radiante, nem mesmo o sol brilhará mais do que tão linda amante! — fala Romeu apaixonado.

continua...

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "Em busca do verdadeiro amor"-2

pintura antiga da cidade de Verona
CONTINUAÇÃO...

Quando Romeu chega à cidade, o conflito já havia sido controlado pelo príncipe de Verona, a autoridade máxima. Atentamente, Romeu ouviu-lhe as últimas palavras.
Três lutas civis, nascidas de palavras fúteis, por tua causa, velho Capuleto e por ti, Montecchio, a paz de nossas ruas três vezes perturbaram. Os diletos e pacíficos cidadãos de Verona, nas mãos, lanças antigas brandam por causa do vosso ódio enferrujado! Se de novo vierdes a perturbar nossa cidade, pela quebrada paz dareis as vidas. Por agora, que todos se retirem. Vós, Capuleto, seguireis comigo e vós, Montecchio, à tarde ides à corte da justiça, para conhecimento tomardes do que resolvemos sobre o caso. Já! Sob pena de morte, dispersai-vos!
Romeu empalidecera.
O Senhor Montecchio indaga ao seu sobrinho Benvólio. Queria entender como ocorreu novamente um conflito.
— Quem reavivou esta querela antiga, Benvólio? Dize onde te achavas na hora?
— Muito antes de vir até aqui, já se encontravam engalfinhados vossos servos e os de vosso inimigo.
Ai! Cuidado! — chia Benvólio ao sentir a pressão do lenço da senhora Montecchio, tentando estancar-lhe o sangue do supercílio.
— Precisa estancar isso! Deixai de mesura!
Mesura?! Isso dói, tia Chiara!
— Prossiga... — ordena-lhe o velho Montecchio.
— Tentei apartá-los, mas nesta hora chegou o valente Teobaldo Capuleto e seus comparsas, espada em punho, soprando-me desafios sem conta e investiu contra mim. Fui obrigado a reagir, para não ser morto. Outros, de ambas as famílias, tomaram as dores e houve esta acirrada luta, provocando em nossa Verona, novos dissabores.
— Onde está Romeu? Sabes acaso? Alegra-me não vê-lo neste caso! — pergunta a mãe de Romeu, Dona Chiara Montecchio.
— Não, senhora. Nem sei onde ele se encontra...
— Mais perto do que imaginas, primo! — fala Romeu se aproximando. Semblante carregado e amargurado.
— Filho! Onde estiveste? — pergunta sua mãe.
Por que, meu pai? Por que isso outra vez?
— Não me venhas, Romeu, com sermões de moral. Não fomos responsáveis por este mal. Não começamos desta vez; foram os Capuletos que nos afrontaram primeiro.
— E quantas vezes, vós mesmo não os afrontastes?
— Se maculam a nossa honra, impunes não nos convém deixá-los!
Honra?! Onde está a honra nisto tudo? Chamais estes desatinos frívolos de honra?!
— Romeu, modere as palavras. Não fale assim com vosso pai! — repreende-lhe a mãe.
Não mãe! Não me calai! Não me calarei diante de tanta intemperança! Reparem nos olhos dos cidadãos de Verona! Só vejo ódio e antipatia por nossa casa e pela casa de Capuleto! Chamai isto de honra? Não, senhor Montecchio! Isto não é honra e sim, desonra!
Baixe este tom comigo, rapaz... — ameaça o pai. — Tua passividade, muito mal nos faz! Para defender a honra de nossa família, sempre foste um incapaz!
Como?! — irrita-se o jovem.
— Isso mesmo! Nosso passado provém de uma família poderosa, nobre e guerreira, não destes burgueses emergentes! Tu sim deverias envergonhar-te de, nem ao menos, saber segurar uma espada!
— Giuseppe, por favor, Não fale de Romeu com voz tão amargurada... — pede-lhe a esposa.
— Falo quantas vezes preciso for! Ele é e sempre será uma vergonha para a nossa família. Só sabe escrever poesias e falar de amor.
— Tu nunca me entendeste e jamais me entenderás! — fala Romeu decepcionado. — Eu acho muito mais cômodo, em vez de guerra, falar de amor e paz.
— Um maricas! Isto que sois! — retruca-lhe o senhor Montecchio.
Meu tio! Também não precisa falar deste modo com Romeu!
— Não me defendas, caro Benvólio. É perda de tempo! Muito bem... — Romeu bate as palmas. — cultivastes tanto a guerra e agora, colhemos um belo fruto! A pena de sentença de morte...
Deves estar muito orgulhoso por isso, senhor Montécchio! — fala o filho de forma irônica. — Deves considerar uma boa-sorte...
Seu pai, não aprovou-lhe a atitude e, sem Romeu esperar, mirou-lhe a face e deu-lhe um tapa.
Primo! — assusta-se Benvólio
Giusephe Montecchio! Que absurdo! — contesta a esposa revoltada. — Não deverias ter feito isso! Não aqui, na frente de todos! Romeu, meu filho...
Ser ignóbil!
Pára, Giusephe! — exclama a esposa.
Saia das minhas vistas, pois tão cedo não quero vê-lo! Vamos, minha senhora!
Ela reluta, por fim, obedece-lhe. Seria vergonha ainda maior ser arrastada para casa pelo marido. Enquanto via os pais se afastarem com os outros parentes rindo, Benvólio juntou-se a ele.
— Primo, estás bem?
— Tenho opresso e magoado o coração,
Oh, vergonhosa sina! Ser tratado por parente tão chegado, como um ser que ele tanto abomina! O ódio dá muito trabalho por aqui, como o amor! Não vais rir também como os outros?
— Não, Romeu! Chorar quero!
— Por quê?
— Por ver-lhe opresso o coração. Ainda Rosalina?
— Rosalina... sim. A bela, aquela que tem meu coração cativo!
— Um amor áspero e tirano! — comenta Benvólio. — ainda não soubes?
— Do quê?
— Rosalina fez-se freira. Descobriu que tem vocação religiosa.
— Eu não acredito! — desespera-se Romeu. — Estás mentindo para fazer-me esquecer o meu amor, por ser ela da casa inimiga!
Por Deus, primo Romeu! Claro que não! Entre nós jamais houve segredos e sempre dispus-me a trazer-vos notícias de vossa bela ninfa!
— Não pode ser... Ela não teria coragem de fazer isso!
— Conformai-vos, primo! É a Nosso Senhor que vossa bela ama! — fala-lhe Benvólio.
— Eis um rival bem injusto, pois com Ele nada posso! Mais forte do que eu, foi o escolhido! Creio ver de vez, meu amor perdido. Do amor é sempre assim a transgressão. As dores próprias pesavam-me no peito, mas agora, redobra-lhes o efeito! Então jurou que sempre há de ser casta?
— Jurou. A seta de Cupido não cogita bater nela. Sábia como Diana, a castidade é sua soberana. É o que todos dizem dela. Exaltam-lhe a escolha!
— Oh! É rica em beleza! Mais que bela, e a beleza, morrerá com ela! Adeus primo!
— Mais calma, irei também! Se me deixares, não procedeis bem!


continua...

domingo, 23 de novembro de 2008

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-primeiro Ato "Em busca do verdadeiro amor"-1

foto: balcão de Julieta-Verona
Adaptação: Paula Dunguel

Vinham caminhando a prosear, pela estradinha florida que, da plantação levava à capela de São Francisco das Chagas, no convento de São Pedro, o sábio franciscano Frei Lourenço e o jovem Romeu, da importante família dos Montecchios.
O religioso, com os conhecimentos adquiridos na ordem de seus irmãos franciscanos, plantara uma pequena horta, onde cultivava flores e ramos raros. Ervas que curavam e que usava para ajudar os pobres e mais necessitados do Senhor.
Há muito estes dois homens eram amigos. Frei Lourenço foi seu catequista, professor e agora, confessor do jovem.
Sem muitos amigos — porque seus parentes e chegados achavam que Romeu era pacífico demais e indiferente ao conflito com os Capuleto — o rapaz apegou-se ao velho frade, com tal presteza filial, que tudo ao bom religioso contava, sem nada ocultar.
— Não creio ainda, bom e santo homem, que com vossos conhecimentos e ervas de tanto valor, tenha por piedade encontrado, entre vossas raras flores, alívio para minha dor... — comentava o rapaz amargurado.
— Sofreis do quê, caro pupilo? Ainda a sofrer de amor? Para isto não há remédio, a menos que encontres outro amor!
— Outra musa ainda não achei e temo jamais encontrar. Que fazer Frei Lourenço, se à Rosalina resolvi amar?
— Tolices, bom rapaz! És jovem ainda e com descobertas a desfrutar! Moças bem faceiras e até mais belas do que ela, passeiam de lá pra cá pelas ruas de Verona e sem ninguém para cortejar! Esqueças esta Capuleto, que o desprezas por tua família e nega-se de ti gostar!
— Falais de tal modo, por ser a jovem minha inimiga — comenta Romeu. — Até pareces meus parentes, que acham que sou louco e por motivo de tantas brigas, entre Montecchios e Capuletos, incutiram que não pode existir o amor na história das famílias. Não esperava santo frade, que tão preconceituoso assim o fosses!
Alto lá! Romeu amigo! Preconceituoso, por graça de Deus, não o sou! Se Rosalina o amasses, minha benção de ti seria, mas a jovem não vos ama, por isso, esquecei-vos de Rosalina!
— E se por ventura a donzela me amasse, terias a coragem de casar-nos? Ou por sermos de famílias inimigas, irias também separar-nos?
— Até parece que me apresentas um desafio? Pois bem, meu caro jovem... — disse o frade sem perder o brio. —Se embora inimigos, tu e ela, enfim se amassem, não hesitaria em casar-vos. Talvez até fosse bom... depois de tantos anos de briga, as lutas terminariam afinal, através dos laços do santo amor conjugal!
— Este sonho também almejo e do fundo de minha alma, este é todo o meu desejo.
Nessa hora, quando chegaram à capela, os dois homens ouviram gritaria na cidade, logo, Romeu percebera que os nomes Montecchio e Capuleto, por muitos eram gritados e amaldiçoados. Outra briga insana desenrolava-se pelas ruas de Verona.
Oh, não! De novo não! — fala Romeu revoltado.
Por São Francisco! Outra briga civil?!
Amaldiçoado sangue! Eles têm que parar!
Romeu corta o jardim da capela, pega o seu cavalo e afoito, se põe a galopar de volta à sua cidade.
Oh, Romeu! Cuidado filho! — grita o frade preocupado.
Mas Romeu já ia longe e não mais ao alcance de sua voz.
— Que Deus o proteja e o faça controlar este vil ódio, que para a bela Verona, tornou-se verdadeiro opróbrio... — queixa-se Frei Lourenço entrando na capelinha.


continua...

Romeu e Julieta (em prosa e versos)-prólogo


Duas casas, iguais em dignidade-
na formosa Verona vos dirão-
reativaram antiga inimizade,
manchando mãos fraternas,
sangue irmão.
Do fatal seio destes dois rivais
um par nasceu
de amantes desditosos,
que em sua sepultura,
o ódio dos pais
depuseram, na morte venturosos.

Os lances desse amor
fadado à morte
e a obstinação dos pais
sempre exaltados
que teve fim naquela triste sorte
em prosa e versos
vereis representados.
Se emprestardes a tudo
coração atento,
supriremos as faltas
a contento...
continua...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Pigmalião e Galatéia capítulo I


Pigmalião e Galatéia
Adaptação de Paula Dunguel

Existia em Pafos um escultor solitário que vivia apenas para as suas obras. Isolado agora e com poucos amigos, depois de fazer suas orações no Templo de Afrodite, a quem sempre prestara culto, raramente saía de sua casa a não ser a trabalho. Vez ou outra, seu amigo Orestes ia visitá-lo.
O motivo de sua vida solitária, dava-se ao fato de ter sido traído pelas mulheres que passaram por sua vida e a última, a quem julgava ser seu grande amor, fez-lhe a mesma afronta.
Depois de tamanha decepção, ele perdera a confiança nas mulheres. Seu amigo tentava tirar-lhe daquela vida apenas de trabalho.
— Oh, Pigmalião, meu amigo! Não sei como consegues viver assim, apenas para o teu trabalho e nesta solidão?Precisas de uma companheira!
— Cuido-me muito bem assim, da forma que vivo. Não preciso de mulher alguma para cuidar de mim.
— Pelos deuses! Só por causa da decepção que Eurínome causou-te?! Nem todas são assim!
— Correção, amigo Orestes: todas são assim. Todas sempre me decepcionaram. Me desejavam, apenas, por ser conceituado escultor e para oferecer-lhes uma vida de luxo e regrada. Mas enquanto trabalhava arduamente em minha oficina, levavam para o meu leito, amantes mais jovens e divertiam-se às minhas custas!
— Pena sinto de ti. Pois cada dia que te vejo, estás cada vez mais amargurado! Não permitas que o passado, destrua a tua vida, Pigmalião... Saia mais! Divirta-se!
— Grato por tão solícita preocupação, amigo Orestes. mas estou bem...
— Fique com os deuses, meu amigo. Outro dia virei ver-te!
Despediram-se à porta e logo, Pigmalião voltou aos seus afazeres. Tentava distrair a mente, mas de repente, parava e permitia-se chorar. Deixava cair a máscara que teimava em demonstrar ao seu prestimoso amigo.
— Não existe mulher perfeita! Somente se eu a pudesse criar. Criar...
Pigmalião foi dormir naquela noite, com esta palavra martelando-lhe à cabeça.
Na manhã seguinte, foi ao templo de Afrodite, como era o seu costume. Oferecia-lhe incenso e voltava para casa.
Pigmalião não era belo de rosto, todavia, feio também não era. Tinha uma pele morena, olhos amendoados e negros, cabelos acobreados e ondulados, fixos por uma tiara à moda dos gregos; magro, porém não esquelético. Barba bem aparada e vestido como convinha à sua posição de artista.
Suas esculturas eram tão famosas que eram muito encomendadas e ornamentavam muitos templos da região. Com isso, fez uma pequena fortuna; não chegava a ser muito rico, mas o que possuía, permitia-lhe levar uma vida tranqüila, sem se preocupar com o amanhã. Era caridoso e sempre estava disposto a ceder dinheiro, para ajudar a quem precisasse.
Talvez o seu único defeito, seria insistir em viver solitário.
Uma certa tarde, após terminar uma encomenda e vendo-se ocioso, pegou um marfim bruto e começou a dar-lhe forma, sem nenhum objetivo aparente; fazia apenas para distrair-se e passar o tempo. Suas mãos ágeis foram esculpindo aos poucos, aquela massa amorfa e logo, percebera que estava criando a escultura de uma mulher. Talvez a mais bela de todas, que jamais havia feito: cabelos bem longos e sedosos; corpo comparado ao de uma Musa; lábios carnudos e bem delineados; rosto virginal e sereno, que a ele lembrou uma Vestal de pureza e delicadeza nas suas formas. Ao concluir aquela obra, sentiu o coração disparar. “Poderia existir, no mundo, mulher igual aquela?”...
Carinhosamente chamou-a de “minha virgem de marfim”. Passou tanto tempo trabalhando nela, que deixara de ir ao templo e nem saía de sua casa.
Orestes, sentindo a falta do amigo e julgando-o enfermo, foi visitá-lo às pressas.
— O que há contigo, amigo Pigmalião? Nunca mais foste ao templo!
— Estou por demais ocupado, meu amigo — comentava animado. — Creio que estou criando a obra mais linda do meu acervo! Ela é tão perfeita que parece ter vida!
— Por Zeus! Fiquei curioso agora!
Orestes reparou uma escultura coberta no canto da oficina e não cabendo em si de curiosidade, tentou ver, mas Pigmalião não permitiu.
— Não! Não! Não! Ainda não terminei! Quando eu terminar, serás o primeiro a vê-la, prometo! — jurou ele. — Será aminha maior obra! Aquela que entrará para a história, e todos lembrarão do nome PIGMALIÃO!
Orestes conformou-se e esperou até o amigo terminar.
Não satisfeito, Pigmalião resolveu pintá-la. Queria que essa escultura, em especial, fosse diferente dos padrões da época, que eram usadas em matéria crua, sem pintura. A virgem não merecia ser igual às outras; pedia cores, para mais real ainda tornar-se e assim, pintou-a: a pele mais clara que a dele; os cabelos, negros como ébano; nos olhos, usou um tom verde azulado, que lembrava as cores do Mar Mediterrâneo; os lábios, pintou com um tom carmesim e nas faces, um róseo bem suave, esfumaçado à altura das maçãs do rosto.
A imagem ficou linda! Perfeita! Parecia real! Parecia ter vida!
E assim, a estátua despertou em Pigmalião, os mais profundos sentimentos amorosos que guardava dentro de si. Viu-se apaixonado por sua própria arte.
O corpo estava nu e a ele, pareceu um sacrilégio deixar sua dama, assim, tão exposta. Mandou uma tecelã, conhecida sua, tecer para ela um belo vestido e um manto e pôs no pescoço da Virgem, um lindo colar que havia pertencido à sua mãe. A estátua, ainda mais real ficara.
Depois de finda a sua obra, chamou então seu amigo, conforme prometera, e mostrou-lhe a escultura.
— É linda Pigmalião! Uma obra-prima! Mas por que a vestiste?
— Para preservar-lhe a honra. Ela é minha mulher...
— Como? O que disse?! — riu-se o amigo incrédulo, julgando que ele estivesse brincando.
— Criei a minha própria companheira, a mulher que sempre sonhei ter...
— Mas é só uma estátua!!! Não tem vida!
— Engana-se, meu amigo. Ela tem vida! — disse ele acariciando a face fria de sua musa. — Repare! Ela está sorrindo!
Orestes olha, porém, nada vê.
— Pigmalião, por Zeus! Tantos anos de solidão afetou-te a cabeça!!! Isto não faz o menor sentido...
— Para mim faz! Eu a amo!
— Estás totalmente fora de si! Louco!
— SAIA DAQUI! — gritou ele. — Saia se não respeitas minha mulher!
— Mas meu amigo...
— Deixe-me a sós! — lágrimas vieram-lhe aos olhos. — Deixe-me em paz!
Vendo que Pigmalião estava muito alterado e sem condições alguma de dialogar, Orestes decidiu ir embora.
— Tudo bem. Irei embora. Mas retornarei quando estiveres mais calmo.

Pigmalião e Galatéia capítulo II

Ele sai. Pigmalião, numa atitude de revolta, joga seu cinzel contra a porta. Sentou-se em seguida e ainda muito transtornado, tentava em vão se acalmar. Depois, dirigiu-se à estátua.
— Talvez não tenhas vida, minha bela, mas pelo menos, nunca poderás trair-me. Ficarás comigo para sempre. Oh, Afrodite! Piedade de minha triste solidão... — desabafou ele, tornando a chorar.
Decidiu então, deitar a mulher no leito e cobriu-a, como se fosse para dormir um pouco. Apaixonado, beijou-lhe os lábios e disse-lhe que iria ao Templo de Afrodite.
— Voltarei em breve. Não se preocupe.
Orestes, por demais preocupado, espalhou entre seus amigos em comum, que Pigmalião, coitado, estava louco.
— Nossa! Ele precisa de um médico! — disse um deles.
— Algum de vós conheceis um?
— Sim, eu conheço um — falou um outro.
— Leve-me até ele então, por favor.
Nesse interím, Pigmalião já se encontrava no Templo. Queimou o incenso e prostrou-se em atitude de súplica, desabafando com sua deusa, às lágrimas.
— Oh, grande Afrodite! Deusa da beleza e do amor! Sede-me propícia! Creio que de fato estou louco, porque estou sofrendo de amores pela mulher a qual as minhas mãos deram forma. Nunca criei escultura tão bela! Oh, deusa! Sinto-me tão só... Apenas sei fingir que comigo está tudo bem, porém, por dentro, a amargura oprime o meu coração. Bela deusa, por que aquelas mulheres vis sempre me fizeram sofrer? Por que não fui digno de encontrar o amor e a felicidade? Só posso vos ter ofendido no meu passado. Se este for o motivo, peço-vos perdão. Perdoe-me, minha deusa, e tenha misericórdia deste pobre sofredor...
O fogo do Templo crepitou e um vento forte, entrou pelo antro, e a seguir, Pigmalião vislumbrou, admirado, a figura imponente e bela de Afrodite nas chamas ardentes. Ele perdeu a fala e quase desfaleceu com o susto.
Para acalmá-lo, ela lhe falou com doçura.
— Não temais, amado devoto meu! Jamais me ofendestes, pelo contrário, sempre fostes para mim motivo de orgulho por terdes o dom de criar a beleza com vossas mãos. E os deuses, meus irmãos e eu, não somos indiferentes à vossa dor.
Ele caiu com o rosto por terra novamente e muito grato disse-lhe.
— Alento deste-me ao coração, poderosa e bondosa Afrodite, por dizer-me tais palavras! Feliz sinto-me, por saber que jamais vos ofendi. Sou-vos grato, minha deusa e protetora...
— E porque sou vossa protetora, vim por ordem de Zeus, conceder-vos um pedido. Podeis pedir o que melhor vos aprouver e hei de atender-vos.
— Oh, minha senhora... Meu coração palpita ainda mais! Oh, deuses, obrigado!
— Peças Pigmalião: Qual o teu maior desejo?
Ele ia pedir para que sua escultura criasse vida, mas achou que seria abusar demais da boa vontade dos deuses. Nisso, ele refletiu, refletiu... e por fim, acanhado, disse:
— Peço humildemente, minha senhora, que eu encontre uma mulher, semelhante à minha Virgem de Marfim.
— Pedido aceito — disse a deusa. — Voltes para casa.
Pigmalião despediu-se da deusa e o fogo, apagou-se junto com a imagem dela. O Templo ficou às escuras e lá fora, já estava anoitecendo.
Ainda sem muito entender, porque havia recebido tamanha graça, voltou à sua casa. Pelo caminho, vinha pensando: “Porque não pedi que minha Virgem de Marfim criasse vida? E se realmente eu encontrar tal mulher? Ela também não irá trair-me como as outras?”
Ele chegou cansado e deitou-se na cama; ao lado, a escultura permanecia imóvel e silenciosa, ou pelo menos, imaginara ele. Foi quando Pigmalião, após acalmar-se, percebera uma outra respiração no quarto que não era a dele.
“Quem está aqui? — assusta-se. — Será que alguém invadiu minha casa durante minha ausência?” — indagara-se.
Preocupado, tocou a estátua como se protegesse a própria esposa e, pra surpresa do homem, seus dedos afundaram no marfim.
— Que isso?!!! — assusta-se a tal ponto, que chega a cair da cama.
Olhou estupefato para a mulher ao lado e reparou que seu peito estava mexendo, como se respirasse serenamente e em agradável sono.
— N-Não pode ser... — gagueja confuso.
Tocou-a outra vez e sentiu que, além da pele macia, sentiu uma sensação agradável e morna. Ao invés do frio do marfim, uma temperatura semelhante à humana. Para certificar-se ainda mais, acendeu uma lâmpada e olhou para a dama, de fato, ela estava respirando.
— Deuses!!! — gritou ele.
Com o seu grito, a mulher abriu os olhos e encarou-o. Pigmalião levantou-se e ainda não acreditando, aproximou-se dela. A dama lhe sorriu de forma radiante; um sorriso como ele nunca havia visto. Desta vez, ela sorria de verdade, não mero fruto de sua doentia e solitária imaginação.
— Mas, você...
Ele tocou-a na face e a Virgem repetiu o gesto. As lágrimas foram inevitáveis...
— Estás viva! És viva!!! De carne e osso como eu!
Pigmalião beijou-a apaixonado e depois do longo beijo, a donzela corou ao contato de seus lábios.
Fortes batidas na porta os assustaram. Era Orestes que chamava-o desesperado do lado de fora.
— Pigmalião!!! Meu amigo! Perdoe-me e deixe-me entrar! Eu só desejo ajudá-lo!
Ele abriu a porta e Orestes estava acompanhado de um desconhecido.
— Esse homem é médico e veio ver-te.
— Mas eu não estou doente!
— Como não?! Achas-te casado com uma estátua!
Nessa hora, a Virgem levantou-se e foi ver o que era.
— Pelos deuses!!!! — berra Orestes assustado. — Como pode?! Senhor, era fato. Meu amigo estava enamorado desta estátua! Não estou entendendo!
— Quem é ela senhor Pigmalião? — perguntou o médico.
— Minha mulher, senhor.
O médico olhou acusador para Orestes.
— Acho que quem está a precisar de cuidados sois vós.
— Mas, senhor... era verdade!!! Eu não sei como isso foi acontecer! Não sei como ela criou vida! — Pigmalião, que fizeste?
— Nada — riu ele.
A moça abraçou Pigmalião e sorria tímida para os dois homens que discutiam.
— Mas era verdade! Juro! — insistia o amigo de Pigmalião.
— Ora! Poupe-me! Fizeste-me vir aqui às pressas, para no fim não ser nada! Tenho mais o que fazer! Pessoas realmente doentes para atender! Felicidades para vós, Pigmalião, e todas as bênçãos dos deuses para vossa mulher, desejo. E muito bela por sinal, parece uma ninfa! Sois um agraciado!
— Grato, senhor — sorriu-lhe Pigmalião.
Orestes seguiu atrás do médico, ainda tentando convencê-lo.
— Cala-te ou quem será internado serás tu!
Pigmalião ouviu o médico ainda uma última vez e fechou a porta rindo e voltando logo em seguida para os braços de sua amada. Uniram-se no amor naquela noite, com as bençãos de Afrodite.
Pigmalião chamou-a de Galatéia, pois esta ninfa, certa vez, enquanto ainda era menino, salvou-lhe a vida. E assim, ambos viveram unidos e inseparáveis para sempre, gozando da plena felicidade conjugal e tiveram muitos filhos. E cada um mais belo do que o outro.

FIM